«Tínhamos condições para aniquilar o agrupamento sul-africano»
23-03-2008 | Fonte: Jornal de Angola
Roberto Leal Ramos Monteiro "Ngongo" (na foto), combatente angolano ainda nos tempos de guerrilha, actual ministro do Interior da República de Angola, hoje general, era, no período de 1983 a 1987, enquanto decorria a guerra no Sul de Angola, chefe adjunto do Estado Maior General, Findo este período, ainda com a patente de major-general, foi chamado a desempenhar a função de chefe de Operações do Estado-maior General, pois se desenhava, no campo militar, combates de grande envergadura. Tais combates vieram a culminar com a Batalha do Cuito Cuanavale e com a consequente expulsão das tropas sul-africanas do território angolano. Com este cenário, implementa-se então a Resolução 435/78 das Nações Unidas, isso porque de acordo com o general, os sul- africanos “ chegaram à conclusão de que não tinham força militar para garantir a defesa da Namíbia e do apartheid.

Essa leitura fez com que o general Roberto Monteiro “ Ngongo” sentisse que o nosso país tinha garantido a integridade do nosso território e “mostrou ao mundo que o apartheid não era o leão feroz que muita gente pensava que era e que em África não havia forças armadas capazes de o derrotar”. Porém, os combates não se resumiram em vitórias para as FAPLA. Houve situações dramáticas que a leitura da entrevista que se segue lhe vai mostrar.

Como adjunto do Chefe do Estado Maior do Exército angolano, que leitura fazia da Batalha do Cuito Cuanavale?

Desempenhei estas funções de 1983 a 1987. Depois, tendo em vista a envergadura das acções, criou-se, face a uma guerra que se sentia como de maior dimensão, a Direcção Principal de Operações passei a ser o chefe de Operações, primeiro substituto do Chefe do Estado Maior General. Tinha patente de major-general, actualmente se chama brigadeiro, ou seja general de uma estrela. Nessa altura, dirigi sempre as frentes aonde íamos realizar as grandes operações. Com a Direcção de Operações, criaram-se agrupamentos e nós acompanhávamos, apenas, a partir do Estado Maior General com visitas permanentes às frentes de combate, sobretudo a grande frente de combate que era Cuito Cuanavale.

Qual era o fim último desta Direcção?

A Direcção Principal de Operações era responsável pela elaboração das operações que as Forças Armadas desenvolviam em todo país. Era, sobretudo, a Direcção que desenvolvia toda a política de operações e planeava as operações com vista, na altura, à luta contra a oposição armada e contra a invasão das forças racistas sul-africanas.

Que motivações levou ao de-senrolar da Batalha do Cuito Cuanavale, particularmente?

Nós, para falarmos disso, temos primeiro que saber o que é o Cuito Cuanavale. As pessoas pensam; “ a grande cidade do Cuito Cuanavale!”.

Não!. Nós tínhamos o Cuito Cuanavale como o ponto mais avançado, dentro do nosso teatro operacional, para levar a cabo as acções contra a direcção da oposição armada, que era a UNITA, e se encontrava no extremo sudeste da província do Kuando-Kubango. Portanto, o Cuito Cuanavale, representava para nós este ponto estratégico, por isso, é que se recuperou uma grande pista de aviação que havia já desde o tempo colonial. Nós tornámo-la operativa, porque sabíamos que grandes operações eram esperadas por parte das nossas forças, no sentido de conseguirmos atingir a área mais avançada do comando da UNITA que estava no extremo sudeste, muito próximo, do teatro operacional da Namíbia que era controlada pelas forças do apartheid. Então, o Cuito Cuanavale, representava para nós isso, e também representava, para quem tinha uma política definida de construção de uma constelação de estados na África Austral, que era a política do apartheid, manter a sua hegemonia.

Então, a África do Sul definiu um futuro em África. Havia de ter uma constelação de estados e que a estrela polar seriam as forças e o governo racista da África do Sul, controlando todas, os governos da África Austral que seriam submissos às forças do apartheid. Ora, Angola era de facto o único país que não tinha qualquer dependência da África do Sul. Já desde o tempo colonial que a África Austral era muito dependente do poderio económico sul-africano. Mas Angola, porque tinha um regime progressista, o Governo orientado pela política marxista-leninista, era um perigo para as aspirações do apartheid, que era de dominar e submeter os povos e os Governos da região Austral. Então, como depois da invasão de 1975, não conseguiram tomar o poder pela força, tomando Luanda, eles foram sempre criando as condições para poderem vir a cumprir esta política. Em 1988, acharam eles que já estavam criadas as condições. Acharam que era necessário haver uma nova intervenção para apoiar a oposição armada com vista a tomada do poder em Angola. Então, para cumprir com a política “Menongue ponto de partida e Luanda ponto de chegada”, eles elaboraram a grande estratégia de fazer subir grandes forças suas, em apoio à oposição armada, começando por ocupar o Cuito Cuanavale, porque tinha uma grande base aérea.

