Chegou o Cacimbo dos trajes fechados
16-05-2010 | Fonte: Jornal de Angola
Se para os amantes de sol e praia não se afigura uma mudança pacífica, a chegada do Cacimbo é vista por muitos como motivo de satisfação e alívio. As altas temperaturas que, ao longo de nove meses, se fazem sentir em Angola são apontadas como a principal motivação para o grande regozijo da chegada do tempo frio. Nesta altura, é comum redobrar os cuidados com a saúde e os agasalhos são tidos como a melhor forma de nos protegermos das gripes e de outras maleitas próprias da época. Há quem também prefira o Cacimbo porque se pode andar de fato sem os constrangimentos das altas temperaturas.

A sabedoria popular, que diz que mais vale prevenir do que remediar, está a ser tida em conta com a chegada, ontem, do Cacimbo. Nos últimos dias, Luanda tem assistido a uma correria às lojas para compra de vestuário que melhor se adapte ao frio. Apesar da oferta reduzida, as opções de compra variam e, neste aspecto, o poder financeiro exerce grande influência na decisão final.

O Jornal de Angola fez uma ronda por Luanda. A loja Brazuca Moda Brasileira, no bairro São Paulo, está razoavelmente preparada para satisfazer as necessidades da época.

“Embora não falte vontade de satisfazer todas as solicitações, a nossa capacidade fica aquém das necessidades de todos os clientes que nos procuram”, reconheceu a empregada de balcão Isabel Jaime.

Há duas semanas que a loja dispõe de variada gama de roupas para criança, homem e mulher, propositadamente importadas para o Cacimbo. O entra e sai de clientes é uma constante, numa lista que integra maioritariamente mulheres. O motivo é compreensível. Em relação aos homens, estão em vantagem nas opções. Para elas, existe de tudo um pouco. Isabel Jaime disse que o estabelecimento tem casacos feitos com três espécies de tecidos, a preços entre 1.500 e 2.690 kwanzas.

Se na Brazuca a enchente é a imagem de marca, na Moda Tuga o ambiente pouco ou nada difere. A gerência não se pode queixar de falta de clientela e as empregadas não têm mãos a medir para atender as enchentes diárias, que deixam muito pouco tempo para descanso. O movimento diário assemelha-se ao da estação quente.

No interior da loja, os pulôveres, ao preço de 3.500 kwanzas, fazem a diferença. A cultura dos saldos em algumas peças de roupa nesta fase de transição de estações ainda é irrelevante em Angola, mas o estabelecimento tem em promoção calças ao preço de 750 kwanzas.

Para fugir aos preços altos, o mercado informal pode ser uma saída e Avelino Mufuta é um exemplo. Estudante e ainda dependente do dinheiro dos pais, critica os preços, que considera elevados, praticados em algumas lojas, que o obrigam a recorrer à roupa usada vendida no Roque Santeiro, o maior mercado informal de África.

“Dizem que escolher roupa de fardo é como jogar no totoloto e que se formos lá num dia de sorte podemos encontrar roupas de marca melhores do que nas shop fashions”, disse.

A mesma ideia é partilhada por Helena Adão, embora casada e responsável pela compra do vestuário de três filhos menores. Ao Jornal de Angola contou que depois de ter feito uma ronda, sem êxito, por vários estabelecimentos à procura de agasalhos para as crianças, acabou por resolver o problema nas bancadas do mercado dos Kwanzas, no bairro da Mabor.

Sugestão de moda

O Cacimbo está intrinsecamente ligado à maneira de vestir. A estilista Lizete Pote considera que a estação é, por norma, a mais adequada para o uso de “roupas de cores frias”.

“Como temos um frio alegre, este ano, a tendência de cores para homens vai para o azul, preto e castanho, que podem contrastar com camisas de outros tons, enquanto para senhoras há muita variedade”, disse.

As cores têm relação com o clima e o próprio corpo. Lizete Pote lembrou que o preto tem a particularidade de absorver muito calor e que no frio as vantagens são visíveis.

As cores, referiu, também têm muito a ver com o criador de moda, que dentro das inovações consegue despertar o interesse do público.

Ao contrário do que sucede nas províncias mais a sul, onde as temperaturas são mais baixas, afirmou, em Luanda, por ter um clima mais moderado, as pessoas podem continuar a vestir roupas de Verão.

Mas, realça, é indispensável vestir um agasalho por cima para evitar resfriados.

“O frio que faz em Luanda não é tão rigoroso que nos obrigue a vestir roupas de Inverno, mas é preciso algum cuidado para evitar as gripes”, alertou.

Lizete Pote referiu a pouca diferença nas temperaturas registadas nas duas estações de Angola como motivo para os comerciantes não alterarem significativamente a variedade de artigos. “Há pessoas que sentem mais frio do que outras, mas não devemos imitar tudo o que vimos noutros países, sob pena de cairmos no ridículo”, disse.

Mudança de atitude

Além de despertar a atenção pela maneira como as pessoas se vestem, a estação do Cacimbo tem também influência nas atitudes.

Filipe Lukeny, 28 anos, diz que nos últimos dias tem sentido dificuldade para se levantar cedo, quando no calor o faz facilmente antes das 5h00.

O jovem, que vive em Viana e trabalha no bairro Maculusso, conhece bem a importância de sair de casa cedo para fugir ao engarrafamento de trânsito. Afirmou, ao Jornal de Angola, que “a chegada do frio veio dificultar mais essa tarefa”.

“Dá a impressão que a madrugada encurtou, pois deito-me cedo, mas acordo com muito sono”, lamentou.

As manhãs estão mais frias e se não for tida alguma cautela podem provocar alguns problemas de saúde. Por isso, Paula Gomes afirmou que vai “redobrar os cuidados para melhor conviver com os riscos da mudança do clima”, pois, no início da semana, febres altas, voz afónica e irritabilidade na garganta deixaram-na acamada e sob medicação.

Doenças sazonais

À semelhança daquilo que acontece durante a estação quente, a chegada do Cacimbo facilita o surgimento de determinadas doenças, as mais comuns das quais são infecções respiratórias.

A médica Brígida Santos recordou que crianças e idosos fazem parte do grupo mais vulnerável a infecções respiratórias.

A esses dois grupos junta o das pessoas que sofrem de sinusite, asma e tuberculose.

Antes de atingir os sete meses, o sistema imunitário de uma criança não está suficientemente desenvolvido. A médica lembrou que a partilha de objectos entre crianças facilita a propagação de doenças. O aglomerado de pessoas nas instituições de ensino, a convivência em casas pouco arejadas ou com fumadores foram também referidos por Brígida Santos como factores que contribuem para infecções respiratórias.

“As infecções são virais e facilmente se propagam de uma pessoa para outra, através das gotículas de saliva expelidas durante a tosse, expiro ou fala”, advertiu.

Atitudes simples e fáceis de ter no quotidiano, frisou, podem prevenir desconfortos típicos da nova estação. Manter as roupas de cama limpas, especialmente os cobertores, retirar o pó da mobília, limpar o chão com pano húmido para evitar o levantamento de poeira são alguns dos conselhos da médica para evitar incómodos de doenças e melhor conviver com o frio e com os problemas respiratórios.

Brígida Santos aconselhou também que se aproveitem os dias de sol para arejar a casa e a não usar carpetes nos quartos de pessoas alérgicas.
 
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