O ocaso dos brancos e mestiços
10-11-2004 | Fonte: Semanário Angolense (Severino Carlos)
A dimensão da «descoloração» do poder em Angola é, afinal de contas, um fenómeno muito mais abrangente do que à primeira vista se poderá pensar. Bem analisado, tudo ou quase tudo «enegreceu», e não somente o universo político em sentido estrito. O Governo e os principais partidos, as grandes empresas estatais, o sistema judicial, enfim, até o desporto, mesmo nas modalidades mais elitistas, estão menos «coloridos» ou, se quisermos, menos pardos.

Ao retomar e aprofundar essa matéria, o Semanário Angolense não o faz com o fito de encontrar explicações para o fenómeno, algo para o qual não tem a devida vocação. Trata-se de um exercício mais estatístico que outra coisa que julgamos poder proporcionar as ferramentas que auxiliem eventuais reflexões sobre onde estão os nossos desequilíbrios internos e o que é que se pode fazer para travar tais fenómenos.

Se nos deixarmos de falsos puritanismos, veremos, efectivamente, que nada de mais há nisso. De resto, é através de levantamentos similares que as grandes sociedades multirraciais costumam detectar os «buracos» existentes na sua manta social, procurando a partir daí a melhor terapia. Não é do vazio que os decisores políticos no Brasil entenderam, por exemplo, que era necessário instituir uma política de quotas de ingresso nas suas universidades, privilegiando os cidadãos de raça negra, uma prática já há muito mantida nos Estados Unidos da América.

Junto com tais medidas, estas nações multiculturais adoptaram igualmente outros mecanismos institucionais que visam travar desequilíbrios como a exclusão social que afecta em geral, as minorias, sejam elas raciais ou outras. Nesta senda, a busca do equilíbrio pode passar igualmente pela prescrição de medidas preferenciais em matéria de atribuição de emprego.

Quando, por exemplo, três candidatos (uma mulher, um negro e um homem caucasiano) a um determinado posto se encontrarem empatados depois dos psicotécnicos e entrevistas, a prioridade atenderá aquela ordem. Por conseguinte, os angolanos não devem ter medo de exercícios como estes, que podem fazer com que muitos dos nossos fantasmas sejam extirpados.

Olhando agora mais fixamente para o fenómeno da «descoloração» do poder em Angola, podemos dizer que a sua génese veio com a independência, em 1975. Trata-se de uma inflexão que, apesar do carácter dinâmico que têm geralmente os fenómenos sociais e políticos, poderia surpreender o próprio Agostinho Neto, o primeiro presidente do país, se ainda estivesse vivo. Pelo menos, não era bem essa a perspectiva que ele teria em vista quando começou a idealizar os fundamentos do novo Estado independente.

Com efeito, em matéria de equilíbrio étnico e racial, Neto teve uma filosofia diferente daquela que seria mais tarde prosseguida pelo seu sucessor, José Eduardo dos Santos. O fundador do Estado angolano emancipado representou a antítese do racismo, tendo dado disso abundantes demonstrações antes de morrer em Moscovo, no termo de um consulado de quatro anos.

A atitude de Neto encontrava explicação logo de início no seu núcleo familiar de base. Desposou uma portuguesa de raça branca (Maria Eugénia Neto) de quem teria, como é óbvio, três filhos mestiços: Mário Jorge, Leda e Irene. Esta miscigenação biológica – e também cultural – representaria para este apaixonado seguidor de Jean-Paul Sartre o ideal de país – multicultural, multirracial e multiétnico – que pretendia erigir não lhe tivesse a morte truncado o sonho.

Daí que Neto tenha promovido brancos e mestiços nas estruturas de direcção do Mpla e até do Governo (vide caixa). O primeiro elenco governamental, e outros que se seguiram durante o seu consulado, densamente povoados por brancos e mestiços, constituíram exemplos acabados do pensamento e ideal netistas.

