Prostituição: Vai uma voltinha, fofo?
15-06-2009 | Fonte: O País
Apelidada de Madó, esta senhora de 33 anos de idade e moradora do município do Cazenga, assume-se como pros- tituta há sete anos. Lidera um grupo de cinco mulheres comprometidas, denominado “Colégio Pita Bwé”, que enveredaram pela mais antiga profissão do mundo para superarem as dificuldades materiais e financei- ras que passam nos seus lares com os seus respectivos maridos.

Ultimamente, o exercício da prática da prostituição nas ruas de Luanda deixou de ser um negócio exclusivamente desenvolvido por raparigas descomprometidas. A outra parte não teve qualquer pejo em envolver-se nele: “O meu marido não aguentava mais com as despesas de casa. Então, decidi ajudá-lo e esta foi a forma mais fácil que encontrei”, confessou Madó.

A chefe do “Colégio Pita Bwé” assegurou que nunca lhe passou pela cabeça que um dia seria uma prosti tuta, antes de ir parar às imediações do Hotel Continental, ao Baleizão, onde teve a sua primeira noite de trabalho a troco de cem dólares. Um carro parou na sua direcção e um homem questionou-a: “quanto custa os seus préstimos sexuais? “ Perplexa, como ela própria recorda sete anos depois, apercebeu-se que tinha pisado uma área frequentada habitualmente por “quengas”, como também são conhecidas as meretrizes.

Mas ela contrapôs ao senhor que lhe fez a proposta inicial: “Quanto propões? “ Depois de ouvir a proposta de cem dólares norte-americanos, a senhora subiu no carro e rumou com o senhor para o bairro Benfica, de onde saiu apenas no dia seguinte. “Foi o meu baptismo”, revelou.

Actualmente, Madó e as suas companheiras continuam com as suas actividades nas principais artérias da cidade, principalmente nas imediações do Hotel Continental. Entre as sextas-feiras e domingos têm de pernoitar na Baixa de Luanda. Ao esposo, que permanece no longínquo Cazenga, diz apenas que tem de passar as noites na casa da sua patroa, onde trabalha como lavadeira, uma actividade que o próprio marido tem conhecimento e consente.

A própria assegurou que se defende dizendo ao esposo que “tenho de passar a noite a cuidar dos filhos da minha patroa, porque ela faz noite no local onde trabalha”. Mas quando este propõe conhecer o serviço dela, a prostituta procura sempre um argumento, incluindo que mudaram de local. Pelo menos já apresentou este tipo de justificação nove vezes, segundo a própria.

“O meu marido nunca manifestou desconfiança directa, porque ele não pode dar aos filhos aquilo que eu consigo deste tipo de trabalho”, explicou a líder do grupo, acrescentando que “para assegurar o negócio sugeri ao meu companheiro que fizéssemos o planeamento familiar em finais de 2003 para criarmos condições que garantam o crescimento condigno dos futuros filhos”.

Com 28 anos de idade, Mãezinha é a mais nova entre as cinco integrantes do “Colégio Pita Bwé”. Vive com o esposo no bairro Capalanca, no município de Viana, e entrou no negócio do sexo há cinco anos.

“Em 2003, a minha tia, que afinal era a chefe da Madó, trazia sempre uma oferta para mim e outra para o meu marido. No ano seguinte, ela convidoume para um passeio no seu local de trabalho e, com o consentimento do meu marido, aceitei”, recordou a jovem.

Mal chegaram às proximidades do Continental, um carro parou diante delas. A tia convidou a sobrinha para subirem no automóvel. Antes de se aproximarem da Pensão Destino, na Maianga, tudo parecia muito estranho para a rapariga até ao momento em que a tia exibiu-lhe 600 dólares e sugeriu-lhe que seguisse o esquema. Segundo Mãezinha, os 300 dólares (parte do dinheiro que lhe foi exibido) e o luxo do lugar que não adivinhava pisar tão cedo, influenciaram-na a seguir as instruções da tia como se de uma ordem militar se tratasse. “Envolvi-me com aquele inglês e uma nova página acabava de se abrir na minha vida”, garantiu esta prostituta de 28 anos, ainda duvidosa de si mesma.

A então caloira no negócio do sexo recordou que a sua entrada em cena foi seguida de uma imediata separação do anterior marido, mas não se sabe se este teve conhecimento das investidas da esposa. Ela vive há quatro anos com outro homem.

Para evitar fugas de informação, que possam chegar aos seus respectivos companheiros, as integrantes do “Colégio da Pita Bwé” escusam relacionar-se com outras trabalhadoras do sexo, sobretudo as que não possuem maridos nos bairros onde vivem, para não prejudicarem as suas relações oficiais.

Os corredores da prostituição em Luanda estendem-se entre as redondezas do Ministério das Relações Exteriores (MIREX), as discotecas Palos e D. Quixote, assim como nas proximidades de alguns restaurantes, entre os quais o Rialto e Baía. É preenchido por equipas de prostitutas diferenciadas pela idade, classe social e até mesmo nacionalidade.

Segundo apurou O PAÍS, existem os grupos das chamadas catorzinhas (com idades compreendidas entre os 15 e 17 anos de idade), das comprometidas (entre os 18 e 35 anos) e o das congolesas-democráticas. Mas dificilmente actuam na mesma linha de busca de clientes.

Por causa da fama que ostentam de terem muita perícia e maturidade durante o acto sexual, as congolesasdemocráticas são as mais procuradas pelos habituais clientes do mercado do sexo.

Há senhoras não prostitutas que chegam às zonas tradicionais de prostituição para fazerem um “dinheirinho” aos fins-de-semana. “Elas ficam no lugar de rotina sexual e as quengas vão à rua buscar clientes para as anónimas”, revelou uma fonte por nós contactada.

Rota da prostituição

Não se sabe ao certo se é para verem perdoados os seus pecados ou se para terem mais clientes, mas o certo é que a Travessa da Sé, nas imediações da Igreja dos Remédios, na Baixa de Luanda, é o local que as prostitutas acham mais seguro e onde pululam em grande número durante a noite. As integrantes do “Colégio Puta Bwé”, liderado por Madó, também deambulam nestas paragens.

A preferência não fica apenas pela Igreja dos Remédios, como apurou O PAÍS. Outras meninas estacionam junto às igrejas do Carmo e Sagrada Família, onde desenvolvem as suas acções nocturnas.

Por Luanda, existem outros pontos, como as ruas Rainha Ginga, Francisco das Neves Castelo Branco, Amílcar Cabral e Gomes de Sousa. Entram ainda na rota as ruas José Pedro Tuca, Fredeerick Engels e Comandante Veneno, no município da Ingombota.

Na periferia, sobretudo nos municípios da Samba, Kilamba-Kiaxi e Viana, destacam-se as imediações da Odebrecht, no Morro Bento, cercanias do Supermercado Interpark e a via expresso de Viana.

No bairro Operário existiam as conhecidas casas da Mãe Fina e Mãe Maria. São prostíbulos que foram extintos. Assim como o Kamatambo (vulgarmente conhecido por Tonton Mac) no bairro do Marçal. “Na altura, quando atingíamos 14 anos de idade, os kotas levavamnos à Mãe Fina e Mãe Maria para sermos baptizados na vida sexual”, contou um antigo morador do Bairro Operário.
 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação