A história secreta da ideologia da Unita
03-03-2007 | Fonte: Semanário Angolense (James Kean* )
Embora Jonas Savimbi tenha cometido vários erros estratégicos, ideologicamente ele manteve uma certa coerência. A ideologia por que se guiava assentava nas linhas do «hino nacional da Unita» que fala da República Negro Africana e Socialista de Angola.

Savimbi acreditou até ao fim da sua vida num nacionalismo africano e num socialismo baseado no centralismo do qual ele seria sempre o timoneiro. Internacionalmente, pelo menos a partir dos anos 80, Savimbi era visto como uma figura da direita, alguém que estaria inclinado para um certo liberalismo democrático e pelo mercado livre. Figuras de proa do Partido Republicano dos Estados Unidos como a falecida Jeane Kirkpatrick, que foi representante de Washington nas Nações Unidas, não se cansavam de elogiar Jonas Savimbi como um grande intelectual e líder da direita. Kirkpatrick foi, na administração Reagan, uma das figuras que mais se bateu contra o comunismo.

Jornalistas ocidentais que acompanharam a sua vida, frequentes vezes perguntavam a Jonas Savimbi sobre a sua trajectória da Esquerda para a Direita. Invariavelmente, Savimbi respondia que enquanto jovem aderiu à Esquerda por ingenuidade. Já em idade adulta dizia que optou pela Direita por ser o caminho mais correcto.

Na realidade, Savimbi nunca abandonou o marxismo ou maoísmo da sua juventude. No Centro de Estudos Kapesi Kafundanga (Cekk) - que levava o nome de guerra de Samuel Chingunji, o primeiro chefe de Estado-Maior da Unita e pai do actual ministro do Turismo, Eduardo Chingunji - as disciplinas de marxismo-leninismo e do maoísmo ocupavam lugares muito importantes na formação dos quadros políticos da organização.

No Cekk, os formandos tinham que dominar um manual, escrito por Jonas Savimbi, designado Guia Prático do Quadro. Este manual era uma adaptação, feita pelo próprio autor, às condições angolanas, do famoso Livro Vermelho, de Mao Tse Tung.

Na ideologia de Jonas Savimbi, a guerra em Angola tinha pouco a ver com a luta contra o comunismo até porque ele idealizava a criação de uma ditadura, baseada na classe dos camponeses, que desembocaria no desaparecimento do Estado.

A teoria que se propagava no Cekk sustentava o argumento de que o Mpla era composto de pequeno burgueses que defendiam os seus interesses de classe. Os russos e cubanos, neste cenário, eram expansionistas cujo objectivo principal seria a exploração das riquezas angolanas. Neste sentido, eles faziam parte de um conluio para oprimirem os negros angolanos.

Segundo a filosofia de Savimbi, que se propagava no Cekk, o país ideal, com que sonhava, seria aquele liderado por uma elite, que ele identificava como a «escol». Essa elite, que ele concebia como politicamente firme e esclarecida – em outras palavras cegamente fiel ao líder máximo – teria, então, o papel de implementar os objectivos da revolução.

No Cekk não se acreditava no mercado livre. Dizia-se que tal sistema permitia a existência da exploração do homem pelo homem e a apropriação da mais-valia. Nos territórios então controlados pela Unita a iniciativa privada não era admitida. Savimbi tinha um desprezo profundo por comerciantes.

Na Jamba nem toda gente concordava com a filosofia do Savimbi. Os velhos, idos das várias missões evangélicas do Planalto Central, boa parte deles progenitores de parte significativa da elite política e militar da Unita, contestavam claramente o ateísmo de Jonas Savimbi.

Segundo Fred Brigland, biógrafo de Savimbi que depois se tornou seu inimigo, o então presidente da Unita ordenou a morte de Jonatão Chingunji – uma figura de renome no Planalto Central – porque ele não concordava com a falta de moral na conduta de Jonas Savimbi.

Nos territórios controlados pela Unita, Savimbi pretendia criar um mundo com uma outra moral e ética. Nas sociedades mais avançadas, dizia Savimbi, o amor era político. De acordo com o raciocínio de Savimbi, para serem ideais, as relações humanas teriam que ser determinadas pela conveniência política. Um reaccionário – alguém que fosse hostil ao líder máximo, por exemplo – tinha que ser evitado, mesmo pelos seus íntimos. Os religiosos, por seu lado, discordavam desta moral. E isso custava-lhes, não raras vezes, punições muito severas.

