«Agostinho Neto impunha-se como uma catedral»
14-09-2009 | Fonte: JA
Numa altura em que se comemora a semana do Herói Nacional, o Jornal de Angola conversou com a esposa do primeiro Presidente da República de Angola. Maria Eugénia falou-nos da sua vida com Neto. Uma ligação que começou com o gosto pela literatura e consolidou-se quando Agostinho Neto foi preso pela terceira vez.

P- Em que circunstâncias conheceu o Dr. António Agostinho Neto?

R- Eu conheci o camarada Presidente Agostinho Neto era novinha, com os meus 16 a 17 anos. E porque ele frequentava a casa do camarada Humberto Machado que era irmão do camarada Ilídio Machado, que as pessoas dizem que foi o primeiro Presidente do MPLA. Não confirmo, mas é o que se diz muitas vezes. Humberto Machado, nesse tempo, era estudante e depois da independência foi vice-ministro da Agricultura. Então eu comecei a dar-me com aqueles jovens que eram estudantes provenientes de diversos países que frequentavam a casa do camarada Humberto Machado. Na casa dele havia muitas reuniões políticas e artísticas. Era uma casa onde se cultivava a amizade. Os marítimos levavam aquela banana vermelha, que eu por acaso gosto muito, não sei se é do Uíje, e igualmente o peixe seco que eles não tinham lá. A mulher do Humberto Machado dava-se com a minha mãe. Foi nesse ambiente que conheci o Presidente Neto, também estudante, mas e ele era muito calado. Foi assim que tudo começou. Ao longo de cinco anos fomos apenas amigos. Então ele foi preso e as coisas começaram a entrar numa outra fase.

P - Como ficou a amizade com Neto na prisão?

R- Bom ele esteve três vezes na prisão. Eu como era amiga dele, comecei a enviar-lhe bolinhos e aquilo que podia. Às vezes as coisas não chegavam lá e ficavam pelo caminho. Nesse período eu comecei a ler os poemas dele e a conhecer a profundidade da sua personalidade. Eu também andava à procura de alguma coisa especial. Colaborava num jornal de estudantes e comecei a interessar-me por poesia, a estudar línguas, fiz um curso de francês.

P – A cultura influenciou a amizade de ambos?

R- Sim. Por exemplo, ali os livros circulavam, quem podia comprar, comprava, mas passavam nas mãos de todos, e a mim aqueles estudantes africanos davam tudo para ler. A minha mãe perguntava-me, estás a fazer o quê? Eu estava num canto a ler, a ler. E esses livros que eles liam, eram dos progressistas portugueses e neo-realistas. Também haviam livros dos americanos e do Jorge Amado, ou do Graciliano Ramos. Os brasileiros forneceram também gente progressista com ideias firmes de mudar o mundo. Eu era profundamente religiosa e com aquela linguagem do Jorge Amado ficava tensa. E foi-se formando também a minha personalidade.

P - Ainda é religiosa ?

R- Eu não professo nenhuma religião, a minha religião é como Agnatom, é um Deus universal, é o Universo. Eu era católica, mas agora estou aberta a tudo o que seja válido, ir mais além e descobrir o nosso universo. Claro que há padrões que a humanidade deve seguir para a sua compreensão para não haver guerras e certos comportamentos. A gente tem que respeitar certas noções de amizade e de solidariedade. O Homem tem que ir mais além. Eu gosto muito dessa personagem do Agnatom porque, ainda agora, um escritor asiático, com um livrinho, ganhou o prémio Nobel e é uma personagem que eu já tinha usado para representar o Presidente Neto no meu livro “A Mensagem do Cristal Costa”. Já me tinham identificado com ele.

P - Agostinho Neto também era católico?

R – Não, ele era protestante, mas o protestantismo vem do catolicismo. Há uma ala que se rebelou contra aquilo que se passava então. O Luthero, quando foi visitar o Papa em Avignon, viu tanto luxo que disse: isto é anti-Cristo. E fez a reforma e depois a contra-reforma. E todos estes povos do Norte da Europa foram influenciados por Luthero.

P- Quando é que se consolida a relação com Agostinho Neto?

