Angola na viragem
02-09-2006 | Fonte: Expresso (Isabel Tavares)
O sector bancário em Angola está mais apetecível do que nunca. Três novos bancos vão iniciar actividade nos próximos meses e mais de uma dezena já manifestou interesse em pedir autorização para operar naquele mercado. O Banco Nacional de Angola (BNA) deverá conceder as licenças a conta-gotas, utilizando-as como trunfo político.

Para já, é difícil avaliar o impacto que a nova concorrência terá na rentabilidade dos bancos existentes, mas a empresa de consultoria Deloitte, que vai apresentar ainda este mês uma análise aprofundada do sector, garante que a antiguidade é vantagem competitiva. Mesmo assim, é possível assistir a fenómenos como o do BIC, que, no espaço de um ano, passou para a quarta posição em termos de depósitos.

Pedro Barreto, «partner» da Deloitte responsável por Angola, diz que «o sistema financeiro está a atravessar um momento de fronteira, ditado, por um lado, pelo forte crescimento da base de depósitos, por outro pelo aumento da concorrência, com a entrada de novos ‘players’, que tornam a banca mais agressiva e segmentada». Outra tendência que deverá manter-se nos próximos dois a três anos, «e que penso ser estratégica e fazer sentido, é a angolanização do sistema. Ou seja, atribuir mais fatia do negócio bancário a capitais angolanos», explica.

Angola é o quarto produtor de crude de África, com 1,4 mil barris diários, uma produção que deverá aumentar para 2,4 mil barris/dia até 2010. Graças à subida vertiginosa do preço do petróleo, o país está a viver um dos momentos mais promissores da sua história.

Mesmo com 80% da população a viver em condições degradantes, uma taxa de inflação prevista de 10% e uma dívida externa de 12 mil milhões de dólares, o PIB (revisto em baixa em Julho último) deverá crescer 15,5% em 2006.

Angola está agora numa situação semelhante àquela em que Portugal se encontrava há 20 anos e este é o início de um longo percurso. O sistema financeiro está na sua infância. A população bancarizada é de apenas 5%. Em Portugal, este indicador é de 92%.

O mercado, ainda muito pouco voltado para o cliente, tem tudo para dar. Só recentemente foi posto em marcha o plano que prevê o pagamento dos salários da função pública através de contas bancárias ou a emissão e aceitação de cartão de crédito, inicialmente Visa. Os segmentos a explorar são inúmeros, dos cartões ao crédito ao consumo ou à habitação, passando pelo «leasing», «factoring», fundos ou o anunciado programa de privatizações.

Em 2005, a base de depósitos cresceu 66%, o que tem injectado liquidez no sistema. Os níveis de crescimento irão manter-se altos nos próximos anos, sobretudo agora que os angolanos começam a repatriar capital. O rácio de transformação de depósitos em crédito é ainda muito baixo e, devido ao aumento dos depósitos, caiu ainda mais, para cerca de 35%.

O efeito mais negativo com que os bancos, que elegeram Angola como motor de crescimento fora de Portugal, terão de se deparar, ainda que, no curto prazo, é o da quebra das margens, devido à forte descida das taxas de juro, de cerca dos 20% para 12% a 10%.

Este ano, a 5 de Novembro, o BNA comemora os 30 anos da sua constituição e faz 50 anos que os serviços do então Banco de Angola foram transferidos de Portugal para a sua nova sede, em Luanda. Na ocasião, o governador do Banco Central não deverá deixar os créditos por mãos alheias, aproveitando para capitalizar os ganhos potenciados pelo excelente momento económico do país.
 
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