A queda do avião que matou Amões e companheiros de viagem
28-01-2008 | Fonte: Semanário Angolense
A serra do Mbave, onde com 12 outras pessoas morreu o empresário Valentim Amões, vítima do fatal acidente de aviação de sábado, 19, tem uma altitude de 2.021, 6 metros e está a uma distância de cerca de 26 quilómetros da cidade do Huambo.

O acidente ocorreu às sete horas e quarenta minutos. Não se conhecem as reais causas, embora as autoridades aeronáuticas angolanas apontem o nevoeiro que se fazia sentir na altura como a causa mais provável. Pilotos experientes contactados pelo Semanário Angolense advertem, no entanto, sobre o risco das conclusões precipitadas. Dizem que conclusões mais próximas do que realmente aconteceu apenas se poderiam tirar da análise à caixa negra, caso o avião possuísse uma.

«Não se pode saber o que realmente aconteceu, não ficaram sobreviventes» adiantou um deles. Os pilotos contactados por este jornal descartam a possibilidade de o seu colega Augusto Soneca ter baixado a altitude de voo por ordem de Valentim Amões. «Não é possível. Em voo as ordens não vêm de trás para frente, é o contrário. Que é seja o patrão ou o Presidente da República, quem garante a segurança em voo é o piloto».

Esta questão foi suscitada pelas informações que corriam, segundo as quais o empresário, por diversas veze,s teria ordenado aos seus pilotos que voassem mais baixo sobre zonas que queria observar ou mostrar aos seus companheiros de viagem, assim como, diz-se também no Huambo, em algumas ocasiões terá ordenado alterações de rota já em pleno voo. Azeres Amões, filho do empresário confirmou a este jornal que o seu pai gostava de mostrar às pessoas a zona onde nascera. «Algumas vezes, ao sobrevoar aquela zona, o meu pai emocionava-se muito e queria mostrar-nos tudo. Ele gostava que as pessoas vissem lá de cima o sítio onde tinha nascido, gostava que as pessoas vissem de onde vinha».

Coincidência ou não, o jornalista Gilberto Neto, que dedica nas páginas deste jornal um comovido artigo ao empresário, também narra um voo de baixa altitude realizado em companhia do empresário há já alguns anos, entre o Huambo e Bié.

Escusando-se, entretanto, apontar uma eventual causa, os nossos interlocutores, pilotos de uma companhia comercial angolana, disseram que as causas possíveis são múltiplas. «O acidente pode ter tido a ver com um cabo mal apertado na última revisão, pode ter sido uma avaria nos instrumentos, a perda de um motor, ou qualquer outra anomalia que levasse a que o avião perdesse altitude», estimaram.

Com efeito, na última comunicação com a torre do Huambo, segundo o responsável da Enana na província, o piloto comunicara que estava a voar a uma altura de 11 mil pés e que subiria para os 12 mil. «Aos 11 mil pés já se pode voar bem no Huambo, aos 12 mil é muito mais seguro. Alguma coisa fez com que o avião estivesse a voar tão baixo». Sobre a possibilidade de o mau tempo ter feito o avião perder altitude, uma das fontes, que já foi piloto de Mig, disse que as neblinas, que era o que havia naquela manhã de 19 de Janeiro, não provocam turbulência nem «puxam» o avião para baixo. Quando, muito dificultam a visão.

No mesmo dia em que conversamos com os dois pilotos, o vice-ministro dos Transportes, Hélder Preza, disse à comunicação social que aquele tipo de avião, o Beechcraft 200, não trás caixa preta. Fica assim lançada a suspeita de que provavelmente nunca se conhecerão as causas exactas do acidente que vitimou um dos mais bem-sucedidos empresários angolanos e os outros 11 ou 12 ocupantes do avião da Gira Globo, curiosamente propriedade de Valentim Amões.

Um empreendedor de mão cheia

Poucos empresários terão feito tanto em tão pouco tempo para a emancipação de uma região, para afirmação de uma classe, ou até para o crescimento deste país, como fez Valentim Amões. Tinha 47 anos de idade, serviu nas Fapla, de 1978 a 1980, e estava onde estava.

Reabilitou estradas, escolas, ofereceu oportunidades a milhares de pessoas deu voz a uma mão cheia de artistas. O desafio que se coloca agora ao excepcional grupo empresarial que criou é a coesão e o estabelecimento de uma nova cadeia de comando. De resto, esta foi a preocupação principal de centenas de pessoas que deixaram as suas mensagens gravadas no livro de condolências aberto em Luanda.

