Mulheres seropositivas lutam contra falta de solidariedade dos maridos
22-08-2006 | Fonte: Lusa
A falta de solidariedade dos maridos é um dos maiores problemas das mulheres angolanas seropositivas, que contam a partir de hoje com uma associação especializada para as ajudar a ultrapassar as dificuldades provocadas pela doença.

"Depois de ter começado a emagrecer muito rapidamente fiz o teste da SIDA e deu positivo. O meu marido também fez, mas foi negativo, pelo que ele disse que não podia continuar a viver com uma mulher seropositiva e acabamos por nos separar", afirmou Amélia Paulo, 29 anos, em declarações à Agência Lusa à margem da cerimónia de apresentação da nova associação.

Esta jovem considerou que o seu casamento acabou com uma "separação que não foi digna nem correcta", mas a sua maior lamentação reside no facto de ter descoberto que era seropositiva "muito tarde", o que fez com que transmitisse o vírus a dois filhos que vieram a morrer.

Para evitar que outras mulheres vivam o mesmo problema, Amélia Paulo tornou-se numa activista da luta contra a SIDA, o que também lhe permitiu encontrar um novo objectivo para a sua vida.

"Antes sentia-me mal, pensava que o mundo tinha acabado, mas agora, que conheço outras mulheres com o mesmo problema, vivo a vida com outro ânimo", frisou, acrescentando que não se sente discriminada por ser seropositiva.

A infecção com o vírus da SIDA também foi a causa para o fim da relação que Jurema Sebastião, 27 anos, mantinha há vários anos com o seu companheiro, que também é seropositivo.

"Vivia maritalmente, mas agora estou separada porque o meu companheiro nunca quis assumir o seu estado", revelou a jovem, acrescentando que os primeiros tempos depois de saber que era seropositiva foram "muito difíceis" devido à posição assumida pelo seu companheiro.

"Sofri muita discriminação por parte das vizinhas do bairro onde vivia", recordou, salientando, no entanto, que já conseguiu "ultrapassar esse preconceito".

Um preconceito que Maria Francisca também tinha, até descobrir que também era seropositiva, o que a levou a inverter a sua posição e tornar-se numa activista da luta contra a SIDA.

"Ajudo várias mulheres seropositivas, especialmente nos hospitais e nas ruas, mas também vou a casa delas para lhes dar o apoio moral de que tanto precisam", afirmou.

Maria Francisca, que afirma ter uma "vida normal", não se sente discriminada pelo facto de ser seropositiva e, na sequência do tratamento que está a fazer, até coloca a possibilidade de vir a engravidar.

Estas três mulheres angolanas seropositivas integram um grupo de cerca de sete dezenas que assinaram hoje a acta de constituição da Associação das Mulheres Infectadas e Afectadas pela SIDA.

A associação tem como objectivo aumentar o nível de informação das mulheres angolanas para os perigos da SIDA, de forma a contribuir para a diminuição do número de novos casos da doença.

Por outro lado, pretende defender os direitos das mulheres seropositivas, alertando as autoridades competentes e a sociedade civil para a necessidade de criar mecanismos que permitam melhorar as suas condições de vida.

"Pretendemos ser um parceiro válido da sociedade civil junto do governo para defender a existência de mecanismos eficazes que possam garantir uma continuidade de vida saudável", afirmou Lurdes Veiga, da direcção da nova associação.

As autoridades sanitárias angolanas estimam que existam actualmente no país cerca de 450 mil seropositivos, dos quais 170 mil são mulheres.

No final de Junho, Dulcelina Serrano, directora do Instituto Nacional de Luta contra a SIDA (INLS), revelou que, desde 1985, foram registados em Angola cerca de 20 mil casos de SIDA.

Angola possui a mais baixa taxa de prevalência de SIDA entre os países da região da África Austral, mas vários responsáveis das Nações Unidas têm alertado para a necessidade de adoptar medidas que permitam aproveitar esta situação para combater o alastramento da doença.

O governo angolano, em colaboração com vários parceiros nacionais e internacionais, lançou recentemente uma campanha de sensibilização dirigida aos jovens, num esforço para combater a ignorância sobre a doença num país onde as relações sexuais se iniciam cedo e sem protecção.

Um estudo sobre conhecimentos, atitudes e práticas sexuais de jovens do meio urbano em Angola revelou que 43 por cento dos jovens angolanos iniciam a vida sexual aos 13 anos.
 
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