Angola ainda chora massacre dos camponeses de Cassanje
03-01-2009 | Fonte: Jornal de Angola
A 4 de Janeiro de 1961 foram assassinados camponeses dos campos de algodão da Baixa de Cassanje, na província de Malanje, porque se opuseram aos reduzidos preços na compra do algodão pelos fazendeiros e a companhia majestática, Cotonang. A reivindicação dos camponeses foi repelida com um bombardeamento da Força Aérea Portuguesa, tendo vitimado milhares de pessoas.

A Baixa de Cassanje compreende as aldeias de Cambo Sunginge, Zungue, Kanzage, Wholo dia Coxi, Santa Comba, Mulundo, Teca dia Kinda, Xandel, Moma, Iongo Milando e Massango (Forte República) nos municípios de Cahombo, Marimba, Cunda dia Baze e Quela.

Segundo testemunhas, a revolta começou quando, em Outubro de 1960, os camponeses recusaram receber sementes de algodão para semearem em Janeiro. Os capatazes da Cotonang perceberam que estava a começar um movimento grevista, até porque, alguns anos antes, as autoridades coloniais tinham subido o Imposto Geral Mínimo de 250 para 350 escudos, enquanto o quilo do algodão era comprado a um escudo.

Um camponês, para pagar o Imposto Geral Mínimo, tinha que vender no mínimo dez sacos de 50 quilos de algodão, ou era obrigado a contrair dívidas para pagar na colheita seguinte. Nos primeiros dias de Janeiro, começam a ser ensaiadas várias movimentações para enfrentar a grande máquina de repressão colonial.

Manuel Ndeia é um ancião com mais de 80 anos e testemunhou o massacre na localidade de Cambo Sunginge, sua terra natal. Na tarde do dia 4 de Janeiro, mais de 50 viaturas militares entraram em Cambo Sunginge. Os militares estavam bem armados. Um oficial mandou chamar Artur Verdades, um comerciante que gozava da simpatia do povo. Foi utilizado como mensageiro para tentar convencer os revoltosos a renderem-se. Mas não foi ouvido.

António Gonga, um dos sobreviventes do massacre, disse que quando os portugueses iniciaram os disparos, a população pensou serem balas de pólvora seca. Morreu muita gente. Foram enterradas mais de 50 pessoas na vala comum. Imaculada Dala, 75 anos, testemunhou os massacres na localidade de Nzungue, município de Cahombo. “O que ali aconteceu foi triste, vi uma criança de meses ao colo da mãe, que foi atingida por disparos. Mesmo ferida e ensanguentada, estendida no chão, deu de mamar à criança.

Logo de seguida o comandante mandou cessar-fogo”. Hoje é um homem de 47 anos. Chama-se Cruz Raimundo Ngunza. Vive em Luanda e trabalha na Sonangol. O soba do Nzungue foi morto pela tropa colonial, degolado e a sua cabeça pregada num pau próximo da estrada que liga a localidade à Bange Angola.

Bombas em Marimba

Em Marimba houve bombardeamento aéreo. O massacre de 4 de Janeiro de 1961 teve maior incidência nas aldeias de Pedro Macau, Gunza Guimarães, Pedro Mbumba, Wolo dia Koxy, Cadisso Canginga, enquanto Tembo Aluma, hoje Mangando, foi atacada pela infantaria. Manico Júlio testemunhou os acontecimentos e no Xiquita, município de Marimba, viu um homem a ser enforcado. Velho Junta disse que em Canzage existem várias valas comuns, onde em cada uma foram enterradas mais de cem pessoas.

Lágrimas em Teka dia Kinda

Teca dia Kinda ainda não enxugou as lágrimas, disse o mais velho António Sapateiro, como é conhecido. A aldeia foi invadida por mais de cem viaturas cheias de tropas, que iam em direcção à Cunda dia Base. Encontraram a estrada obstruída por troncos de árvores e o então capitão Teles Grilo mandou abrir fogo de artilharia. Morreram centenas de pessoas que estão enterradas em valas comuns. Em Teka dia Kinda existem túmulos à beira da estrada de pessoas massacradas.

Na localidade, o primeiro Presidente da República, Agostinho Neto, mandou construir, em 1978, uma aldeia piloto e um monumento aos mortos da Baixa de Cassanje.

Depois do massacre da Baixa de Cassanje, a PIDE/DGS intensificou as acções de busca contra os negros que tinham frequentado a escola.

Nas aldeias, os livros eram queimados. Luís Armindo Bele, 75 anos, antigo trabalhador da Cotonang, disse que a revolta dos camponeses foi justa, porque existiam grandes discriminações sociais e raciais.

Nas aldeias onde decorreu o massacre, o povo refugiou-se nas capelas e igrejas das missões católicas. O bispo D. Luís Maria Peres de Honrraita disse que os massacres da Baixa de Cassanje foram terríveis. As tropas colonialistas maltrataram os catequistas das missões do Qale, Mussolo e Brito Godins, actual Quiwaba Nzoge.

O caso mais flagrante, disse, “foi quando tive conhecimento da prisão de quatro catequistas pela PIDE/DGS em Malanje.Fui visitá-los, mas dias depois recebi a triste notícia de que tinham sido assassinados na cadeia”.

Bumba Vula Dala Amana, o rei Cabombo, acusou os colonialistas de serem os culpados morais do analfabetismo em Angola, “porque em 1961os colonialistas assassinaram todos os angolanos que sabiam ler e escrever, principalmente os que já tinham um nível alto de escolaridade”.
 
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