E qual era, nessa altura, a posição no terreno das forças inimigas?

Eles estavam em Ondangua, na Namíbia, onde tinham a base aérea de apoio às forças da oposição armada, no Sul de Angola. Era necessário fazer avançar esta base aérea mais para o Norte. Como no nosso flanco direito tínhamos algumas das nossas forças regulares apoiadas pelas forças internacionalistas cubanas, e como no flanco esquerdo só actuavam as forças das FAPLA, as forças sul-africanas preferiram escolher o teatro operacional do Cuito Cuanavale para desenvolver a sua política de invasão de Angola, a partir do nosso flanco esquerdo que era o Kuando-Kubango. É assim que aparece o Cuito Cuanavale. Ele aparece porque, do ponto de vista estratégico, jogava um papel fundamental no cumprimento daquilo que era a política de apartheid de ocupação de Angola, tornando-se então a África Austral submissa ao seus interesses.

Mas, quando é que se começou a se desenhar a eventual ofensiva das FAPLA?

A partir de 1987, depois da operação “Saudemos Outubro” que nós realizámos com vista a ocupação de Mavinga, com intervenção já das tropas sul-africanas, as nossas forças foram obrigadas a passar à defesa no Cuito Cuanavale, porque na tal operação tínhamos perdido uma brigada, a Brigada 47, achámos por bem criar condições, a partir do Cuito Cuanavale, para preparar as nossas forças com vista a cumprir com o nosso objectivo que era destruir o comando operacional da UNITA que se encontrava no Sudeste do país. Como os sul-africanos tinham avaliado que, com a perda da nossa brigada, que era uma brigada de desembarque e assalto muito forte, estavam criadas as condições para derrotarem as nossas forças no Cuito Cuanavale e a partir dai desenvolver a sua ofensiva para o Norte, então aparecem as grandes batalhas no Cuito Cuanavale. Numa primeira fase, apenas com as FAPLA. Na altura teríamos ainda na defesa do Cuito Cuanavale quatro brigadas que foram mais tarde reforçadas- Foi a partir daí que os sul-africanos começaram a utilizar os seus batalhões de tanques e a sua artilharia de longo alcance que eram os famosos G5-. As suas principais forças de infantaria eram as tropas da oposição armada e do Batalhão Búfalo. As forças de facto, de choque, de grande poder de fogo, que eram os tanques e artilharia, era totalmente sul-africana com pequenas unidades de infantaria em apoio à infantaria da UNITA.

Esta pressão inimiga indiciou a perda da batalha ou desmoralizou as FAPLA?

Nós sentimos na altura que a perda do Cuito Cuanavale seria um desastre para a conservação da nossa soberania e a integridade do nosso território.

