«Queremos ser líderes de mercado» Álvaro Torre
30-05-2009 | Fonte: Meios e Publicidade (Ana Marcela)
O lançamento do Semanário Económico no primeiro semestre é o próximo projecto do grupo de media angolano Medianova. Liderado por Álvaro Torre, a holding detém activos como a TV Zimbo, a primeira estação privada do país, o semanário O País, a Rádio Mais e empresas na área da impressão, distribuição e publicidade. Em entrevista ao M&P, Álvaro Torre explica os seus planos e relações com empresas e grupos portugueses.

A Medianova detém a TV Zimbo, a Rádio Mais, o semanário O País, a gráfica Damer e uma empresa de distribuição. O que levou um grupo privado a entrar no mercado de media angolano e porquê esta estratégia de fechar o ciclo de produção?

Angola está numa nova era de abertura ao mundo depois de todo o período conturbado que teve. Dessa altura, um grupo privado com quem me relaciono decidiu ocupar um espaço que era importante e estava disponível. E ocupar um espaço para um grupo que fosse angolano, feito por angolanos. E nasce o grupo Medianova que é transversal às várias áreas de media.

Mas quais são exactamente os objectivos? O mercado publicitário em Angola ainda não vale assim tanto, segundo os números…

Não sei que números tem.

Números da Marktest Angola relativos 2008 que dão a imprensa como valendo 30,7 milhões de dólares e a televisão, calcula-se, a valer entre 30 e 50 milhões.

No ano passado o volume global foi 100 milhões e está a crescer a um grande ritmo. Esses números não andam muito longe, mas faltam aí uns milhões, porque há empresas e o Estado que também anuncia.

Têm a Damer…

A Damer não tem nada a ver com a Medianova.

Não?

Pode haver um chapéu comum, que são os accionistas, mas é outra holding na área industrial. Faz a sinergia, por acaso sou administrador das duas, mas são áreas de negócio diferentes. A Damer não é uma coisa fechada para o nosso grupo.

Um grupo concorrente pode então imprimir na gráfica.

Sim, sem problema.

E a empresa de distribuição…

Não existe nenhuma empresa de distribuição em Angola e nós queremos ter cobertura nacional, portanto decidimos montar uma empresa de distribuição que também distribui outros produtos que não os nossos. Criámos meios para nos afirmarmos. O País quer afirmar-se pela diferença na pontualidade e na regularidade do dia e hora de saída.

Alguns dos operadores com quem falámos apontam como uma das fragilidades do sector de imprensa em Angola exactamente a questão da distribuição. Dizem que não há muitos pontos de venda e que a distribuição é feita com base em ardinas.

Têm razão. Os ardinas para nós são pontos de venda e temos a estratégia de desenvolver e criar pontos de venda. É preciso criar plataformas de distribuição. Estamos a fazer chegar a Angola caravanas e quiosques que vão estar com os nossos produtos e com aqueles que nos interessar, porque há produtos que não nos interessam e que não vão estar nos nossos quiosques.

Que produtos são esses ?

São produtos que não têm qualidade e que não dignificam Angola. Contrariamente ao que dizem Angola dá muito espaço à liberdade de imprensa. As pessoas, por vezes, não sabem aproveitar e confundem e deturpam a realidade, portanto, há produtos em Angola que não têm qualidade.

Apesar da Damer não estar sob a umbrella do grupo Medianova, segundo a Angop, só na primeira fase do projecto, investiram 25 milhões de dólares, e o projecto total seriam 35 milhões. E isto é só a parte da gráfica. Montar jornais, rádio, televisão…

Da gráfica não. Se fosse tanto dinheiro não teríamos essa capacidade.

Então globalmente qual é o investimento da Medianova e para quando a sua recuperação?

À volta dos 50 milhões, a recuperar ao fim de três anos. O mais pesado é o projecto de televisão.

Vamos à televisão. A TV Zimbo começou em emissões experimentais no final do ano passado e tiveram a colaboração da Valentim de Carvalho Televisão (VCT) e da TVI/NBP, que prestaram consultadoria na área técnica. A relação com as produtoras mantém-se?

Cessa. A VCT passa a ser uma produtora como outra qualquer que poderá fornecer conteúdos desde que tenha um bom preço e corresponda aos critérios da estação. Com a TVI não. Temos um protocolo que é renovável anualmente, válido pelo menos até ao final deste ano, e temos o apoio da TVI na gestão da estação, até termos os nossos quadros perfeitamente formados.

Esse protocolo passa também pelos conteúdos? Em antena já têm produto NBP nomeadamente novelas, Feitiço de Amor, e séries, Inspector Max.

Sim, serão parceiros nessa área, no fornecimento de conteúdos.

Pensam criar, com esse parceiro ou com outra produtora, produtos especificamente para Angola?