R- Na última vez que foi para a cadeia, em que ele ficou preso 18 meses com os outros jovens. Antes de ser preso ele estava com ideia de falar com os meus pais para me pedir em casamento, mas nunca tinha acontecido. Então eu comecei a assumir que era noiva dele para poder visitá-lo na cadeia, levar-lhe amizade e carinho. Foi assim. Depois quando ele saiu, ainda namorámos mais um ano. Casámos no dia em que se licenciou em Medicina.

P- Como é que os seus pais receberam o Dr. Agostinho Neto?

R - Receberam bem, mas eles diziam ‘tu é que sabes, tu é que sabes’. Mas a minha família nunca imaginou que eu fosse para uma luta de libertação. E enfrentámos uma concepção racista do mundo, onde o homem africano era desclassificado. Tenho a consciência que o meu marido e eu pusemos pedras nos alicerces do mundo. Por exemplo, a eleição do Obama nós contribuímos para isso, nós contribuímos para mudar as mentes, para mudar as consciências e conceitos. E isto foi conseguido à custa de muito sacrifício. Ainda agora aqui vivemos muitos problemas, mas é um contributo que demos e que continuamos a dar para que o mundo, realmente, se encontre.

P- O que a impressionou mais na pessoa de Agostinho Neto?

R - Foi a personalidade dele. A personalidade dele impressionou-me muito. Ele tinha uma presença tal, acho que a minha ligação com ele foi uma ligação espiritual muito profunda e que hoje até não entendo bem. Uma ligação espiritual, qualquer coisa que veio não sei donde e me ligou a ele. Porque ao fim de 30 anos da sua morte eu continuo ligada a ele, eu própria, não sei explicar. Talvez eu tenha ficado para que o nome dele não fosse apagado e esquecida toda esta luta. Há coisas que não sabemos muito bem explicar. Agostinho Neto impunha-se silenciosamente como uma catedral. Os camaradas que conviveram com ele sabem que era uma pessoa dócil, tinha um tratamento com as pessoas muito correcto, muito educado, mas a personalidade dele estava muito além. Eu não sei explicar.

P- Depois do casamento vieram para Angola. Como é que a família de Neto vos recebeu?

R- Receberam-me bem. A minha sogra foi muito simpática. Mas o meu pai já tinha vindo cá e falou com a minha sogra e com o meu cunhado mais velho e eles já se conheciam. Não foi assim à toa que vim.

P- O Dr. Agostinho Neto era um homem muito ocupado, médico, político e poeta. Tinha tempo para a família?

R - Não, não teve tempo para a família. Quando ele estava em casa era um pai carinhoso. Por exemplo, quando tive o meu filho Mário Jorge ele ajudou-me a mudar as fraldas, dar o biberão. Mas com as meninas já não tinha mais tempo porque era líder da luta de libertação e era muito difícil. Quando estava presente era um pai extremoso. Era uma pessoa carinhosa, mas como tinha tanta coisa que fazer a educação dos filhos ficou para mim. Essa carga toda ficou sempre comigo e continuou depois da sua morte. O que não acho justo deixarem-me assim sozinha com a tarefa de criar e educar os filhos de Agostinho Neto, justo porque eles são filhos da pátria, e se Angola independente existe deve-se muito a ele.

P– No 4 de Fevereiro já eram casados. Como receberam a notícia?

R- Nós recebemos a notícia do 4 de Fevereiro em Cabo Verde quando ele foi deportado, uma coisa da qual quase ninguém fala. Quando Agostinho Neto foi deportado ficou um ano e tal em Cabo Verde e então recebemos lá a notícia. Eu estava grávida da minha filha Irene e depois fui a Portugal em Junho de 1961 já no oitavo mês de gravidez, e tive lá a bebé.

P – O Dr. Agostinho Neto também era o médico da família?

R- Na família não, não me lembro. Mas em Cabo Verde ele exerceu medicina e até cirurgia. Fez medicina aqui em Luanda durante seis meses, antes de ser preso, e em Cabo Verde durante um ano. Depois a luta de libertação tomou-lhe o tempo todo.
 
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