O grupo Valentim Amões emergiu como tal pouco depois da guerra de 1992. Até aí era conhecido como Wapossoka e Nambula Lda. A refrega de 1992 na qual foi associado à Unita teve custos pesados para ele e para a família. Perdeu imóveis e outros bens.

Mais desgastante terá sido a fracção do grupo. Valentim Amões partiu para um lado, e os irmãos, Segunda Amões e Faustino Amões, seguiram os seus próprios destinos.

O primeiro foi para a África do Sul, onde ficou durante muito tempo e voltou convenientemente organizado. O segundo deixou-se estar por aqui, desenvolvendo negócios que embora o tivessem deixado numa posição confortável, não atingiram, contudo, o nível dos empreendimentos de Segunda, e muito menos os de Valentim.

Dos três, Valentim é que foi mais longe. Deixou de pé, com pernas para andar, centenas de projectos e iniciativas e um património valiosíssimo. Interveio na entrada em Angola da South Africa Airways. A Aarv, Agência Angolana de Representações e Viagens, com sede na baixa de Luanda, representa a Saa em Angola.

Das suas iniciativas constam ainda o controlo da York, da Casa Holandesa, o lançamento da agência de viagens e protocolo Tropicana, da companhia de aviação Gira-Globo, que contava, entre outros, com um IL 76, um AN 12, vários B 200, um B1900 de 19 lugares, e mais dois jactos. Juntava-se a isto uma série de empreendimentos no sul de Angola.

Tinha em fase de construção em Luanda o Hotel Tropicana, e pela sua mão entraram em Angola mais de 1500 viaturas, sendo que mais de metade eram camiões que usava no transporte de cargas.

Ao jornalista Ernesto Bartolomeu, de quem se viria a tornar grande amigo, ofereceu uma participação de dois por cento numa das suas empresas, bem como o controlo das empresas Frigomate e Fonte Nova.

Valentim Amões detinha, também, um estaleiro na África do Sul, propriedades na Namíbia, Portugal e unidades de criação de gado e produção agrícola no Cunene, Huambo e em Benguela. Os seus interesses nos Estados Unidos, nomeadamente controlo de propriedades e assistência aos filhos que estudam lá, estão por conta de Renato da Silva, antigo intérprete de Allioune Blondin Beye.

Filantropo quanto baste, estendeu a mão a músicos como os Irmãos Almeida, Isidora Campos, Tchissika, Bessa Teixeira e muitos outros. O 1º de Maio de Benguela, que ganhou a última Taça de Angola e com isso regressou às afrotaças, foi uma das suas mais recentes apostas.

Nada registou tanto a marca de Valentim Amões como o município do Bailundo. À força de tanto fazer, o empresário passou a ser visto naquela localidade como um soba grande, o verdadeiro «seculo».

Tudo isto seria suficiente para, feitas todas as contas, manter o grupo com a saúde que conhecera enquanto Amões esteve em vida.

Porém a circunstância de, segundo fontes bem informadas, não ter deixado um testamento, e de nunca se terem restabelecido plenamente as relações com Faustino Amões, bem como o facto de ser um homem com várias casas assumidas, prometem concorrer para uma transição algo melindrosa.

Angélica Amões, esposa oficial, e Ana Paula Salvador são, à partida, as senhoras do senhor Amões. Mas conhecem-se muitos outros casos de que resultaram, segundo a biografia oficial, 24 filhos.

À hora do fecho desta edição não havia indicações sobre como se processaria a transição, havendo sinais de que Segunda Amões, com quem ele se reconciliara, poderia vir a emergir como cabeça do grupo, com o que precisaria contar com o consenso, sobretudo de Angélica Amões e dos filhos mais velhos, Lídia, e Azeres que, segundo consta, foi quem identificou os corpos do pai e do irmão, ao que consta, encontrados abraçados um ao outro.

Segunda Amões, Ernesto Bartolomeu, Luís Kupenala, um jovem que serviu o falecido empresário durante anos, bem como o seu secretário executivo Chope Kalufela lideraram todo o processo que iniciou com as buscas e terminou com os velórios, primeiro em Luanda e depois no pavilhão do Petro-Atlético no Huambo.
 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação
Foto-Destaque
Foto-Destaque
Questionário