Estamos a fazê-lo. Já temos o embrião da nossa produtora, para já para entretenimento, e depois vai migrar para a ficção. Como o mercado de Angola é muito fechado, muito reduzido, com ausência de recursos humanos qualificados disponíveis, temos de formar as pessoas primeiro. Queremos afirmar-nos com produtos angolanos feitos com apoio de portugueses, brasileiros, mas produtos e produções feitas localmente.

Mas será sempre uma produtora detida pelo grupo, não terá uma participação externa?

Há possibilidades.

Com um parceiro português?

Se hoje nos damos com a Media Capital, com a Plural, com a Valentim de Carvalho, pode ser que o namoro dê em casamento.

E o ‘namoro’ como lhe chama está bem encaminhado?

Nós damo-nos muito bem com a TVI.

Na imprensa detêm O País e anunciaram estar interessados em lançar um título na área da economia.

Vai-se chamar Semanário Económico e será lançado no primeiro semestre [deste ano].

Esse espaço não estará ocupado pela Scoremedia que já edita a revista Estratégia e o semanário Expansão?

O nosso produto não tem nada a ver com a Estratégia e com o Expansão. O nosso produto tem uma coluna vertebral perfeitamente angolana.

O que quer dizer com isso? Refere-se à parceria que esse grupo tem com a Económica?

Não, não. Leia o Expansão e percebe.

Fala em coluna vertebral angolana. Como é que se concretiza?

Nos conteúdos. Todas as matérias serão 80 por cento angolanas, claro que com a parte de economia internacional que nos interessa. A diferença está na forma como vamos trabalhar o conteúdo no terreno, não importando.

O Sol, depois da entrada da Newshold, uma empresa de capitais angolanos, na sua estrutura accionista, anunciou a distribuição em Angola e o lançamento de uma edição para este mercado. Encara o Sol como um eventual concorrente de O País?

Normalmente os angolanos gostam de comer ou carne ou peixe. Ou é carne ou é peixe, produtos que não são nem carne nem peixe…

Não acha então que seja um concorrente.

Não. Sabemos quão difícil é fazer um produto angolano de qualidade. Não estamos ainda com o nível de qualidade que queremos, estamos a trabalhar e iremos trabalhar sempre, e a aceitação do nosso produto foi muito boa. Ultrapassou aquilo que eram as minhas previsões e expectativas. O jornal já está a vender 7 mil por semana, o que é muito bom. Chegar ao final do ano a vender 12 mil - foi corrigido o objectivo de 10 mil - é perfeitamente atingível. É um produto genuinamente angolano e que veio marcar a diferença.

Acha então que edições locais de títulos ou marcas de outros países não têm propriamente grande sucesso no mercado angolano?

Há marcas portuguesas de grande sucesso que são muito respeitadas em Angola, mas a marca que mais vende em Portugal está connosco, A Bola, e aí temos o exemplo prático. É um tema transversal, de futebol toda a gente gosta e une toda a gente. Mas mesmo aí, para conseguir ter o sucesso que quero ter com A Bola, tenho de angolanizar e ter pelo menos 50 por cento dos conteúdos.

Quando pensa atingir isso? Não é exactamente essa a realidade hoje.

A Bola em questões editoriais é muito criteriosa e temos de assegurar que o nível de qualidade se mantém, mas estamos a trabalhar nesse sentido.

Há alguma outra área onde queiram entrar, eventualmente também com um parceiro português?

Para já não.

E como é que o grupo olha para o mercado português? A Newshold já comprou uma posição num título. A entrada num grupo, num meio nacional, é algo que equacionam?

Estamos atentos, mas não estamos a pensar neste momento em vir para cá. Estamos cá apenas como plataforma de recolha para os nossos conteúdos e injecção de alguns produtos angolanos.

Mas porquê essa opção de plataforma e não de investimento directo? O mercado não é atractivo?

Neste momento o mercado publicitário está muito mau, para que é que estaríamos a arranjar dores de cabeça? Estrategicamente não faz sentido.

Diz que em Portugal é uma plataforma de recolha de conteúdos, têm um escritório cá. Há algum tempo falava-se na constituição de uma redacção. Abandonaram esse projecto?

Neste momento temos três pessoas na área de informação. Para já não pensamos aumentar a nossa presença. Temos também a área comercial. Aí queremos ajudar as empresas que querem investir em Angola a saber anunciar e a vender em Angola. Temos aqui comerciais que são multimeios, ajudam a colocar publicidade nos nossos produtos ou com a agência de publicidade - onde está o Cristiano [Zancuoghi] - a angolanizar as campanhas para Angola.

Há algum tempo, em declarações ao M&P, tinha demonstrado a vontade de lançar em Portugal alguns dos títulos.

Abandonámos isso. Temos a Chocolate, essa sim vai entrar na distribuição em banca. Com os outros produtos a distribuição será em alguns clientes que querem receber O País, por assinatura.

Devemos estar em Maio/Junho a fazer a festa de lançamento e a montar a distribuição em banca da Chocolate. Vamos arrancar com cinco mil exemplares.

Porquê a opção pela Chocolate e não O País, um dos títulos de referência do grupo?

