«Sobre os candongueiros da cidade de Luanda» por Sousa Jamba
17-03-2007 | Fonte: Semanário Angolense
Quando recente-mente estive em Luanda, decidi que deveria tentar, o máximo possível, viver como um luandense comum e viajar pelo famoso candongueiro. Muitos dos meus amigos preveniram-me: os candongueiros de Luanda andam cheios de criminosos que, ao perceberem que sou um «boelo» vindo do estrangeiro, iriam assaltar-me sem piedade.

Em todo caso, eu queria mesmo viajar no candongueiro. Como precaução, viajei com um sobrinho gigantesco a quem mesmo um Mike Tyson olharia com respeito. Tentei sempre viajar no banco de frente do Hiace, bem ao lado do motorista.

A nossa primeira viagem foi do São Paulo, onde estava hospedado, ao Morro Bento onde tenho alguns parentes. Fizemos o percurso em dois Hiaces, o último dos quais conduzido por um motorista muito educado que me agradeceu bastante quando o aconselhei a usar permanentemente o cinto de segurança.

No nosso regresso é que vi verdadeiras loucuras. A dado momento, o nosso Hiace efectuou uma paragem, perto do Gamek. Soubemos que uma menina tinha sido assaltada (os dois meliantes que roubaram tudo o que ela tinha estavam armados com uma pistola) enquanto as outras pessoas olhavam sem nada fazer. Sim, alguém a ser assaltado e ninguém fazer nada!

Um dos passageiros do nosso Hiace disse que os criminosos em questão eram bem conhecidos da Polícia, mas que ela não fazia mesmo nada. Numa outra paragem e apesar de estar bem perto do motorista, dois miúdos tentaram meter as mãos no meu bolso. Tive de fazer um dramático apelo ao sobrinho, que, enfurecido, quis dar uma lição instantânea aos ladrões.

Mudamos para um outro Hiace e desta vez instalei-me por detrás do motorista, um indivíduo que não parava de falar. O cobrador, cujo vocabulário parecia muito limitado já que só dizia palavrões que começavam com letras p, f, ou m, tinha uma cerveja na mão. Havia, neste Hiace, música a tocar muito alto.

De vez em quando, um dos passageiros pedia que o motorista baixasse o volume para poder atender o telefone celular. E esses passageiros falavam nos seus celulares como se estivessem a gritar para alguém que estivesse no fundo de uma cacimba. «Em vez de tirar a panela do feijão», ouvi uma passageira a gritar ao telefone, «foste ver a telenovela com a Fifinha. Hoje vais ver! Venho aí. Motorista, faz favor, pode pôr a música». De repente, começou a tocar uma música em umbundu em que a cantora lamentava que muitos jovens tenham optado pelo «caminho da liamba» (onjila yepangwe).

A dado momento, o motorista parou no bairro Mártires para comprar cerveja. Eu disse-lhe que nos Estados Unidos ele iria directamente para a cadeia porque lá conduzir uma viatura com passageiros em estado de embriaguês era um crime sério. «Lá é na América, pai!», argumentou ele.

«Aqui é em Angola; somos livres! Até porque os americanos estão a apanhar a sério lá no Iraque». E pôs-se a rir ruidosamente. O que me surpreendeu bastante é que nenhum dos passageiros saiu do candongueiro ou manifestou qualquer inquietação com o motorista que tinha comprado várias garrafas de cervejas. Eu perguntei ao motorista se ele não pensava que havia grande probabilidade de ter um acidente enquanto conduzia e bebia. «A maior parte dos acidentes aqui em Angola são causados por gente que não bebeu álcool. Depois de beber, pai, eu fico complemente concentrado. Nunca tive um único acidente», justificou-se.

O motorista continuou com o seu tema em defesa da cerveja. «Neste trabalho, pai, tenho muitas vezes que ajudar as solteiras, viúvas e todo tipo de mulher carente aqui na capital. A cerveja dá-me muita força. Se você ver bem em Angola, todos os homens que são corneados bebem só gasosa e sumo! Pai eu tenho várias damas, todas elas sabem que quando chego em casas dela na cama é “Massacre no bairro Japonês!” Pai, eu não brinco em serviço graças às cervejas».

O motorista começou, depois, a criticar a Polícia. «Nesta cidade, a Polícia está fora de mão, pai. No São Paulo, você encontra mesmo um polícia a rebolar no chão com a mulher do outro no kafriki só porque a dona estava a vender qualquer coisa para sobreviver».

O Hiace parou em frente de umas meninas bem vestidas que não estavam interessadas em ir a São Paulo. Enfurecido, o motorista disse: «Andam ali todas armadas em doutoras mas de noite, na Mutamba, não há que não mostram aos nguetas!»

O nosso motorista tinha opinião sobre qualquer assunto na terra – a ineficácia dos preservativos; a invasão dos «salamalekuns» da África Ocidental, que ensinam às mulheres e meninas angolanas hábitos muito estranhos, etc. Com este motorista não havia nenhum diálogo. Ele era um homem de monólogos.

Devo confessar que depois da primeira viagem no candongueiro criei um gosto por este meio de transporte. Já viajei em meios equivalentes a candongueiros no Quénia e na África do Sul, mas em nenhum deles vi tanto surrealismo como no de Luanda. Nos candongueiros de Luanda há cenas tiradas directamente dos filmes de Pedro Almodovar.

Será que há, em Luanda, gente que anda aborrecida com a vida? Não ficaria nada surpreendido se um dos melhores romances de Angola fosse uma obra que celebrasse a excentricidade de Luanda.

Será que o candongueiro é, também, um outro microcosmo da sarrabulhada cultural que é Angola? E por que é que os passageiros dos candongueiros temem os cobradores e os motoristas? E de onde vem o hábito de dizerem palavrões em público impunemente?

Não consegui obter respostas para estas e várias outras perguntas. Porém, alguém me disse que iria pôr-me em contacto com um estudante angolano de Antropologia no Canadá que estava a pensar em escrever uma dissertação sobre os motoristas e cobradores dos candongueiros.

Crónica assinada por Sousa Jamba e publicada no SA
 
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