Homossexuais em Angola: vida de anonimato e marginalização
27-05-2008 | Fonte: PlusNews
Foi uma “boda de arromba”, com direito a festa no Clube Marítimo, na Ilha de Luanda, e noite de núpcias cinco estrelas no Hotel Presidente Meridien.

A cerimônia foi destaque nos jornais angolanos. “Pouca vergonha” estampava a capa de um dos semanários. “Abominável” era a manchete de outro.

O casal angolano Bruno e Chano pagou um alto preço por tornar público o seu relacionamento homossexual.

Os dois se conheceram quando eram vizinhos nas Bês, bairro de Luanda. Após três anos e meio de relacionamento, os dois rapazes decidiram realizar uma cerimônia para oficializar a relação, ainda que não de forma legal.

Em 6 de Maio de 2005, Aleksander Gregório, o Chano, 21 anos, e Bruno, conhecido como Bruna, 23 anos, assinaram uma espécie de termo de responsabilidade, na presença de um conservador já aposentado.

Todos os detalhes da cerimônia foram discutidos nos mínimos detalhes nos jornais e nas rodas de conversa: o fato de Bruna ter usado um vestido de noiva, a lista de convidados da festa e, principalmente, a vida sexual do casal.

Os jornais utilizaram termos como “asco e repulsa” e sobretudo “falta de vergonha” para descrever a relação dos dois rapazes.

Apesar dos ataques, Chano e Bruna resistiram e continuam juntos, após cinco anos de relacionamento.

Dados do estudo epidemiológico de 2007 do Instituto Nacional de Luta contra a SIDA (INLS) mostram que cinco por cento das infecções por HIV em Angola acontecem por vias homossexuais. Porém, os números não tornam o assunto menos tabu.

Para o antropólogo Américo Kwanonoka, a homossexualidade é vista como um atentado às leis da natureza devido à origem bantu da maioria da população angolana, que defende a perpetuação e o alargamento da família.

Segundo Kwanonoka, por não formar família, o homossexual é visto como “anormal”.

“Tanto a cultura bantu quanto a cultura cristã rejeita a homossexualidade. A sociedade angolana ainda não está preparada para assumir os homossexuais”, diz.

Jane Dias, nascido João Dias, 35 anos, já sentiu na pele essa intolerância. “Já me atiraram pedras na rua. Antes eu pensava que era a única travesti de Viana (bairro de Luanda)”, conta.

Edna, nascido Edson, 21 anos, desistiu da escola na oitava classe porque sofria muito com a perseguição dos colegas de classe.

Por conta desta intolerância, são raros os homossexuais assumidos em Angola.

O psicólogo social Carlinhos Zassala explica que, devido à dificuldade social e cultural, muitos homossexuais angolanos tentam se tornar bissexuais e encontram no casamento uma forma de fugir do estigma.

Uma vez casados, o sexo ocasional com outros homens se torna uma alternativa para extravasar o desejo reprimido. “Muitos dos que nos xingam e nos atiram pedras na rua são os mesmos que vêm bater à nossa porta à noite”, entrega Jane.

Só que, em muitos casos, o sexo casual é desprotegido, sem o uso do preservativo. “É por isso que o tabu ajuda na transmissão das infecções sexualmente transmissíveis e do HIV”, explica Zassala, que é também presidente da Associação Angolana de Psicólogos.

Muitos dos que nos xingam e nos atiram pedras na rua são os mesmos que vêm bater à nossa porta à noite.

Para ele, a notícia do casamento gay em Luanda foi positiva porque provocou a discussão do assunto na sociedade.

Em Angola, costuma haver uma associação direta do homossexualismo a homens que têm trejeitos femininos, o que nem sempre é o caso. “Muitos homens que fazem sexo com homens não se consideram homossexuais. E se a pessoa não se reconhece, a mensagem de sexo seguro não a atinge”, diz Roberto Campos, oficial do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV e SIDA (ONUSIDA).“O facto é que o sexo anal desprotegido é uma relação de alto risco para a transmissão do vírus.”

