As consequências da proliferação de seitas
11-02-2010 | Fonte: JA
A paz que Angola reconquistou, em 2002, favoreceu a proliferação de seitas ou movimentos religiosos, vulgarmente reconhecidos como igrejas, constituindo, assim, um fenómeno social que está a marcar o país, agora de uma forma mais evidente e alarmante.

Sendo um fenómeno social, está a levantar problemas em vários níveis, sendo a primeira questão a clarificação de termos, pois “igreja”, em rigor, nada tem a ver com “seita”, tratando-se de realidades diferentes. Estas premissas suscitam a necessidade de distinguir uma igreja de uma seita ou de um movimento religioso, principalmente quando se verifica uma desmesurada procissão de seitas que se autoproclamam de “igrejas”.

Na verdade, igreja é uma instituição social, sendo um agente de socialização, na medida em que espelha uma organização que transmite o conteúdo da cultura de uma geração a outra, e tendo uma hierarquia de funcionários sérios e bem constituídos. Tem também um peso histórico e uma dimensão universal, não se limitando a uma etnia ou a uma região. Por seu turno, a seita é um agrupamento de pessoas que professam a mesma doutrina religiosa, e existe em todas as religiões. Para o catolicismo, são geralmente heréticas e entre os protestantes são numerosas e com doutrinas muito variadas. Surgem na sequência das divergências no seio de uma comunidade já constituída mas que ocasionalmente regista divergências sobre certas questões. Quando isto acontece, na falta de consenso entre as alas, por exemplo em relação à doutrina estabelecida e a diferentes interpretações, surgem problemas imediatos de segmentos da igreja em regiões diferentes.

Nestas circunstâncias, regista-se a ruptura e nasce uma seita que aparece como um grupo de crentes mais pequeno e não tão hierarquizado, e surge como protesto contra a comunidade de origem. Sendo uma pequena organização formal, os seus líderes são quase sempre leigos ou pregadores, relativamente sem formação específica ou sólida, mas que declaram terem recebido um “chamamento” especial para divulgar o evangelho. O seu objectivo, inicialmente, é descobrir o caminho da verdade e segui-lo, e também afastar-se da sociedade que a rodeia, encerrando-se radicalmente na sua comunidade. Os seus membros vêem, subjectivamente, as igrejas estabelecidas como corruptas. Contudo, muitos destes grupos sociais são mais parecidos com as comunidades étnicas tradicionais.

Actualmente, as seitas são incontáveis e multiplicaram-se quase por toda a parte. Definem-se quer por uma base de cristianismo, quer por elementos de religiões e de culturas tradicionais. Em África, desenvolvem-se em algumas formas sincretistas do cristianismo e do animismo.

Angola está a viver esta experiência “amarga”. Ultimamente, este assunto tem merecido debates acalorados em todos os níveis. Por isso, é muito justo falar, hoje, da proliferação de seitas, que não podem ser confundidas com a expressão igreja. Esta realidade está na senda das novas comunidades ou grupos que vão desfilando em Angola, a partir da própria cidade capital, que se tornou num verdadeiro “carrefour” destes movimentos, por ser uma cidade onde se entrecruzam cidadãos de várias etnias, línguas e até nacionalidades. Trata-se de um despertar religioso registado sobretudo depois da independência e, noutra etapa, depois do fracasso dos Acordos de Bicesse, rubricados em 1991.

Os seus pontos principais são: a leitura e a vivência do cristianismo na base da experiência africana, a pastoral da saúde, baseada na procura da cura, a valorização da leitura da Bíblia e do papel dos leigos, a responsabilidade dos membros, a participação espontânea e carregada de emotividade no culto, a veneração dos antepassados, as cerimónias de bênçãos e de curas.

Nota curiosa é que em Angola este fenómeno enquadra-se no cristianismo, e a maioria dos angolanos identifica a religião com o cristianismo. Actualmente, a estatística e outros dados sociológicos e pastorais indicam que mais de mil milhões de indivíduos se reconhecem como cristãos. Mas existem entre as suas comunidades muitas divisões de ordem teológica, e não só, o que é grave.

Historicamente falando, é mais no Norte, região da etnia bakongo, onde, nos alvores do século XVIII, surgiu este fenómeno que deu largos passos. Neste sentido, sublinham-se mais alguns factores de maior relevo que estão na base da sua proliferação: económico, material e espiritual. Os interesses económicos são evidentes. Muitos dos líderes destes novos movimentos realçam este aspecto, fazendo com que as suas acções e comunidades passem a ser “meios de exploração” ou de “angariação de fundos”, ao mesmo tempo que esses “profetas” são vistos como apaziguadores do sofrimento de uma população que vive em situações de crise económica, social e psicológica. A experiência não desmente este dado.

No que toca à parte espiritual, pode-se dizer que surge em grande plano a “revelação dos feiticeiros”, especialmente crianças, uma preocupação que tem estado na ordem do dia. Pelo que em muitas novas comunidades, é a “prática da feitiçaria” que ocupa um lugar central, segundo a tradição africana, mas que hoje deve merecer outra consideração para evitar desgraças que abatem sobre muitos inocentes.

A crença em feitiçaria tem provocado muitos danos em vários sentidos. Semeia o pânico entre os seus membros. Para além do pânico, há outras consequências nefastas: exploração, mentira, falsas acusações, violência, vingança, morte, luto, divisão das famílias, crianças abandonadas, etc. Ora, tratando-se de uma prática condenável, a pastoral dos movimentos promotores desta prática deve ser posta em causa.
 
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