Morar em condomínios de Luanda ainda está longe de ser um paraíso
18-08-2011 | Fonte: Jornal de Angola
Morar em condomínios é, em princípio, sinónimo de conforto, já que conferem dignidade humana para quem tenha decidido optar por viver nesses espaços habitacionais. Mas, em Luanda, os condomínios ainda estão longe de proporcionar uma convivência ordeira entre os moradores, muitos dos quais com hábitos sociais e educação muito diferentes, o que origina conflitos. A falta de respeito ao próximo e pelo espaço em que se vive estão na base do mau convívio. “Para que a convivência decorra de forma harmoniosa, os habitantes devem saber reconhecer os seus direitos e, sobretudo, as suas obrigações”, afirma a directora e coordenadora do Projecto Nova Vida, Eduarda Borja. Para ela, viver em condomínios é um estilo de vida novo no país e por isso os moradores têm ainda dificuldades de adaptação. Assim sendo, defende a criação de um plano de educação cívica dos moradores, de modo a facilitar a convivência entre todos.

“No Nova Vida há muitos apartamentos e vivendas que estão arrendadas de forma ilegal e muitos moradores, entre os quais arrendatários, não têm cultura de convivência e de respeito pelos princípios estabelecidos, o que acaba sempre por criar algumas dificuldades de convivência”, afirmou Eduarda Borja.

A criação de um programa de educação cívica para os moradores é defendida por Eduarda Borja para salvaguardar a convivência harmoniosa entre os moradores.

O Projecto Nova Vida, uma das novas centralidades de Luanda, começou a receber moradores em 2004, logo após a conclusão da primeira fase, em 2003.

Brigas por espaços para parqueamento

Pertencente ao consórcio imobiliário Imogestin Africon, o condomínio possui 118 edifícios, cada um dos quais com três andares, que comportam 14 apartamentos, e quase mil vivendas divididas em tipologias T3 e T4. A coordenadora Eduarda Borja reconheceu que os moradores não têm a cultura de consultar o regulamento do condomínio. “Mesmo aqueles que lêem não cumprem com rigor as regras estabelecidas”, afirmou, acrescentando que, quando há diversidade cultural, existe sempre dificuldades de entendimento.

A falta de parque de estacionamento no condomínio é dos problemas que mais tem originado briga entre os moradores do bairro Nova Vida, que se debate ainda com défice de zonas verdes e áreas de lazer.

Isilda de Jesus António, estudante de 18 anos, vive ali há seis anos e contou à nossa reportagem que a sua família tem duas viaturas e já tiveram problemas com a vizinhança por causa da falta de espaço para estacionar.

“Um dos vizinhos do prédio fechou a saída, impedindo que o carro do meu pai saísse, situação que originou discussão. Por termos dois carros, estacionámos um dos automóveis distante do prédio e acaba sempre por ser assaltado”, disse a jovem Isilda António.

Eduarda Borja salientou que cada morador que vive no prédio tem direito a um lugar para estacionar. “Com certeza que a falta de lugar para estacionar tem sido um grande problema entre os moradores, por isso estamos a medir esforços para construir parques”.

A coordenadora reconheceu que o Nova Vida precisa de um espaço público de lazer, porque as actividades nos jardins danificam as zonas verdes do condomínio, que tem carência de espaços para a prática desportiva. A segurança do Nova Vida é uma questão que a coordenadora considera controlada. “Temos uma esquadra da Polícia, o que não acontece noutros condomínios”, acentuou Eduarda Borja, reconhecendo que a urbanização, por ser aberta, faz com que a segurança não seja feita com maior rigor.

Anarquia dos moradores

Dos condomínios construídos na província de Luanda e percorridos pela equipa de reportagem do Jornal de Angola, o que apresentou mais problemas foi o Nova Vida.

Adilson da Silva, de 29 anos e a morar ali há cinco anos, afirmou que a convivência entre os moradores é cada vez pior por causa do crescimento populacional que o condomínio sofreu nos últimos anos. “Antes, vivia-se com mais tranquilidade do que hoje. A falta de muitos serviços no condomínio faz-me pensar que o Nova Vida não é uma urbanização moderna.

É preciso que a fiscalização termine com as anarquias”, principalmente nas vivendas T4, onde são feitas construções de anexos e muros sem licença nem respeito pelas normas estabelecidas.

Eduarda Borja salientou que a coordenação do condomínio tem procurado trabalhar com o governo da província de Luanda para fiscalizar as obras, mas infelizmente a eficácia não é a desejada.

“O Projecto Nova Vida cresceu muito nos últimos anos. Quando começou a ser habitado tínhamos um fornecimento de água durante 24 horas por dia. Mas o aumento do número de moradores provoca transtornos ao abastecimento”.

Exemplo de sucesso

O condomínio do projecto urbanístico Cajueiro, em Luanda, é considerado pelos moradores como uma das áreas sociais mais sossegadas da cidade.

Mauro Peso, de 25 anos de idade e residente no Cajueiro há três anos, revelou que desconhece, em Luanda, a existência de um bairro tão calmo e organizado como o Cajueiro. “Estive muito tempo fora do país e posso afirmar que o condomínio tem as mesmas condições daqueles que conheço no exterior do país”, afirmou Mauro Peso, para quem as habitações têm disponíveis todos os serviços.

No condomínio do Cajueiro estão instaladas escolas secundárias e primárias, campos de futebol, ténis, basquetebol e voleibol, além de um centro médico, lojas de conveniência, creche, centro recreativo, administração, salão para eventos, ginásio, piscina infantil e para adultos, bar e parque infantil.

A urbanização foi construída recentemente e tem uma arquitectura moderna. As casas são em formato de vivendas do tipo T3 e T4. No condomínio do Jardim do Éden há falta de vários serviços comunitários. A Vila do Gamek, edificada há mais de 15 anos, é uma urbanização devidamente organizada. Dispõe de serviços básicos e os moradores falam da inexistência de problemas entre os vizinhos.
 
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