«Sururu» na comunidade islâmica
13-09-2006 | Fonte: Semanário Angolense
Está em curso uma renhida disputa pela liderança da Comunidade Islâmica de Angola (Coia), algo que acontece agora que representantes do Estado elegeram a associação como interlocutora para os contactos relativos à legalização dessa confissão religiosa no nosso país. David Já e Ibrahim Soumaré, respectivamente presidente e vice-presidente da Coia, definiram o exaltado debate que neste momento sacode a associação, como o resultado da recusa de um influente residente islamita de origem maliana em aceitar uma liderança predominantemente angolana para a representação oficial da religião islâmica no nosso país.

Segundo David Já, angolano eleito presidente da Coia, o estabelecimento de uma liderança nacional para o islamismo no nosso país é aceite por 98 por cento dos fiéis locais, embora eles se constituam geralmente em residentes oriundos do norte e do ocidente de África, assim como do médio oriente. Ibrahim Soumaré, um jurista senegalês, confirmou que a imensa maioria dos adeptos islamitas concorda com o princípio do estabelecimento da liderança angolana, mas estima que apenas 85 por cento deles aceita isso.

Na verdade, declarou David Já, o estabelecimento de uma liderança caracterizada pelo pressuposto fundamental de estar assente na nacionalidade angolana dos seus integrantes é uma emanação direccionada para o fim último de se obter a legalização do culto islâmico em Angola. De acordo com o presidente da Coia, oficiais do Governo angolano, preocupados com o facto do islamismo ter vindo a estar repetidamente relacionado com fenómenos de tensão política e militar em outras partes do mundo, chegaram a manifestar-se temerosos em instituir no nosso país essa confissão religiosa.

Os receios dos meios institucionais angolanos tornam-se maiores diante da perspectiva dessa igreja poder ser liderada pelas influências que actualmente transformam o islamismo numa apologia do terror e num elemento de instabilidade. Para Ibrahim Soumaré, os receios do Estado angolano são legítimos, porquanto a igreja não tem, ela própria, meios para controlar a penetração de influências subversivas.

Soumaré minimiza, contudo, tais receios, porquanto considera que muita da mentalidade que inspira os grupos extremistas, como a predisposição suicidária, não é cultivada no elemento africano. Os ataques terroristas atribuídos a islamitas no Quénia e na Tanzânia, os únicos no nosso continente, não foram perpetrados por africanos.

Seja como for, em resposta a esses receios, representantes do Governo propuseram, contra a possibilidade da viabilização dessa confissão, uma espécie de um produto melhorado: solicitaram que, sob uma liderança angolana, se congregassem numa única associação todas as tendências que a pretexto do islamismo foram aparecendo em Angola. Realce-se que, enquanto não legaliza a profissão islamismo em Angola, o Governo tem estado a autorizar a instituição de associações cívicas ligadas a essa religião, como a Comunidade dos Crentes, a Cislang, a Associação Islâmica para o Desenvolvimento de Angola (Aida) ou a Associação de Beneficência Angolana (Aba).

O Coia é praticamente a consumação dos interesses das duas partes: à volta de uma liderança angolana, estão congregadas as diversas iniciativas de carácter muçulmano, com o que ficam abertas as possibilidades mais próximas da legalização que a igreja já alguma vez conseguiu. Mas Adama Diaketé, um negociante maliano que fundou a Aba, decidiu insurgir-se contra a liderança angolana, não por motivos relacionados com a fé, mas, de acordo com os representantes do Coia, por questões ligadas a dinheiro.

Apesar da intenção de presidir a comunidade, com o que reduziria a zero as hipóteses da igreja obter a legalização, os oponentes do Coia imputam-lhe o objectivo de querer reunir para si o delicado sector das finanças. Ele é acusado de pretender impor normas draconianas para as contribuições dos crentes, o que seria apenas um meio de se servir a ele próprio à custa dos seus irmãos de fé.

Desde que estes problemas foram levantados, os apologistas de cada uma das partes não param de subir o tom. Embora David Já e Ibrahim Soumaré considerem não estar a comunidade muçulmana em conflito, a verdade é que das divergências de gabinete, as partes passaram a ir debater os seus problemas na comunicação social, como aconteceu na Tpa durante o último fim de semana, mas Adama Diaketé já acusou o presidente do Coia de lhe ter enviado homens que o ameaçaram com armas. Esta última acusação foi refutada por David Já, que reconheceu ter tido conhecimento que um grupo de jovens fiéis angolanos foi pedir em termos exaltados a aderência de Adama Diaketé ao Coia, rejeitando, entretanto, qualquer associação a esse movimento.

De resto, o acusado diz não ter recebido qualquer notificação da Polícia Nacional em resultado da queixa que era suposto Adama Diaketé apresentar, caso tivesse sido efectivamente ameaçado.

Afinal, a perspectiva de legalização da igreja muçulmana, ao invés de gerar a paz entre os fiéis, parece estar a torná-los possessos. Não se trata de fé, mas de poder e dinheiro.
 
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