Os homossexuais ouvidos pelo PlusNews confirmaram que já viveram situações de risco.

Edna diz que não gosta de usar camisinha porque o óleo lhe provoca alergias. Ela admite manter relações sexuais sem preservativo com o namorado, que é casado e pai de dois filhos.

Segundo Edna, o namorado já fez um teste de HIV no Hospital Militar, que deu negativo. Ela só fez o teste porque achou que já tivesse contraído o vírus. “Há quatro meses, estava a me sentir fraca, com enjôo e resolvi fazer o teste. O resultado foi negativo, mas pediram para eu repetir daqui a três meses”, conta.

População invisível

Por ser uma população invisível, os homossexuais são ignorados em decisões governamentais, como o Plano Estratégico Nacional para o Controlo das Infecções de Transmissão Sexual, VIH e Sida, 2007 a 2010.

A exclusão dos homossexuais nos programas de HIV/SIDA em África foi comprovada por um estudo da Comissão Internacional para os Direitos Humanos de Gays e Lésbicas chamado Fora do Mapa (Off the Map, em inglês).

O relatório destaca que no continente africano, onde estão cerca de 60 por cento dos casos de HIV do mundo, “há um silêncio no que se refere à infecção do HIV entre os homossexuais”.

O resultado é que as mensagens sobre sexo seguro assumem uma orientação exclusivamente heterossexual e os gays não se sentem informados nem protegidos. A desinformação vale também para o serviço de saúde.

Esmeralda, nascido Pedro*, 29 anos, conta que ao ir fazer o teste de HIV no Hospital Militar, em Luanda, ouviu do enfermeiro que nem precisava se testar porque, com certeza, já estava infectada.

Jane afirma que já fez o teste diversas vezes no Hospital Esperança e assiste a palestras sobre HIV e SIDA, mas reconhece que ela é uma exceção. “Aconselho minhas amigas a fazer o teste também, mas a maioria tem medo. O maior medo delas é pensar como vão encarar as pessoas se forem seropositivas. Mas acho que se elas não souberem que estão infectadas, podem contaminar muitas pessoas”, diz.

Todos os homossexuais ouvidos pelo Plusnews manifestaram o desejo de serem atendidos num local específico. “Eu gostaria que tivéssemos atenção especial. Muitas organizações já prometeram, mas até hoje nada saiu do papel”, reclama Edna.

Mudança política

Em 2006, a organização não-governamental Acção Humana tentou desenvolver um projecto de prevenção específico para homossexuais.

A proposta era divulgar o uso do preservativo, combater a discriminação e advogar pelos direitos humanos. “Queríamos um projecto implementado pelos próprios homossexuais, que entrariam em contacto com outros gays nas discotecas, bares e praias, como educadores pares”, explica o coordenador da Acção Humana, Pombal Maria.

A organização chegou a reunir um grupo de 14 homossexuais, com os quais foi feita uma formação inicial, mas a idéia não vingou por falta de recursos.

Em 2007, a ONG apresentou uma nova proposta aos doadores, que foi recusada, pois “não existem homossexuais suficientes em Angola para justificar o projecto”.

Mas ainda que lentamente, a situação dos homossexuais em Angola já passa por pequenas mudanças.

O INLS, em parceria com os Centros de Controlo de Doenças, em Atlanta, nos Estados Unidos, dará início em Junho ao primeiro estudo sobre homossexuais em Angola.

A idéia é identificar hábitos e comportamentos desse grupo, incluindo riscos e vulnerabilidade em relação ao HIV. “Isso demonstra uma mudança política importante. Antes os homossexuais não eram um assunto prioritário. Agora eles deixam de ser invisíveis para ser incluídos na discussão da saúde pública e da epidemia do HIV”, diz Campos, do ONUSIDA.
 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação