Sofrimento de casais inférteis tem dias contados
31-10-2008 | Fonte: Jornal de Angola
Dois médicos brasileiros especializados em reprodução humana estão em Angola a convite da SANTOMED, uma sociedade anónima de comércio e prestação de serviços, proprietária do centro médico Santo António, que em parceria com a Clínica Mater-Medicina reprodutiva, pretende implantar, no próximo ano em Luanda, uma clínica de reprodução assistida.

O “projecto vida”, que pretende dar formação a técnicos angolanos, está avaliado em seis milhões de dólares e os médicos brasileiros são Newton Eduardo Busso e Nelson Antunes Júnior, também docentes de medicina no Brasil.

Em entrevista ao “Jornal de Angola”, os dois deram algumas explicações sobre a reprodução assistida. A reprodução assistida é toda a vez que, no lugar da relação sexual do casal, se aplica uma técnica ou um procedimento médico. As técnicas são a inseminação artificial e a fertilização “in vitro”.

A fertilização “in vitro” é igualmente conhecida por “bebé-proveta”, cuja primeira experiência foi feita em 1978 na Inglaterra e quatro anos depois começou a ser aplicada no Brasil.

No mundo, entre 15 e 30 por cento de mulheres têm dificuldades em engravidar. Por isso, precisou Nelson Antunes, “quanto maior é a idade feminina menor é a possibilidade de engravidar, pois o mais fácil é engravidar cedo”.

Desta forma, o médico Newton Busso lembra que a infertilidade está em todas as camadas sociais da população, não sendo uma doença do primeiro mundo ou dos países em desenvolvimento.

Hoje, segundo os dois médicos, dos seis biliões de habitantes considerados no início deste século, cerca de 80 milhões de casais são inférteis. “Não é uma doença como tal, porque ninguém morre de infertilidade, mas as pessoas sofrem e sentem quando sabem que são inférteis”, disse Newton Busso.

Mulheres com dois terços de infertilidade

No mundo, as estatísticas indicam que cerca de oito a 12 por cento da população em idade reprodutiva tem problemas de infertilidade. Os dados são mais alarmantes quando apontam que os países em desenvolvimento, como o Brasil, têm cerca de 30 por cento dos casais a sofrer de infertilidade.

Os médicos dizem que os casais neste caso sofrem duas vezes, ou seja, além da infertilidade, encontram dificuldades no acesso ao tratamento. Este facto não se regista, por exemplo, na Europa, onde os governos subsidiam o tratamento.

Dados apresentados por Newton Busso indicam que Angola deve ter dez vezes menos população em relação ao Brasil. Dos 184 milhões de habitantes brasileiros, 86 milhões são mulheres, ou seja, quase metade.

No Brasil, cerca de 42 milhões de mulheres entre os 15 e 44 anos estão em idade fértil. Caso Angola tenha na verdade entre 15 e 16 milhões de habitantes, então cerca de quatro milhões de habitantes estão em idade fértil. Se 30 por cento tiver problemas de infertilidade, haverá um milhão e 400 mil nessa condição, calculam os médicos. “Isso demonstra que há uma procura em Angola”, referiu Newton Eduardo Busso.

Num terço dos casais confrontados com a infertilidade, o problema está no homem e em dois terços dos casais a origem da infertilidade está na mulher, o que permite deduzir que cerca de 70 por cento dos casos de infertilidade são de mulheres.

O principal problema nas mulheres está ligado à trompa. Na sua maiori são provocados pelas doenças sexualmente transmissíveis ou abortos provocado, que levam à obstrução da trompa.

“Sabemos hoje que o problema está também nos homens, que achavam que o problema era apenas da mulher. Agora os homens já se expõem mais por existir tratamento”, advogou Newton Eduardo.

Os médicos brasileiros defendem que o uso de anti-concepcionais não causa qualquer problema de infertilidade na mulher.

Sublinhando que só depois de um ano é que os médicos podem diagnosticar se o casal é infértil. Nelson Antunes, também presidente da Sociedade Paulista de Medicina Reprodutiva, sublinhou que o casal fértil que mantém relações sexuais regulares, durante quatro vezes por semana, apenas tem entre 25 e 35 por cento de probabilidades de engravidar no período de um mês.

Se a mulher não estiver grávida durante um ano sem o uso de anti-concepcionais, os especialistas em reprodução humana procuram saber os motivos da não gestação. Três estudos fundamentais são feitos: o estudo do espermatozóide, do sémen e da ovulação. “Só quando se tem espermatozóides e óvulo é que se tem bebé. E para tal é preciso que as trompas estejam livres para que o óvulo e o espermatózoide possam encontrar-se. Então, fazemos estudos das trompas e uma radiografia da mesma”, sustentou Nelson Antunes Júnior.

Se for jovem, no caso, fazem-se vários tratamentos ou uma cirurgia para corrigir as trompas. Nalgumas situações é dado o remédio apropriado para a mulher ovular. Se não funcionar, o caso é encaminhado à reprodução assistida, onde será feita a inseminação artificial ou fertilização “in vitro”. Este último método é feito de duas formas: clássico (quando são feitos por motivos femininos) e ICSI – Injecção Intracitoplasmática de Espermatozóide (quando se faz por motivos masculinos, ou seja, quando o homem tem pouco espermatozóide).

Na reprodução assistida, explicam os médicos, o bebé-proveta precisa de muito mais recursos tecnológicos, equipamentos e especialistas. Já a inseminação artificial faz-se com maior simplicidade. “Pego nos espermatozóides de um homem, separo os melhores e coloco dentro da mulher, quando ela estiver no período fértil”, acrescentou Nelson Antunes.

Na fertilização “in vitro”, os especialistas dão remédios à mulher para fazer muitos óvulos. Depois retiram o óvulo e juntam-no com os melhores espermatozóides no laboratório, dentro de uma estufa. As condições no laboratório devem ser de alta qualidade. Depois é introduzido no útero da mãe.

Toda a mulher pode ter filhos?

“Não. Por exemplo, as mulheres que perderam o útero”, respondeu Nelson Antunes, que depois ressalvou, dizendo que as mulheres que perderam o útero podem ter filhos geneticamente e da seguinte maneira: “posso tirar o óvulo dela e colocar numa outra mulher.

A mulher em menopausa, por exemplo, não pode gerar outros filhos geneticamente. Mas se pegar nos óvulos de outra mulher, juntar-se ao espermatozóide do marido e introduzir-se no útero, ela pode desenvolver”, acrescentou.

Casos práticos

Mas, para melhor esclarecimento do funcionamento da reprodução humana, o especialista Nelson Antunes descreveu casos práticos: “uma jovem de 28 anos de idade foi dar à luz e o bebé morreu na hora do parto. Por ter tido tanta hemorragia, ela perdeu o útero. Ficou uma mulher que tem apenas os ovários. Não tem útero para a gestação.

Mas se se tirar os óvulos dessa mulher, depois da ingestão de medicamentos para a ovulação, há, nesse caso, fertilização com o espermatozóide do marido. Nasce, no laboratório, um bebé geneticamente deles. Mas, como ela não tem útero, não posso colocar dentro dela. Coloco na irmã dela que gera geneticamente um sobrinho e, depois do parto, devolve o bebé à irmã.”

Disse ser uma coisa corrente no Brasil, mas a legislação só permite que a mãe ou irmã receba essa gestação para evitar problemas de outro interesse.

Um caso prático masculino: “um rapaz de trinta anos padece de cancro. Antes de começar a quimioterapia, porque mata frequentemente a produção de espermatozóides, definitivamente ou por algum tempo, ele deixa congelados os espermatozóides num banco de esperma. Depois de dois anos, ele morre e o pai vem com a viúva e pede para colocar espermatozóide. Faz-se ou não? Na legislação brasileira não se pode fazer uma certidão de nascimento posterior a um atestado de óbito, embora sejam questões que a reprodução humana esteja a pensar.”

Todo o homem pode ter filhos?

“Também não é verdade”, afirmou Nelson Antunes, para acrescentar que, antes de 1992, cerca de vinte por cento dos homens não poderiam ter filhos. Mas depois de 1992, com o avanço tecnológico, os homens com poucos espermatozóides passaram a ter filhos e, agora, restaram oito por cento sem poder ter filhos. Com mais um avanço tecnológico a partir de 1995, hoje um por cento de homens não tem nenhuma esperança de ter filhos.

Tal como se pode recorrer a óvulos de outra mulher, também é possível recorrer-se a espermatozóides de outro homem, mas não é muito comum e aceite como acontece com as mulheres, ou seja, em cem apenas um por cento funcionou, durante os vinte anos de experiência de Newton Eduardo e Nelson Antunes.

Quando o homem tem uma quantidade normal de espermatozóides, o filho é feito por via de relações sexuais. Se tiver menos espermatozóides, o bebé é feito por inseminação artificial. Se a quantidade de espermatozóides for ainda menos é feito o bebé-proveta (fertilização “in vitro”) ou, no caso, a ICSI – Injecção Intracitoplasmática de Espermatozóide.

Preços praticados no mundo

No Brasil, são realizados todos os anos vinte mil casos de fertilização “in vitro”, na Europa 350 mil e nos Estados Unidos 120 mil casos. No Brasil, existem 120 clínicas especializadas em reprodução humana.

O laboratório a ser montado em Angola, segundo os médicos, terá as características dos dez melhores do Brasil. O espaço já existe, segundo os entrevistados, faltando apenas a construção do edifício, que obedecerá aos altos padrões das clínicas de reprodução assistida existentes no mundo.

No entanto, a inseminação custa no Brasil dois mil dólares e a gestação de um bebé de proveta fica à volta de sete mil dólares. Na Europa, a fertilização “in vitro” ou bebé-proveta custa entre seis e oito mil euros e nos Estados Unidos entre 10 mil e 12 mil dólares, sem incluir a componente farmacêutica.

Os médicos afirmam que estão em Angola por terem sido procurados por casais angolanos inférteis que viajam para o Brasil para tentarem pôr um filho no mundo. Em Janeiro do próximo ano, a equipa de médicos brasileiros estará de regresso a Angola para começar a diagnosticar os casais angolanos confrontados com problemas de infertilidade.

A Angola vêm ainda três técnicos de laboratório e igual número de clínicos, num total de seis especialistas. Na cidade de São Paulo, a equipa é composta por 18 especialistas. “Tudo vai depender da procura, embora haja muita ansiedade por parte de muitos casais angolanos que já nos contactaram”, avançou Newton Busso, que nos revelou estarem a estagiar no Brasil quatro médicos angolanos.
 
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