«Em defesa do José Eduardo Agualusa» por Sousa Jamba
22-03-2008 | Fonte: Semanário Angolense
Em recente entrevista concedida em Angola, o escritor e jornalista José Eduardo Agualusa que diz, nomeadamente, que «uma pessoa que ache que Agostinho Neto, por exemplo, foi extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre. O mesmo pode se dizer de António Cardoso ou de António Jacinto...»

Um tal Artur Queiroz, que assina textos de opinião no Jornal de Angola, atacou o Agualusa de uma forma tão grosseira que reduz o que deveria ser um debate sério sobre a nossa herança cultural a uma briga de bêbados num botequim.

Tenho profunda admiração pelo Agualusa que é, sem dúvida, o escritor mais sério da nossa geração. A sua capacidade de trabalho e determinação de sobreviver como escritor são impressionantes.

Na entrevista, Agualusa afirma que só quem lê seriamente é consegue escrever livros sérios. Esta é a perspectiva de alguém que acredita numa análise rigorosa de obras literárias.

Avancemos, porém, para a questão que tanto incomodou algumas mentes: Agostinho Neto foi ou não um poeta medíocre?

No que me diz respeito e para ser franco devo dizer que não tenho uma resposta à mão porque nunca me sentei seriamente para analisar minuciosamente a poesia dele. Posso, porém, afirmar que os poemas do moçambicano José Craverinha me comoveram bastante quando os descobri, há alguns anos. Neste momento estou a tentar ler, em português (e não numa tradução, já que leio o inglês com mais facilidade) a obra de Luís de Camões Os Lusíadas. Cheguei a Camões depois de ter lido a sua biografia da autoria de um escritor americano e publicado nos anos 30.

Há dias li obras de poetas como Phillip Larkin, Ted Hughes e Seamus Heaney, que também me comoveram bastante. Ted Hughes, por exemplo, foi esposo da poetisa Sylvia Plath. Ele é detestado por muitas feministas no Reino Unido e nos Estados Unidos que o responsabilizam pela morte da sua mulher. A esposa de Hughes suicidou-se porque o marido seria um mulherengo. Esta é claramente uma apreciação errada: deve fazer-se uma clara distinção entre o poeta e o homem. Não há duvida que as obras de Ted Hughes, que tratam minuciosamente da natureza, tem uma qualidade literária inegável. Quanto a Ted Hughes gostar muito de mulheres isto é outra conversa.

Na Grã-Bretanha muita gente fala agora do poeta Phillip Larkin. Descobriu-se, recentemente, que Larkin tinha um fraco pela pornografia. Por causa desse lado da personalidade de Larkin há, agora, que defenda que a sua poesia não deveria ser ensinada nas escolas. Em meio a polémica, uma escola defendeu a distinção entre a vida do autor e a sua obra.

As considerações em torno de Hughes e Larkin levam-me às três figuras cujo mérito literário foi questionado pelo Agualusa, o que deu lugar à fúria do senhor Artur Queiroz. Quando o Agualusa diz que o Agostinho Neto foi um poeta medíocre não está, nem de longe, a questionar as suas credenciais como nacionalista angolano. Isto está fora de questão. A fusão do Neto-poeta com o Neto-político, muitas das vezes feita, é que resulta em afirmações intelectuais pouco firmes. Um bom político não é necessariamente um bom poeta e vice versa.

O senhor Artur Queiroz afirma que Agostinho Neto é universalmente reconhecido como grande poeta.Tenho dado aulas e feito conferências de e sobre Literatura Africana em várias partes do mundo. Muitos dos meus alunos e participantes desses conferências nunca ouviram falar de Agostinho Neto. Isto é a verdade! Da África Lusófona só há dois escritores de que se fala muito: o moçambicano Mia Couto e o angolano... José Eduardo Agualusa. Será que isto é justo? Mia Couto e Agualusa chegaram «lá» por mérito próprio ou, como muitos escritores negros dizem em privado, ambos são promovidos por fundações portuguesas porque é neles que muitos lusos se revêem? Será que o Agualusa é mesmo um bom escritor (eu acho que sim) ou será, apenas, fruto de um bom marketing? Pergunto: Agualusa e Mia Couto serão apenas escrivães que relatam à metrópole (os salões de Cascais) os últimos desenvolvimentos que ocorrem na terra dos pretos? Sei do que estou a falar. Sei que estou a pisar os terrenos das ideias preconcebidas. As respostas a estas questões só podem ser encontradas num engajamento sério com as obras de Agualusa e Mia Couto. E se formos honestos desse engajamento podem, até, surgir factos que iluminariam de forma profunda a nossa existência como africanos.

O senhor Artur Queiroz defende Agostinho Neto, António Cardoso e António Jacinto sem aludir às suas obras poéticas. Segundo o senhor Queiroz, «a vida do António Cardoso é o mais belo poema que alguma vez já se escreveu.» Mas que isso? Como todos os outros leitores, quero saber a razão que faz com que o senhor Queiroz pense que António Cardoso não é poeta medíocre - como o Agualusa afirma. É esta a questão. Alguém tem de mostrar-nos que o Agualusa está equivocado.

Em Angola impõe e já elevar o debate sobre a nossa vida cultural. O texto de Artur Queiroz está cheio de elogios a figuras que já não precisam disso – sobretudo de alguém que, bem vistas as coisas, não é mais do que um bem dotado lambe-botas, com um dicionário de sinónimos ao lado.

Temos de agradecer a Agualusa por ter levantado a questão. Agora cabe-nos ler ou reler as obras dos autores que ele menciona para tirarmos as nossas conclusões.

Foto: José Eduardo Agualusa
 
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