O acordar de uma oposição louca por eleições
03-09-2006 | Fonte: Angolense (João Marcos)
Como resultado do apoio que a oposição angolana recebeu dos Estados Unidos da América para a definição de um calendário eleitoral, Benguela contará com um Fórum de Concertação formado por representantes de partidos políticos e, quiçá, de líderes religiosos

Tudo leva a crer que o Fórum de Concertação venha a ser criado dentro de uma semana, altura em que todos os representantes de partidos da oposição sediados em Benguela estarão reunidos para um ampla discussão sobre o assunto, desta feita na presença do PRD, ausente do encontro preliminar realizado há sete dias.

Embora as fontes por nós contactadas não tivessem dado muita relevância ao facto, o certo é que o apoio dos EUA para a marcação de eleições surge como que “um alento para a necessidade de uma estrutura que discuta questões inerentes ao evoluir da situação política, estando o processo eleitoral no centro das atenções”.

O Angolense soube que esta estratégia está a ser acompanhada a risca pelas estruturas centrais destes partidos no âmbito da sua ainda “tímida” campanha que visa pressionar o presidente José Eduardo dos Santos a definir já um calendário eleitoral.

É certo que esta estrutura, que também poderá ser designada Concelho de Concertação, vai tratar de outros aspectos, muitos dos quais ligados ao quadro social e económico da província, mas o sempre actual debate em torno das próximas eleições, como resultado do apoio da toda poderosa América, será prioridade.

Aliás, o facto de o MPLA, enquanto partido no poder, não ser tido nem achado para um Fórum que se propõe debater questões sobre a vida da província em vários domínios ilustra apenas que tudo tem a ver com uma estratégia assente numa ofensiva para as segundas eleições gerais no país, afiançou fonte conhecedora do processo.

“A intervenção da América surge como que um balão de oxigénio”, resumiu. Contactado pelo Angolense, o secretário provincial da UNITA, Victorino Nhany, disse que a oposição ainda não decidiu se enquadra ou não o MPLA neste Fórum ou Concelho de Concertação.

Na conversa com o político, ficou claro que é mais do que provável estarem representados líderes religiosos, mas tudo ficará definido daqui há uma semana.

De resto, Victorino Nhany disse que esta estrutura vai abordar, sempre que a situação exigir, aspectos como a consolidação da reconciliação nacional, a dinâmica eleitoral, recolha de armas em posse da população e outros não menos importantes.

“Para já, é dispensável a presença do MPLA, mas mais tarde, já com o órgão criado, é possível que venhamos a rever a nossa posição”, disse a fonte, para mais adiante reconhecer que existem fortes probabilidades de uma abertura para a igreja.

Convidado a emitir um pronunciamento sobre a posição norte-americana, o secretário da UNITA em Benguela afirmou que “o país precisa de eleições, a Assembleia Nacional está caduca e que este apoio vem beneficiar a democracia”.

PRD fala em lentidão no processo eleitoral
O Partido Renovador Democrático considera que a oposição deve, agora mais do que nunca, resgatar este espaço de debate sobre aspectos pertinentes. É que as discussões sobre o próximo pleito eleitoral, na visão de Eurico Bongue, secretário provincial do PRD, exigem este Fórum de Concertação e, sendo a oposição independente, tem sempre uma palavra a dizer. O político vê na necessidade de ser normalizar a vida do país a razão mais do que suficiente para a definição de um calendário eleitoral.

Também ele preferiu não relacionar o apoio vindo dos EUA e o alento que se impõe para um processo mais célere, salientando apenas que “não é preciso o apoio de quem quer que seja, as eleições são irreversíveis e necessárias”. Noutra vertente, Eurico Bongue considerou que o processo eleitoral está ainda longe do ideal.

“Está muito lento, é preciso ainda muito trabalho”, desabafou. Este pronunciamento surge numa altura em que o presidente da Comissão Provincial Eleitoral (CPE), Manuel Calequera, acaba de constatar uma gritante falta de instalações para o funcionamento dos Gabinetes Municipais Eleitorais, sobretudo no interior, onde esteve recentemente em visita de trabalho.

Refira-se que o PRD foi o ausente do encontro preliminar da oposição em Benguela, decorrido na sede da UNITA, onde estiveram, para além do anfitrião, a FNLA, PRS, PADEPA e o PAJOCA. O próximo encontro, o decisivo para a criação do Fórum, será realizado em local neutro.
 
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