Foi por isso que, com a clarividente estratégia de Sua Excelência Presidente da República, José Eduardo dos Santos, em colaboração com as forças cubanas, e também com a ligação permanente do Comandante em Chefe das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola e do Comandante em Chefe das Forças Revolucionárias de Cuba, desenhar -se novas estratégias. Era necessário garantir a defesa do Cuito Cuanavale, reforçar com unidades cubanas, para não haver qualquer possibilidade de perda daquele reduto. E pelo nosso flanco direito dar o nosso golpe principal contra as forças racistas sul-africanas que não esperavam, de maneira nenhuma, que nós pudéssemos realizar operações naquele flanco, porque nós estávamos tão distraídos no nosso flanco esquerdo que era a defesa do Cuito Cuanavale. Então, aí que um papel importante jogaram as Forças Armadas cubanas. Que foi a criação de um teatro operacional favorável para podermos derrotar as forças racistas sul-africanas no nosso flanco direito e garantir a defesa do Cuito Cuanavale, derrotando, também, com uma defesa forte, activa, as forças sul- africanas e causar naquela direcção grandes baixas às forças sul- africanas. Ao mesmo tempo que criávamos as condições para realizar a ofensiva não na direcção Cuito Cuanavale Mavinga, mas também na direcção Lubango Cahama, Cahama Ngiva, CahamaCalueque, em direcção à fronteira com a Namíbia. Esta foi a grande estratégia estabelecida entre os dois Comandantes em Chefe, José Eduardo dos Santos e Fidel de Castro, que levaram a que as forças racistas sul- africanas, a 23 de Março, quando nós já tínhamos criado grande parte das condições para passar à ofensiva, passasse a defesa para criar as condições para se realizar uma ofensiva mais estruturada. Porque na arte militar a defesa não é o fim único, depois de causarmos baixas ao inimigo tínhamos condições para passar à ofensiva. Então, nós passámos à ofensiva, não na direcção do Cuito Cuanavale. Derrotámos as forças racistas sul-africanas no dia 23 de Março. Mas, a partir daí, começamos a realizar as nossas acções ofensivas no nosso flanco direito. E com isso, de facto toda a estratégia sul-africana cai por ter-ra. Com o grande agrupamento militar cubano que tinha sido criado no flanco direito, na área da Cahama, na área de Xagongo, em direcção a Calueque, e com as pistas de aviação que foram construídas e reconstruídas na Cahama e no Xagongo, nós tínhamos as condições para realizar a ofensiva terrestre, mas com apoio da aviação. Quer dizer que, nós poderíamos penetrar já na profundidade das forças inimigas que estavam estacionadas na Namíbia. Podíamos chegar já até Ondangua. Podíamos bombardear Ondangua, podia-se já, de facto, realizar as operações e passarmos a ser nós a ter uma correlação de forças superior as das forças racistas sul-africanas e tínhamos mais condições para aniquilar o agrupamento sul-africano é dar golpes vitoriosos. Não se chegou aí porque depois houve as conversações políticas.

Mas conta-se que as tropas cubanas chegaram a entrar em território namibiano, sendo este o motivo que forçou as negociações?

Não. Nós nunca violámos a fronteira da Namíbia. Podia ser, com forças de reconhecimento. Mas, dizer que nós penetrámos naquele território com forças, não. Os sul-africanos, depois da grande derrota de 23 de Março, quando foram bombardeados sem esperar, em Calueque, pela aviação cubana, foram criadas as condições para dar o golpe sobre Calueque onde morreram muitos sul-africanos que nunca pensaram que aquilo fosse acontecer. Porque estavam distraídos. Pensavam que nós estávamos no flanco esquerdo, no Cuito Cuanavale, e nunca sonharam que estávamos a preparar as condições para deferir um grande golpe sobre Calueque. A partir desse momento, os sul-africanos concluíram que já não havia condições para continuarem com a guerra em Angola. E as conversações, que já haviam iniciado antes do ataque a Calueque, aceleraram e acabaram por obrigar a que os sul-africanos aceitassem a resolução 435/78, portanto, depois de 10 anos. Isso porque chegaram a conclusão de que não tinham força militar para garantir a defesa da Namíbia e do apartheid.

Qual foi o seu sentimento depois da rendição sul-africana as forças angolanas?

Senti que o nosso país garantiu a integridade do nosso território, mostrou ao mundo que o apartheid não era o leão feroz que muito gente pensava que era, e que em África não havia forças armadas capazes de o derrotar. Sobretudo, demos uma autoconfiança ao povo angolano, ao povo da África Austral e aos povos de toda África que nós estamos capazes para derrotar todas aquelas forças que não aceitam o progresso de África, todas aquelas forças que não aceitam uma verdadeira independência, além do hino e da bandeira.

Que material era usado pelas forças angolanas e cubanas?

Nós usávamos, sobretudo, o material saído do Pacto de Varsóvia. Tínhamos os tanques T72, eram os tanques mais avançados que tínhamos. Também tínhamos, os T54 e os T62. Tínhamos os BMP- carros de assalto rápidos e de transporte de tropas. Uns com lagartas e outros com rodas-Tí-nhamos os BM-21 os carros de reconhecimento que eram os BRDM- desde 1975 que nós dominávamos esta técnica -. Na artilharia tínhamos, como disse, os BM21, os canhões 130 e o obus122. Era artilharia de apoio. Para além, da aviação que operava, sobretudo, a partir de Menongue, tínhamos os Mig 23, Mig 21, os Su 22 e os 25.Portanto tínhamos aviação que apoiava os combates naquela direcção do Cuito Cuanavale.

