Alembamento: um símbolo de respeito para com a mulher
10-02-2008 | Fonte: Jornal de Angola
O preço ou o valor para as despesas do alembamento (casamento tradicional) não era estipulado, e o que temos vindo a assistir, nos últimos anos, é um verdadeiro atropelo aos ensinamentos deixados pelos nossos antepassados, afirmou João de Gouveia Pinto.

O ancião disse que, actualmente, a prática do alembamento em Angola tem estado a perder o seu real valor devido às inúmeras exigências impostas aos jovens que pretendem levar uma vida a dois.

João de Gouveia Pinto considera que a dolarização dos usos e costumes tradicionais é um acto de puro desrespeito à tradição e à cultura angolana, tendo-se mostrado bastante preocupado.

Quando nasceu, há 53 anos, o alembamento na época era considerado um acontecimento de respeito, amor e dignidade para com a mulher e as famílias de ambos os cônjuges.

Entretanto, com ele a reportagem do “Dossier”, regressou ao passado, para que se abordasse vários aspectos sócio-culturais acerca do alembamento.

Segundo João de Gouveia Pinto, antigamente, o acto de alembar era antecedido de três actos distintos, sendo que o primeiro encontro servia apenas de uma apresentação entre as famílias com o objectivo de se conhecerem as exigências e os hábitos familiares.

Indicou, no entanto, que, depois disso, os parentes do rapaz tinham que endereçar uma carta à família da noiva por forma a formalizar o pedido e, simultaneamente, a autorização para o alembamento.

“Na altura, eu havia pago apenas cinquenta escudos e escrito duas cartas dirigidas à família e acompanhadas de um garrafão de vinho e mais cinco litros de maruvo, a bebida tradicional exigida”.

Por outro lado, fez saber que, passados alguns dias, depois da cerimónia tradicional, que marcava a oficialização da relação dos cônjuges, era realizado um outro ritual chamado “kubucula”, para que o marido pudesse levar a esposa para a sua casa.

Lembrou que as tias da jovem alembada, eram obrigadas a visitá-la logo nas primeiras horas do dia seguinte, a fim de confirmarem a virgindade da filha.

Caso se confirmasse a perda do hímen naquele dia, os lençóis, ensanguentados, eram mostrados à vizinhança.

O nosso interlocutor, nostálgico, disse ter assistido, em Caxito, muitos casos do género, os quais sempre terminaram em festas como sinal de regozijo.

“Era uma grande alegria, e o respeito para com o casal na zona era outro”. Lamentou, no entanto, o facto de presentemente muitos dos jovens não aceitar e respeitar a abstinência sexual antes do casamento, como forma de dignificar a identidade cultural africana, os costumes familiares e as próprias pessoas.

Assinalou que hoje o alembamento é feito apenas à base de uma simples relação nominal, em que são impostas as condições para o acto.

Realçou, igualmente, que, nos dias que correm, na maioria das vezes, as “moças” aparecem já grávidas antes do pedido, o que se torna bastante complicado porque elas nem sempre têm a sorte de serem assumidas.

Apontou que, em caso de morte do marido, a família deste, em algumas regiões do Bengo, apresentam à mulher um dos irmãos do defunto como substituto legal do irmão que faleceu, ou seja, torna-se o seu novo marido. Caso ela negue, é literalmente desvinculada da família, por via de uma carta e obrigada a abandonar os bens e a casa.

Quanto ao adultério de uma mulher, afirma que o homem com quem cometera tal acto era obrigado a indemnizar o noivo, reembolsando todas as coisas que entregou no acto de alembamento.

Convencem os relatos verbais que, antigamente, o acto de alembar uma mulher, hoje em dia constantemente desrespeitado, já foi motivo de felicidade para muitas famílias.

Alguns relatos escritos revelam ainda que, em tempos idos, já foi até considerado um verdadeiro postal sócio-cultural de Angola, daí que poetas, escritores e historiadores narram como um dos símbolos de respeito e dignidade da mulher.
 
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