É curioso que, em tudo isso, Savimbi manteve boas relações com a igreja Católica. Para isso, foi seguramente determinante o papel – que Savimbi apreciava bastante - que os padres tinham na formação de quadros nos vários liceus controlados pela Unita e também porque ele admirava a sua formação académica. Savimbi nunca se cansava de repetir que os padres tinham melhor formação do que os pastores das igrejas evangélicas. Alguns desses padres ousavam mesmo questionar a ética da sua conduta pessoal.

Havia, também, vários intelectuais que não estavam plenamente de acordo com o maoísmo de Savimbi. Na filosofia de Jonas Savimbi, não se permitia o debate ou exploração de ideias. Houve um episódio, no Cekk, que se tornou célebre: num exame final, um quadro, de uma certa idade, citou Platão na prova oral. Jonas Savimbi ficou tão furioso ao ponto de dizer ao examinado que a Filosofia que aprendeu no 7º Ano não tinha qualquer valor. Obviamente esse aluno foi reprovado, ao passo que os jovens camponeses, que regurgitaram servilmente o Guia Pratico do Quadro dispensaram com as maiores notas.

Mesmo na Jamba, muitos dos mais bem preparados quadros seniores da Unita já questionavam, em privado, a integridade intelectual do líder máximo. Jonas Savimbi era um verdadeiro bibliófilo, que «devorava» tudo em francês, inglês e português. Há quem diga que entendia, também, alemão. Só que ao discursar perante os quadros, Savimbi exprimia ideais sem citar as suas origens. E muitos dos quadros, que também liam muito, apercebiam-se dessa desonestidade intelectual. Alguns desses comentários, feitos obviamente em privado, chegavam, inevitavelmente, ao conhecimento de Savimbi através das várias redes de recolha de informações que ele tinha disseminado na Unita.

Mas como é que a Unita, uma organização internacionalmente conhecida como sendo de Direita, consegui disfarçar o facto de que, internamente, o que se propagava era o Maoísmo e o Leninismo? A Unita foi, durante muitos anos, uma organização fechada, uma espécie de Coreia do Norte. Apenas alguns dos seus quadros, da absoluta confiança de Savimbi, eram autorizados a viajar para o exterior. Mesmo esses, contudo, não viajavam sozinhos. Tinham sempre alguém a acompanhá-los em todas as reuniões que tivessem. Por sua vez, os estrangeiros que visitavam a Jamba e outras localidades tinham os passos apertadamente vigiados por indivíduos ligados aos diversos serviços de inteligência da Unita. Todas as conversas e opiniões que tivessem eram prontamente reportadas em relatórios ao próprio Savimbi.

Jonas Savimbi era, também, um mestre de encenações. Em 1985 houve, na Jamba, uma conferência que reuniu vários movimentos que lutavam contra o comunismo no mundo. Os habitantes da Jamba viram representantes do Afeganistão a verberarem apaixonadamente a presença soviética no seu país. Várias entidades da América Latina – incluindo a Nicarágua – louvaram Jonas Savimbi por ser um grande lutador contra o comunismo. Porém, logo que aqueles anticomunistas partiram, Savimbi chamou os seus apoiantes para dizer-lhes que todos os que tinham acabado de partir eram uma corja de reaccionários. Savimbi criticou, em particular, o representante de um movimento anti-Castro que tinha ligações muito fortes com a Coca-Cola.

E como é que este «revolucionário» de ocasião justificava a sua aliança com movimentos que ele, em privado, tratava com desdém? Um dos termos que Savimbi usava com muita frequência – adquirido do Mao Tse Tung – era «frente unida».

Savimbi dizia repetidamente que entre 1937 a 1945, o Partido comunista Chinês fez uma aliança com os nacionalistas de Chiang Kai- Shek para resistir à invasão japonesa. Ele dizia que todas as aliançais que a Unita fazia – incluindo com o regime racista da África do Sul – poderiam ser enquadradas neste âmbito. Segundo ele, o que estava em causa era a pátria e para a sua defesa poderia pactuar-se mesmo com o próprio diabo.