O senhor general alguma vez esteve no teatro dessa guerra?

Sim. A organização da defesa foi feita pelo Estado Maior General, tinha um agrupamento que era dirigido pelo falecido general Ngueto. Um dos comandantes de unidade era general Valeriano, que hoje é o 2º comandante da 6ª Região, e que está em Menongue. Nós íamos, sobretudo, organizar a defesa. Tínhamos um grupo avançado do Estado Maior General que era dirigido pelo general Paulo Lara. Nós íamos, apenas manter o contacto com as tropas, ver como estava organizada a defesa, a logística, etc. Então, estivemos directamente ligados ao teatro operacional, sobretudo, durante estas visitas permanentes.

Senhor general não acha que já é altura de escrever a versão angolana dessa batalha?

Como sabe, há uma comissão criada para as comemorações da Batalha do Cuito Cuanavale. A comissão integra o antigo chefe do Estado Maior General, o general Ndalu, o general Pedro Sebastião, que naquela altura era o comissário político das FAPLA e outras pessoas. De qualquer maneira, o objectivo é erguer um monumento e fazer outras coisas mais. Mas, o grande problema é que nós temos que investigar. Faço mea culpa. A parte cubana está-me sempre a telefonar e diz-me”o senhor ministro tem que começar a escrever a sua história”. E de facto devo fazer isso. Porque Cuito Cuanavale não aparece com a Batalha de 23 de Março. O Cuito Cuanavale, digamos, que aparece desde 1975. Aparece depois quando eles tentaram ocupar Cangamba, em 1983, Aparece quando a UNITA subiu para as áreas de Mussende e Malanje, já nesta altura de 83, subiram para norte do Rio Kwanza. A partir daí, houve um desencadear de combates, porque os sul-africanos pensavam que a oposição armada em Angola estava capaz de tomar o poder. Porque, de facto, subir para Norte do Rio Kwanza como lhe foi possível em 1983 significava que havia esta possibilidade. Mas, eles esqueceram-se do nosso potencial anímico que tínhamos na altura para conseguirmos ultrapassar todas as grandes dificuldades, porque nós tínhamos que defrontar dois flancos; primeiro a luta regular que era o sul-africano e que tínhamos que ter unidades especiais. Mas, também tínhamos que alimentar a guerrilha, tínhamos que ter forças de contra-guerrilha. E os sul-africanos pensavam que tirando a possibilidade das nossas principais forças que estavam no Sul, fazer avançar as forças da oposição armada para Norte, criava as condições para uma tomada de poder pela oposição armada. Não se verificando esta possibilidade, era necessário passar à fase seguinte, que era intervir directamente na tomada de poder, ocupando o poder pelas forças sul-africanas.

Conhecendo esta batalha como conhece sente necessidade de que se escreva essa história?

Pois é, o grande problema é que pela primeira vez nós estamos a falar sobre a Batalha do Cuito Cuanavale, 20 anos depois. Mas, se você for a África do Sul, no Zimbabwe, na Namíbia e em Cuba, fala-se da batalha do Cuito. Na África do Sul, então tem livros a contar a história da Batalha do Cuito, claro com a versão deles. Embora seja bom para o confronto de dados. De facto, eu tenho pena porque não sei à quem emprestei um livro que comprei em Cuba, cujo título é “ a história do soldado que não combateu”. Este livro tem os tais dados estatísticos que lhe disse que já não me recordo depois deste tempo todo. Mas é verdade que nós somos um bocado culpados por esta lacuna. Mas, também ainda fazemos parte da tradição oral, infelizmente, a África desenvolveu-se muito na tradição oral. Mas, ela perde-se. É preciso sim que tudo fique escrito para os jovens, principalmente, valorizarem as nossas conquistas e os combatentes.

Esta pressão inimiga indiciou a perda da batalha ou desmoralizou as FAPLA?

Nós sentimos na altura que a perda do Cuito Cuanavale seria um desastre para a conservação da nossa soberania e a integridade do nosso território.

