Sarkozy em Angola para pôr fim a década de relações tensas
23-05-2008 | Fonte: O Público
A visita que Nicolas Sarkozy realiza hoje a Angola, onde será recebido pelo chefe de Estado angolano José Eduardo dos Santos, é um sinal da vontade do Presidente francês de "encontrar, pouco a pouco, o caminho do diálogo e da cooperação" com um país que "será chamado a desempenhar um papel importante no continente" e a ter "um lugar central" no mundo, "apesar dos quase 30 anos de guerra civil", disse ao PÚBLICO fonte oficial francesa.

"Não queremos deixar de ter relações com Angola", acrescentou, reconhecendo a "grande expectativa" em torno desta visita de menos de 12 horas.

É a primeira dos últimos oito anos marcados por um "distanciamento" e "tensão" entre os dois países, desde que em 2000 a justiça francesa avançou com o processo da venda de armas a Luanda entre 1993 e 2000, o Angolagate, que começou por envolver personalidades dos dois países e os principais intermediários dos negócios de armamento, o franco-brasileiro Pierre Falcone e o israelo-russo Arkadi Gaydamak.

Quando chegou ao Eliseu, há um ano, Sarkozy elegeu como uma das prioridades da sua política externa a resolução de casos judiciais que Paris acumulou em África e que colocaram entraves à diplomacia francesa - no Djibuti, no Ruanda, na Costa do Marfim, e entre os mais importantes, o Angolagate em Angola.

Nos últimos anos, as relações entre os dois países ficaram marcadas por avanços e recuos, muito ao ritmo do processo, que a justiça francesa não abandonou, apesar das pressões de Luanda nesse sentido. No fim da instrução, não há nenhum angolano entre os 42 acusados que irão a julgamento no fim do ano.

Oficialmente, diz-se, não há razões para pensar que a visita será ensombrada pelo Angolagate. "É um caso passado. A instrução dos juízes está concluída. O julgamento está marcado. E o que é claro é que não há angolanos postos em causa. O julgamento apenas diz respeito a cidadãos franceses. Luanda rapidamente percebeu que não era posta em causa e que a visão da França também era a de que Angola tinha o direito de adquirir essas armas [nos anos 1990 quando combatia a UNITA]", acrescentou a mesma fonte.

Para o director da Lettre du Continent e co-autor do livro Ces Messieurs Afrique, Antoine Glazer, no entanto, a realização deste julgamento continua a incomodar Luanda. Mas ressalva, em entrevista ao PÚBLICO, que os interesses mútuos em jogo são suficientemente importantes para ambos quererem tentar a reaproximação.

Interesses partilhados

França e Angola partilham "a mesma visão" sobre a importância de estabilizar a região dos Grandes Lagos e de garantir a segurança no golfo da Guiné, rico em petróleo.

Antoine Glazer dá um exemplo: o Congo-Brazzaville, onde o Presidente Sassou Nguesso foi ajudado por Luanda a recuperar o poder em 1997 depois da guerra civil, é próximo de ambos os países, e é como um guardião do petróleo do enclave angolano e autonomista de Cabinda (que faz fronteira com o Congo-Brazzaville). Este especialista avança outros casos: Gabão ou República Democrática do Congo, na zona de influência da França, e onde "os interesses dos angolanos não são negligenciáveis".

Para Angola, também não serão insignificantes os ganhos da amizade com um país-membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, além da proximidade que já tem com outros membros permanentes, como a China e os EUA além da Rússia.

A delegação é "pequena", segundo a fonte oficial francesa contactada. Mesmo assim, além de dois secretários de Estado (do Comércio Externo e da Cooperação e Francofonia), Sarkozy faz-se acompanhar de empresários, parlamentares e representantes de instituições francesas.

As áreas de interesse são, além do petróleo - Angola é o segundo país de produção para a petrolífera francesa Total -, a construção, as telecomunicações, a restauração. Mas realça a fonte oficial: "Este encontro marcará um recomeço das relações políticas antes de qualquer outra coisa."
 
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