O drama de uma jovem que quer conhecer o pai
24-08-2009 | Fonte: JA
“Ajudem-me, por favor, a encontrar o meu pai ou alguém da sua família”. Foi assim, mais palavra menos palavra, que Beatriz Feddersen abordou a equipa de reportagem do Jornal de Angola, durante o Forum AgriBusiness 2009, que teve lugar na Cidade do Cabo, África do Sul, de 14 a 17 Junho de 2009, atraindo mais de 400 delegados vindos de 43 países dos cinco continentes. Licenciada em Turismo e Recursos Humanos pelo Varsity College de Cape Town, Beatriz Feddersen, de 32 anos, conta que o seu drama começou no longínquo ano de 1975, quando dois jovens militares da ex-FAPLA, Manuel Simão de Sousa e Maria Antónia Cambambe, os seus progenitores, apaixonados, decidiram, no calor da guerra contra as forças do apartheid, levar essa paixão um pouco mais longe. “Dessa paixão nasci eu, em 1976, em Luanda”, prossegue Beatriz Feddersen.
O pai não estava presente quando ela nasceu e Beatriz acredita que este nunca soube da sua existência. “Só assim se compreende que eu tenha sido baptizada e registada com o nome de Beatriz Cambambe, do meu avô materno”, explica. Do que conseguiu arrancar da mãe, pouco antes desta morrer, em 1990, acerca do pai, foi o nome (Manuel Simão de Sousa), a naturalidade (Malanje) e de que ele teria uma outra família e estaria a trabalhar e a viver algures em Luanda.
Beatriz Feddersen, que chegou à África do Sul com o marido em 1997, conta que tentou, várias vezes, saber mais sobre o pai, mas a mãe nunca se abriu. “A relação dos dois terá sido rompida de uma forma traumática, quando ela soube que o meu pai, afinal, tinha uma outra família”.
Beatriz prefere não fazer quaisquer julgamentos sobre tudo isso. “Não me compete a mim julgar nem a um nem a outro, quero apenas saber do meu pai, se é que ainda vive, e a possibilidade de conhecer alguém da sua família”. Além do marido York Feddersen, de quem adoptou pelo casamento o nome alemão Feddersen, e os dois filhos, Beatriz vive num bairro de classe média alta de Cape Town com dois irmãos maternos, a Emanuela e o Márcio, ambos licenciados pelo Varsity College com a ajuda do casal e a trabalhar no ramo em que se formaram.
“A minha irmã Emanuela licenciou-se em Hotelaria e o meu irmão Márcio licenciou-se em Administração de Empresas. Ainda vivem connosco, mas já pensam organizar as suas vidas de forma independente”, referiu. A trabalhar como Relações Públicas (Guest Relations) numa importante cadeia de hotéis de Cape Town, onde também é a responsável pela gestão dos recursos humanos, Beatriz Feddersen fala com orgulho e elevação do apoio prestado por ela e pelo marido aos dois irmãos, e conta que gostaria de poder ter prestado o mesmo apoio aos outros irmãos e parentes paternos, se os conhecesse.
“Quem sabe se algum deles já não terá passado por mim sem que eu soubesse disso?”, questionou-se, para depois explicar que tem alguns parentes maternos a viver em Luanda e esses nunca souberam contar-lhe “a verdadeira história” sobre o pai.
Acrescenta que o marido, a trabalhar numa companhia de petróleos (Schulemberger) em Angola, também tem manifestado interesse em conhecer o sogro. “Olha, os meus filhos, uma menina de 11 anos e um menino de 8 anos, conhecem o avô paterno alemão e querem conhecer o avô materno angolano”, disse.
Beatriz Feddersen, que não visita Angola há três anos, pediu à reportagem do Jornal de Angola que gostaria que o pai ou um parente deste a contactassem através do número 00270724092861 ou pelo e-mail: ritz@africanskyhotels.com.
síndrome da alienação parental
A propósito da história contada por Beatriz Feddersen, o Jornal de Angola foi à Internet e constatou que, após a separação dos pais, o que se verifica, segundo estudos de 1985 de Richard Gardner, é a ocorrência da Síndrome de Alienação Parental (SAP).
Pode-se conceituar a “Síndrome de Alienação Parental” (SAP) como o processo de “programar” uma criança para que odeie o progenitor não-guardião. Esse fenómeno ocorre por influência do progenitor guardião (via de regra a mãe, que fica com a guarda do filho em aproximadamente 91% dos casos de separação e divórcio), com quem a criança estabelece laços afectivos mais fortes. Quando a síndrome se instala, o relacionamento da criança com o progenitor alienado fica irremediavelmente comprometido.
O progenitor que tem a guarda do filho vale-se de comportamentos manipuladores, induzindo a criança, por meio de técnicas e processos, a criar uma má imagem do outro progenitor (não guardião), visando “puni-lo” e expulsá-lo por completo da vida dos filhos. Com o tempo, o filho, consciente ou inconscientemente, passa a colaborar com essa finalidade, situação altamente destrutiva para ele e para o progenitor alienado.
Fica evidente que a SAP está intimamente ligada a uma relação extremamente conflituosa entre os pais. Em Angola, não existem ainda estudos profundos sobre o assunto, mas países como o Brasil e Estados Unidos, onde o número de divórcios é muito grande, cerca de um terço dos filhos menores de pais divorciados perdem contacto com seus pais, sendo privados do afecto e convívio com o progenitor ausente, o que tem consequências trágicas no seu desenvolvimento psicossocial.
Quando adulto, o filho perceberá que praticou uma grande injustiça em relação ao progenitor alienado, e passará a odiar o progenitor alienante. Para superar a SAP, os pais devem ter, entre outras, qualidades superiores para exercerem as suas funções parentais; grande equilíbrio emocional; amor incondicionado aos filhos; e contar com a necessária ajuda jurídica e psicológica especializada.
Lidar com a SAP exige também grande consciência e atenção por parte dos operadores do Direito, assistentes sociais e conselheiros tutelares, que devem buscar elementos para enfrentar o problema na área da psicologia, uma vez que se trata de relacionamentos humanos conflituosos. Por fim, refira-se que a alienação parental é uma das maiores formas de abuso contra a criança, podendo levar à perda do poder familiar por parte do progenitor alienante.
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