Humilhação nas discotecas de Luanda
17-01-2009 | Fonte: SA (José Carlos de Almeida)
À porta das discotecas de Luanda tem havido situações que constituem autêntica vergonha. Muito «boa gente» é humilhada à entrada dessas casas de diversão. É urgente que se defi nam as regras de funcionamento dessas casas nocturnas. A entrada nas discotecas tem que ser por ordem de chegada. Tem que se estabelecer os critérios para a definição de clientes VIP. Os clientes VIP deverão usar uma porta especial, tendo igualmente em atenção a ordem de chegada. Penso mesmo que deverão usar cartão, mencionando essa qualidade. É mister fazer menção do tipo de roupa a usar nas discotecas.

É admissível ou não roupa desportiva? Defi nidos todos esses aspectos e outros que se acharem indispensáveis, nenhum cliente poderá ser impedido de entrar na discoteca. Não se poderá ser impedido de entrar com fundamento na cor da pele, religião, situação social ou na «presunção de indignidade».

Quem puder pagar, entra. Todavia, as discotecas reservam-se ao direito de retirarem os clientes que perturbem a festa, o entretenimento. À porta das discotecas deverá estar presente um elemento da Polícia Nacional, que tomará conta das ocorrências. Assim, os clientes que causem constrangimentos aos demais utentes das discotecas devem ser encaminhados à Polícia. Não se pode negar o acesso de pessoas que queiram apenas divertir-se com fundamento em discriminação sócio-racial.

Há discotecas em que os brancos, mestiços e alguns negros filhos de dirigentes e «famosos» têm prioridade, ignorando aqueles que à porta pretendam entrar apenas para se divertir ou simplesmente beber um copo ou (re)encontrar amigos. É humilhante! É desagradável a forma como o negro é tratado na sua própria terra.

Alguns estrangeiros não compreendem essa situação. Eu, José Carlos, tão-pouco. Angola é um País africano. Constituído maioritariamente por negros, que deram a sua vida para que ela se tornasse independente. Não compreendo o facto de os nossos avós, os nossos pais, que lutaram para a independência do nosso País permitam que tais situações ocorram. Muitos deles sacrificaram as suas famílias e a sua formação.

A porta de entrada, alguém diz:- Amor, estou à porta da discoteca. Ao que parece não vou entrar, porque só estão entrar brancos e mestiços. -Estás mal vestido? Não tens dinheiro? Ou estás embriagado? - interroga o interlocutor. -Não! Estás maluca, porra?! Acho que é implicância! A alguns metros de uma discoteca, ouvi um jovem crescido e robusto dizer: «Um dias desses lanço uma granada ou faço uma rajada para ganharem juízo, filhos da puta!»

Ouvi isso com preocupação. Espero que tal nunca aconteça, pois seria um acto cruel. Oxalá que isso nunca ocorra, já que frequento discotecas e outros locais nocturnos do género. Os meus amigos e alguns alunos meus inocentes, os estrangeiros e eu poderemos ser vítimas dessa barbaridade. Isso seria prejudicial para a imagem do nosso País, ao qual queremos livre desses males sociais.

Com tanta frustração e descontentamento, temo que tal situação suceda. Mas será que é necessário que isso aconteça para depois reagir?Pensem! Refl itam! Meditem! Banzelem, meus kotas! Há alguns escurinhos e outros «assimilados» que dizem: «Eu não tenho problema de entrar, de bocuar nessa discoteca». E ficam à vontade. Despreocupados! Mas como é fi ca a situação «daquele» seu primo, do seu kamba que o acompanha?

Uns para entrar em certas discotecas têm que ir acompanhados de brancos ou seguir a fi la deles enquanto entram. Como se estivessem em suas companhias. A companhia de brancos serve de bilhete de ingresso. Basta que ele ou eles digam a frase mágica: «Está comigo!».

O acompanhante ou pseudo-acompanhante tem acesso e sorri exibindo os seus dentes de felicidade, esquecendo-se de que na próxima oportunidade não poderá entrar. «Tem sorte! Entra». Às vezes, a expressão é: «Entra lá». Gostava que compreendessem que este texto não é uma forma de luta contra os brancos e mestiços. Não tenho quaisquer complexos em relação a brancos e mestiços. Fiz a minha formação em Lisboa. Lidei com muito brancos, como é natural. Tenho parentes mestiços. Se o destino quisesse teria um fi lho mestiço. Portanto, estou à vontade... Trata-se da defesa do negro. Da igualdade entre todas as raças que constituem a nossa Angola. Decerto, se um dia se justifi car, defenderei os brancos e mestiços. Quem me conhece, sabe qual é a minha posição em relação às misses mulatas. Elas têm todo o direito de serem consideradas como tal, caso mereçam. Dentro das regras que o júri adopta.

Angola, de Cabinda ao Cunene, é constituída por negros, brancos e mestiços. Muitos desses últimos lutaram como os negros para que Angola se tornasse independente, com liberdade e IGUALDADE. Não nos esqueçamos que o Hino Nacional que «adoramos» e a Bandeira Nacional que «idolatramos» são obras de mestiços. Angolanos que tinham consciência da noção de LIBERDADE e IGUALDADE. Alías, não olvide que a primeira Bandeira Nacional hasteada foi confeccionada por duas brancas. Viva a IGUALDADE e o respeito pelo negro. O Negro humilhado, desprezado na sua própria Terra. Transmitam esta mensage aos vossos amigos, colegas e vizinhos. Imprimam-na se quiserem. Kandandus!

 
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