FAA sem comandante para a Guiné Bissau
22-10-2010 | Fonte: Jornal O PAÍS
Continuam envoltos em mistério os nomes dos comandantes das Forças Armadas Angolanas (FAA) e da Polícia Nacional (PN) que vão chefiar o contingente que deve(ia) seguir este mês para a Guiné Bissau a fim de participar no processo de reforma das Forças Armadas, durante um ano, de conformidade com o protocolo assinado entre as chefias militares dos dois países em finais de Agosto passado.

“Até agora ainda não foram nomeados oficialmente os responsáveis das FAA e da Polícia Nacional que vão chefiar os militares que deviam já embarcar para a Guiné no cumprimento de mais uma missão militar.

Não se sabe o que se passa de concreto. Sei que antes do fim do mandato do Chefe do Estado-Maior cessante já tinham sido avançados alguns nomes, mas ainda nada transpirou”, disse fonte militar.

A aludida fonte explicou que “compete somente ao Comandante-emChefe das Forças Armadas Angolanas nomear estes comandantes, sob proposta do Chefe do Estado-Maior.

Creio que cedo ou tarde serão conhecidos publicamente, porque não há nenhum segredo nisto”, reforçou, tranquilizando que em função do compromisso assumido entre ambos os países será efectivada esta missão ainda ao longo deste ano, revelando que este mês já não será possível por questões de calendário.

A fonte avançou que a ida do contingente angolano a Bissau dependerá de uma aprovação da Assembleia Nacional (AN), evitando assim especulações s como as que ocorreram entre 1997 e 1998 quando militares angolanos foram enviados às Repúblicas Democrática do Congo (RDC) e do Congo Brazzaville, sem o prévio conhecimento deste órgão legislativo.

Primeiro passo

Numa primeira fase, segundo a nossa fonte, os referidos efectivos identificarão no terreno as prementes necessidades para a implementação do projecto de reforma, criando a Guarda Republicana, e em seguida as Forças Armadas que, actualmente, são constituídas maioritariamente por homens de idade avançada e que reclamam já passagem à reserva, alguns dos quais com mais de trinta anos de serviço.

Sem avançar números, baseandose em estatísticas fornecidas pelo Chefe de EstadoMaior das Forças Armadas (FA) da Guiné-bissau, tenente-general António Indjai, por altura da sua visita a Angola, cerca de 67 por cento dos militares são de “idade avançada” e recusam-se a passar à reforma sem quaisquer garantias de sobrevivência, atendendo à própria crise sócio-económica que a Guiné Bissau vive, originada por golpes cíclicos.

Adiantou que o processo em causa precisa de uma metamorfose urgente no seio das Forças Armadas, começando pela desmobilização dos “velhos”, passagem à disponibilidade e formação técnico-profissional e reinserção social dos que forem abrangidos neste processo, à semelhança do que ocorreu no nosso país depois do conflito armado que durou mais de trinta anos.

Admitiu que a maioria não pretende ir à reforma sem garantias de sobrevivência, embora o Executivo guineense tenha prometido assegurar uma pensão de reforma à dimensão de cada militar, pelo empenho e dedicação durante este tempo todo.

“O receio de alguns é de que se forem para casa não poderão suportar a crise sócio-económica que este país vive há já alguns anos. Todos querem continuar nas Forças Armadas, mas não pode ser”, declarou o nosso interlocutor. No conjunto de acções que se pretende implementar na Guiné - Bissau, a problemática infra-estrutural é uma das prioridades, sendo certo que os quartéis e academias não reúnem condições de acomodação de um exército como tal, aliado à degradação da maior parte das instalações do Exército, Armada (Marinha, entre nós) e Força Aérea, que reclamam já intervenções de vulto.

Prosseguindo, a fonte disse haver pessoal excedentário no exército guineense que deve ser diminuído e substituído por homens mais novos em obediência à lei do próprio país.

“Tem de haver reformas profundas neste processo, porque uma boa parte da população guineense é militar no activo e não é bom num país em que não há guerra ter um número elevado de militares no activo”, considerou o militar angolano que vimos citando.

Denominada de “Missão Técnico Militar e de Segurança”, a missão das FAA e da PN foi já antecedida pelo envio a Bissau do político e académico angolano Sebastião Isata, como representante da União Africana (UA), onde já trabalha há mais de um mês. Diplomata de carreira e antigo vice-ministro das Relações Exteriores, Isata, à data da sua nomeação, era professor universitário e comentador político da Televisão Pública de Angola (TPA) para questões internacionais.

Formação

No que se refere à formação policial, numa primeira fase será a de intervenção rápida para garantir a segurança das populações que embora exista este órgão, mas são os militares que actuam em vez dela, usurpando o papel desta. “ Temos informações que os militares fazem o papel da Polícia e chega-se ao ponto de haver rixas entre ambos, embora em menor escala, mas é uma situação recorrente”, fez saber a fonte, baseando-se em informações obtidas de um membro da delegação liderada por António Indjai na sua visita a Luanda.

O outro passo a seguir será o da constituição da polícia de Ordem Pública, no sentido de substituírem os militares para manter a ordem e a tranquilidade no seio da população que reclama excesso de zelo na actuação dos militares, sobretudo da guarda pretoriana. “Tem de se começar por aqui, caso contrário a instabilidade político-militar poderá prolongar ainda por muito tempo e é complicado num país tão pequeno como este”, assegurou a nossa fonte.

A formação estender-se-á também aos órgãos de defesa e segurança interna para garantir a segurança do Executivo e de outras instituições do país, para se evitarem episódios graves como as mortes do ex-presidente João Bernardo Vieira(Nino) e do Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, Tagmé Na Waye, em circunstâncias muito estranhas.

José Zamora Induta, da tribo dos balantas, é acusado de envolvimento nas mortes do antigo Presidente da República, do Chefe do EMG e do político e antigo ministro da Defesa, Hélder Proença. Era um oficial subalterno da Marinha e de repente ascendeu ao cargo de Chefe de Estado Maior General, ascensão essa que é interrogada pela sociedade guineense.

Informações postas a circular esta semana por jornais electrónicos davam conta de que Zamora Induta terá confessado às autoridades guineenses de ser o mentor das mortes de Nino Vieira e de Tagme Na Waye e de outras que se seguiram, sob ordens expressas do actual primeiroministro Carlos Gomes Júnior “Cadongo”.
 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação
Foto-Destaque
Foto-Destaque
Questionário