Já José Eduardo dos Santos seguiu por um caminho diferente. Apesar do núcleo familiar resultante do seu primeiro casamento se ter assemelhado em muito ao do «amado mestre», Dos Santos fez exactamente o contrário. Com a sua primeira mulher (uma branca de nacionalidade russa) teve uma filha mestiça (Isabel), mas nem por isso ele sentiu-se incentivado a espalhar «a fórmula» pelos corredores do poder, promovendo mestiços e brancos como Agostinho Neto fazia.

Verdade se diga, porém, que esse corte epistemológico não foi abrupto. Depois de tomar posse, ele foi gerindo cautelosamente o fenómeno, introduzindo paulatinamente as alterações. Aliás, não faz muito tempo, em 1996/97 o Governo ainda mantinha uma significativa constelação de ministros brancos e mulatos. Seja como for, pode considerar-se que o ocaso dos mulatos teve início no congresso do Mpla realizado em 1985, em resultado da peça do quadro, episódio protagonizado por um núcleo de dirigentes mestiços e que foi entendido por José Eduardo dos Santos como uma tentativa de achincalhamento do poder presidencial.

Na purga, o Presidente angolano começou logo por cortar as asas a Lúcio Lara, o rosto mais emblemático da mestiçagem, afastando-o do Bureau Político do Comité Central do Mpla. Com essa investida, Dos Santos marcou um ponto decisivo, reforçou o seu poder e os mestiços e brancos que mais embaraços lhe provocaram no interior do aparelho partidário e governamental foram sendo inexoravelmente encostados às boxes.

Logo após, o fenómeno de «escurecimento» saltou para outros cenários importantes do país. Das Forças Armadas e Polícia às chamadas empresas estratégicas, restam hoje poucos brancos e mestiços ao leme para contar a história.

Contudo, seria um grosseiro erro de julgamento pensar que esse fenómeno tenha essencialmente resultado da liderança imprimida ao longo dos tempos pelo actual Presidente da República. Embora este tivesse com a atitude já referida favorecido o desfecho que se está hoje a assistir, uma verdadeira agudeza intelectual aconselha a que voltemos a nossa atenção também para o curso seguido pelo sistema de formação de quadros no país.

Pela sua influência, ditada fundamentalmente por um maior poderio financeiro, os grupos e classes sociais mestiços continuam a abocanhar a melhor fatia dos pacotes formativos do país, mas já estamos muito longe do tempo em que apenas os filhos destes tinham o privilégio de adquirir formação nas melhores universidades ocidentais, enquanto à «plebe» restavam os «ossos» das escolas dos países signatários do Pacto de Varsóvia.

Há hoje um número de quadros técnicos de raça negra que, crescentemente, vão estando em condições de assegurar o funcionamento das instituições do Estado, das grandes empresas e outras instâncias de crucial importância para a estabilidade e progresso do país. No fundo, este é o grande segredo que explica a inversão de marcha que temos estado a assistir.

De sorte, pois, que se pode afirmar que esse cenário menos poluído facilita um melhor relacionamento entre os distintos segmentos sociais do país. É, não tenhamos dúvidas, mais realista e proporciona as condições para atingirmos melhores índices em matéria de justiça social.

Não seria lisonjeiro nem digno que em Angola se continuasse a verificar episódios como os de um passado recente, quando esteve cá uma missão do Fundo Monetário Internacional para negociações com as autoridades financeiras do país, mas, postos à mesa das conversações, o público não sabia distinguir dentre os anfitriões e visitantes, tal a semelhança epidérmica.

Fazem de igual modo parte do anedotário nacional vários episódios protagonizados por selecções desportivas angolanas que, quando em digressão por um outro país africano, o público local tecia comentários jocosos sobre o facto dos atletas angolanos serem basicamente mestiços.

É certo que Angola, pelo andar da carruagem e produto de uma síntese cultural a que as sociedades estão sujeitas ao longo dos tempos, tenderá a ser o tal país «multi» em tudo: raças, culturas, credos religiosos, etc. Mas, por ora, não haja ilusões, ainda somos basicamente uma sociedade de traça bantu. E o termo aqui não teve nada de pejorativo...
 
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