Foi por isso que, com a clarividente estratégia de Sua Excelência Presidente da República, José Eduardo dos Santos, em colaboração com as forças cubanas, e também com a ligação permanente do Comandante em Chefe das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola e do Comandante em Chefe das Forças Revolucionárias de Cuba, desenhar -se novas estratégias. Era necessário garantir a defesa do Cuito Cuanavale, reforçar com unidades cubanas, para não haver qualquer possibilidade de perda daquele reduto. E pelo nosso flanco direito dar o nosso golpe principal contra as forças racistas sul-africanas que não esperavam, de maneira nenhuma, que nós pudéssemos realizar operações naquele flanco, porque nós estávamos tão distraídos no nosso flanco esquerdo que era a defesa do Cuito Cuanavale. Então, aí que um papel importante jogaram as Forças Armadas cubanas. Que foi a criação de um teatro operacional favorável para podermos derrotar as forças racistas sul-africanas no nosso flanco direito e garantir a defesa do Cuito Cuanavale, derrotando, também, com uma defesa forte, activa, as forças sul- africanas e causar naquela direcção grandes baixas às forças sul- africanas. Ao mesmo tempo que criávamos as condições para realizar a ofensiva não na direcção Cuito Cuanavale Mavinga, mas também na direcção Lubango Cahama, Cahama Ngiva, CahamaCalueque, em direcção à fronteira com a Namíbia. Esta foi a grande estratégia estabelecida entre os dois Comandantes em Chefe, José Eduardo dos Santos e Fidel de Castro, que levaram a que as forças racistas sul- africanas, a 23 de Março, quando nós já tínhamos criado grande parte das condições para passar à ofensiva, passasse a defesa para criar as condições para se realizar uma ofensiva mais estruturada. Porque na arte militar a defesa não é o fim único, depois de causarmos baixas ao inimigo tínhamos condições para passar à ofensiva. Então, nós passámos à ofensiva, não na direcção do Cuito Cuanavale. Derrotámos as forças racistas sul-africanas no dia 23 de Março. Mas, a partir daí, começamos a realizar as nossas acções ofensivas no nosso flanco direito. E com isso, de facto toda a estratégia sul-africana cai por ter-ra. Com o grande agrupamento militar cubano que tinha sido criado no flanco direito, na área da Cahama, na área de Xagongo, em direcção a Calueque, e com as pistas de aviação que foram construídas e reconstruídas na Cahama e no Xagongo, nós tínhamos as condições para realizar a ofensiva terrestre, mas com apoio da aviação. Quer dizer que, nós poderíamos penetrar já na profundidade das forças inimigas que estavam estacionadas na Namíbia. Podíamos chegar já até Ondangua. Podíamos bombardear Ondangua, podia-se já, de facto, realizar as operações e passarmos a ser nós a ter uma correlação de forças superior as das forças racistas sul-africanas e tínhamos mais condições para aniquilar o agrupamento sul-africano é dar golpes vitoriosos. Não se chegou aí porque depois houve as conversações políticas.

Mas conta-se que as tropas cubanas chegaram a entrar em território namibiano, sendo este o motivo que forçou as negociações?

Não. Nós nunca violámos a fronteira da Namíbia. Podia ser, com forças de reconhecimento. Mas, dizer que nós penetrámos naquele território com forças, não. Os sul-africanos, depois da grande derrota de 23 de Março, quando foram bombardeados sem esperar, em Calueque, pela aviação cubana, foram criadas as condições para dar o golpe sobre Calueque onde morreram muitos sul-africanos que nunca pensaram que aquilo fosse acontecer. Porque estavam distraídos. Pensavam que nós estávamos no flanco esquerdo, no Cuito Cuanavale, e nunca sonharam que estávamos a preparar as condições para deferir um grande golpe sobre Calueque. A partir desse momento, os sul-africanos concluíram que já não havia condições para continuarem com a guerra em Angola. E as conversações, que já haviam iniciado antes do ataque a Calueque, aceleraram e acabaram por obrigar a que os sul-africanos aceitassem a resolução 435/78, portanto, depois de 10 anos. Isso porque chegaram a conclusão de que não tinham força militar para garantir a defesa da Namíbia e do apartheid.

Qual foi o seu sentimento depois da rendição sul-africana as forças angolanas?

Senti que o nosso país garantiu a integridade do nosso território, mostrou ao mundo que o apartheid não era o leão feroz que muito gente pensava que era, e que em África não havia forças armadas capazes de o derrotar. Sobretudo, demos uma autoconfiança ao povo angolano, ao povo da África Austral e aos povos de toda África que nós estamos capazes para derrotar todas aquelas forças que não aceitam o progresso de África, todas aquelas forças que não aceitam uma verdadeira independência, além do hino e da bandeira.

Que material era usado pelas forças angolanas e cubanas?