Pelo perfil do produto. A Chocolate é uma revista de lifestyle, as pessoas têm curiosidade pelo que se passa lá. Tem um nicho de mercado interessante e definido: generalista, classe A/B. O jornal é um título de informação: 90 por cento do conteúdo do jornal é de Angola para Angola. Não temos cá mercado.

Há algum outro título do vosso portfólio que gostasse de distribuir cá?

A única coisa que estamos a pensar fazer é uma brochura mensal que se chama Angola News, uma súmula dos artigos de O País que achamos que possa ter interesse cá, e será distribuída gratuitamente num dos jornais portugueses. Encartado num Expresso, num Diário de Notícias. Já devia ter arrancado, mas estamos na fase de formatação editorial. Será seguramente Julho.

Voltando a Angola. Têm a Rádio Mais que emite em Luanda e nos vossos planos está alargar as emissões da estação por outras cinco capitais. Quando é que vai acontecer?

Huambo é agora em Maio. A estação está já montada. Em Junho será Lubito/Benguela e depois, no segundo semestre, as outras cidades. Não é uma emissão nacional. É Rádio Mais Luanda, Rádio Mais Benguela… A lei angolana para já não permite uma emissão nacional.

Actualmente já têm posições em diversos meios, inclusive publicidade. Daqui a dez anos onde vê a Medianova?

Viemos mexer com o mercado angolano. Queremos liderar o mercado em Angola em termos publicitários e ser a referência em termos de media. Neste momento não é muito difícil atingir isso, mas Angola está a mexer, há outros grupos a chegar, temos de estar atentos.

Mas em Angola onde posiciona a vossa principal concorrência?

Temos a televisão que nos dá muita força. Não há nenhum grupo de media que se atrevesse a estar nestas áreas todas, com a força que temos. O dia de amanhã não sei.

Sente que há sinais que poderá surgir esse grupo?

Não tenho sinais, nem conheço. Pode haver pessoas interessadas em meter-se nesse tipo de negócio, é preciso coragem, não é fácil.

Disse que o vosso investimento total foi na ordem dos 50 milhões de dólares, com retorno a três anos. Dado o actual estado da economia mundial, Angola não está a sentir os efeitos da recessão? Em que medida afecta os vossos objectivos?

Angola não está a sentir os efeitos da recessão, mas da redução do preço de petróleo que reduziu um bocadinho a nossa margem de manobra. Mas não só de petróleo vive Angola e tudo o que está a ser feito, a reconstrução da barra industrial, da agro-pecuária, vai continuar a fazer crescer Angola e não se prevê que nos próximos anos entremos em recessão.

Quem são os accionistas do grupo Medianova?

Um grupo de empresários angolanos que se uniu para ajudar a fazer este projecto e para conquistar este espaço. É como em Portugal, as S.A. são para se respeitar e há razões pelas quais não interessa divulgar. São pessoas discretas, empresários que não querem estar rotulados a este tipo de projecto. Eu assumo o projecto, represento os accionistas.

Houve um nome que saiu cá para fora. O do general Manuel Hélder José Vieira Dias Júnior ‘Kopelipa’, chefe da casa militar do Presidente de Angola. Esta informação tem fundamento?

Não tem fundamento.

Na área da publicidade o grupo tem uma agência. Trata-se da Publivision ou da LPM Publivision?

Da Publivision. A LPM é um parceiro que em determinada altura trabalhou em Angola e precisou dos serviços da Publivision para a apoiar em alguns trabalhos.

Mas houve uma altura em que a própria LPM anunciou a criação da LPM Publivision. Essa estrutura terminou?

Nunca chegou a avançar.

Pode adiantar os motivos? Foi um negócio dado como certo…

Pois. Mas acabou por não se passar nada. Continuamos a ser parceiros estratégicos em projectos em que a comunicação da LPM é importante, e a Publivision leva aquilo que sabe fazer. Agora juridicamente são duas estruturas diferentes.

O objectivo é conquistar clientes portugueses?

Temos contas interessantes em Angola que obrigam a muito trabalho e agora com o aparecimento de novas marcas queremos estar ao lado das novas marcas de refrigerantes, companhias de seguros, banca… O objectivo principal foi acrescentar valor à parte criativa da Publivision em Angola, para os clientes angolanos, mas também estar aqui e estrategicamente dizer que somos a primeira agência angolana que abre uma delegação em Portugal para ajudar os empresários que queiram anunciar em Angola. Em Portugal temos quatro criativos.

Falou em clientes de peso em várias áreas. Quais?

Sonangol, somos a agência de referência dentro da Sonangol. Temos a BPC, Angola Telecom…

Muitas agências portuguesas já anunciaram o interesse e outras já abriram delegações em Angola. Vê-as como potenciais concorrentes?

O mercado é grande e está a crescer. Têm de fazer um bom trabalho, mas há espaço para todos.

Onde é que vê então neste campo a sua principal concorrência?

A agência que beneficiou de estar mais bem estruturada e esteve sozinha em Angola: a Executive Center.
 
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