Além de Mao Tse Tung, Savimbi tinha uma profunda admiração por Joseph Vissarionovich Dzhugashvili, mais conhecido como Estaline. Em várias palestras no Cekk, Savimbi disse aos quadros que a críticas a Estaline não eram justas porque para a implantação do comunismo na União Soviética era indispensável liquidar os pequenos burgueses e agricultores que se ainda se mantinham fieis ao sistema czarista. Savimbi admirava a severidade de Estaline. Quando, em 1986, Mikhael Gorbachev começou a falar de glasnost – e alguns intelectuais na Jamba disseram que deveria, também, acontecer o mesmo na Unita, Savimbi reagiu com a inclemência de sempre: muitos desses intelectuais foram parar à cadeia e outros foram mortos.

Nos anos 70, Jonas Savimbi apresentava-se como um nacionalista africano e exaltava a teoria da negritude que foi articulada pelo antigo Presidente do Senegal, Leopold Sedar Senghor. Savimbi era um confesso admirador de Senghor que, além de ser membro da Academia Francesa era, igualmente, um notável poeta.

Numa entrevista que deu em 1979, por exemplo, Jonas Savimbi exaltava o Festival da Cultura Africana que foi realizado na Nigéria, em 1977. Savimbi falava, então, da afirmação da cultura africana e do homem negro. Em muitos corredores da África Ocidental este discurso teve uma enorme repercussão e rendeu a Savimbi muita simpatia já que ele apresentava a sua luta como sendo uma resistência africana contra a imposição de culturas alheias ao continente. Para os quadros da Unita no Cekk, Savimbi utilizava o tema da negritude para dar ênfase à noção de uma luta de classes. Ele falava reiteradamente da coesão entre os mestiços do Mpla.

No Cekk, Jonas Savimbi permitia-se mesmo ficar uma tarde inteira a falar sobre Lúcio Lara, Paulo Jorge e outros mestiços do Mpla. O líder da Unita nutria algum respeito intelectual por Lúcio Lara, embora o apresentasse sempre como defensor dos interesses dos brancos e mestiços. Numa inesquecível palestra, Savimbi discursou durante horas contra Ruth Lara, a esposa de Lara, que, segundo ele, era uma judia alemã que não merecia tanto poder em Angola. Savimbi argumentava que os negros em Angola eram dominados porque não eram coesos como os mestiços.

Savimbi dizia aos quadros do Cekk que a Unita estava a enfrentar um grupo em Luanda que utilizava um discurso marxista para disfarçar a defesa dos seus interesses de classe.

Um dos temas favoritos de Jonas Savimbi era a revolução do Haiti em que, de 1791 a 1804, os escravos negros revoltaram-se contra os franceses para construírem a primeira república negra na história do mundo. Afirmava sempre que a revolução haitiana falhou porque os mulatos tomaram o poder em detrimento dos negros. Savimbi via muitos paralelos entre o Haiti e Angola.

Nos territórios dominados pela Unita houve momentos em que Jonas Savimbi tinha o controlo absoluto de tudo que eram ideias. Mas isto não foi sempre assim. Nos fins dos anos 70, quando a Unita foi para as matas, a sua liderança era colectiva: naquela altura às activistas políticas era permitido elogiarem as qualidades morais e também físicas de indivíduos como o comandante Samuel Chiwale, Nzau Puna ou Waldemar Pires Chindondo, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Unita.

Em 1978, Tito Chingunji, que foi assassinado por Savimbi, fez uma digressão pela China. No seu regresso, ele começou a falar de «pureza ideológica». Rapidamente surgiram vozes a sugerir que Tito Chingunji estaria a ser teleguiado. Diz-se que tais vozes teriam sido encorajadas pelo próprio Savimbi que queria acabar com os vários pólos de influência que supostamente existiam na Unita. Teria sido o mesmo Savimbi que incentivou uma grande purga para livrar-se de rivais e gente cuja disposição ideológica não coincidia com a dele. Foi neste tempo que figuras como Jorge Ornelas Sangumba, que estudou Ciências Política na Universidade de Nova Iorque, desapareceram.

Depois dos Acordos de Bicesse, em 1991, Jonas Savimbi perdeu o controlo absoluto dos seus quadros já que muitos deles tomaram contacto com outras realidades, nomeadamente às dos grandes centros urbanos do país.

Embora falasse de democracia, nos seus discursos da campanha eleitoral de 1992, Savimbi já não convencia muitos dos seus quadros. Aqueles que estudaram no Cekk suspeitavam que, depois da tomada do poder, o velho continuaria com o seu grande projecto maoísta.

*Académico, especialista em Assuntos Africanos
 
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