Nós usávamos, sobretudo, o material saído do Pacto de Varsóvia. Tínhamos os tanques T72, eram os tanques mais avançados que tínhamos. Também tínhamos, os T54 e os T62. Tínhamos os BMP- carros de assalto rápidos e de transporte de tropas. Uns com lagartas e outros com rodas-Tí-nhamos os BM-21 os carros de reconhecimento que eram os BRDM- desde 1975 que nós dominávamos esta técnica -. Na artilharia tínhamos , como disse, os BM21, os canhões 130 e o obus122. Era artilharia de apoio. Para além, da aviação que operava, sobretudo, a partir de Menongue, tínhamos os Mig 23, Mig 21, os Su 22 e os 25.Portanto tínhamos aviação que apoiava os combates naquela direcção do Cuito Cuanavale.

O senhor general alguma vez esteve no teatro dessa guerra?

Sim. A organização da defesa foi feita pelo Estado Maior General, tinha um agrupamento que era dirigido pelo falecido general Ngueto. Um dos comandantes de unidade era general Valeriano, que hoje é o 2º comandante da 6ª Região, e que está em Menongue. Nós íamos, sobretudo, organizar a defesa. Tínhamos um grupo avançado do Estado Maior General que era dirigido pelo general Paulo Lara. Nós íamos, apenas manter o contacto com as tropas, ver como estava organizada a defesa, a logística, etc. Então, estivemos directamente ligados ao teatro operacional, sobretudo, durante estas visitas permanentes.

Senhor general não acha que já é altura de escrever a versão angolana dessa batalha?

Como sabe, há uma comissão criada para as comemorações da Batalha do Cuito Cuanavale. A comissão integra o antigo chefe do Estado Maior General, o general Ndalu, o general Pedro Sebastião, que naquela altura era o comissário político das FAPLA e outras pessoas. De qualquer maneira, o objectivo é erguer um monumento e fazer outras coisas mais. Mas, o grande problema é que nós temos que investigar. Faço mea culpa. A parte cubana está-me sempre a telefonar e diz-me”o senhor ministro tem que começar a escrever a sua história”. E de facto devo fazer isso. Porque Cuito Cuanavale não aparece com a Batalha de 23 de Março. O Cuito Cuanavale, digamos, que aparece desde 1975 . Aparece depois quando eles tentaram ocupar Cangamba, em 1983, Aparece quando a UNITA subiu para as áreas de Mussende e Malanje, já nesta altura de 83, subiram para norte do Rio Kwanza. A partir daí, houve um desencadear de combates, porque os sul-africanos pensavam que a oposição armada em Angola estava capaz de tomar o poder. Porque, de facto, subir para Norte do Rio Kwanza como lhe foi possível em 1983 significava que havia esta possibilidade. Mas, eles esqueceram-se do nosso potencial anímico que tínhamos na altura para conseguirmos ultrapassar todas as grandes dificuldades, porque nós tínhamos que defrontar dois flancos; primeiro a luta regular que era o sul-africano e que tínhamos que ter unidades especiais. Mas, também tínhamos que alimentar a guerrilha, tínhamos que ter forças de contra-guerrilha. E os sul-africanos pensavam que tirando a possibilidade das nossas principais forças que estavam no Sul, fazer avançar as forças da oposição armada para Norte, criava as condições para uma tomada de poder pela oposição armada. Não se verificando esta possibilidade, era necessário passar à fase seguinte, que era intervir directamente na tomada de poder, ocupando o poder pelas forças sul-africanas.

Conhecendo esta batalha como conhece sente necessidade de que se escreva essa história?

Pois é, o grande problema é que pela primeira vez nós estamos a falar sobre a Batalha do Cuito Cuanavale, 20 anos depois. Mas, se você for a África do Sul, no Zimbabwe, na Namíbia e em Cuba, fala-se da batalha do Cuito. Na África do Sul, então tem livros a contar a história da Batalha do Cuito, claro com a versão deles. Embora seja bom para o confronto de dados. De facto, eu tenho pena porque não sei à quem emprestei um livro que comprei em Cuba, cujo título é “ a história do soldado que não combateu”. Este livro tem os tais dados estatísticos que lhe disse que já não me recordo depois deste tempo todo. Mas é verdade que nós somos um bocado culpados por esta lacuna. Mas, também ainda fazemos parte da tradição oral, infelizmente, a África desenvolveu-se muito na tradição oral. Mas, ela perde-se. É preciso sim que tudo fique escrito para os jovens, principalmente, valorizarem as nossas conquistas e os combatentes.
 
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