Nzita Tiago acusa intelectuais em Cabinda de divisionismo e defende reunião alargada
12-06-2012 | Fonte: Jornal de Angola
Nzita Tiago, presidente da FLEC, nomeou Khendhrah Silverbridge sua “embaixadora de boa vontade” para negociar com o Executivo. Em declarações à revista “Jeune Afrique”, a diplomata revela o objectivo da sua missão: “somos realistas, já não pedimos a independência, nem mesmo a autonomia. O que queremos é paz para os cabindenses. Queremos que eles voltem para as suas terras. Nós não reivindicamos o dinheiro do petróleo, apenas as infra-estruturas.”

João Baptista Júnior “Vinagre”, o homem de confiança de Nzita Tiago que deu uma entrevista em exclusivo ao Jornal de Angola, ontem publicada, falou desta nomeação em termos críticos dizendo que “é uma vergonha pôr uma pessoa estrangeira a negociar em nome da FLEC com o Executivo”. Mas já antes o padre Raul Tati, num frente a frente com Nzita Tiago, na Voz da América, programa “Fala Só Angola”, tinha manifestado a sua inquietação: “a questão que talvez inquieta, não só a mim mas também a algumas pessoas dentro do território de Cabinda, tem a ver com esta embaixadora de bons ofícios para a FLEC”.

O padre Raul Tati disse mesmo que “esta nomeação levantou algumas interrogações, algumas dúvidas no enclave”. E quis saber de Nzita Tiago que motivações o levaram “a escolher esta senhora que nós não conhecemos”.

A figura de proa dos “activistas” que vivem na cidade de Cabinda foi demolidora ao revelar aos microfones da Voz da América que a embaixadora Khendhrah Silverbridge disse à “Jeune Afrique” que o presidente Nzita Tiago da FLEC “ já não quer nem independência, nem autonomia, nem petróleo e que estes termos estavam riscados do seu dicionário”. Nzita Tiago puxou dos galões de fundador da FLEC e atacou o padre Raul Tati. Explicou que a nomeação de Khendhrah Silverbridge se justifica porque até então, a sua correspondência para o Presidente José Eduardo dos Santos “nunca chegava ao destino” o que não acontece agora: “ela está em contacto directo com as pessoas mais próximas do Presidente José Eduardo dos Santos”.

Reunião em Washington

O padre Raul Tati foi a Washington participar numa reunião de accionistas da Chevron. Segundo Nzita Tiago, Tati, Belchior e Chicaia estão acompanhados de um “pastor angolano” que decidiu financiar uma reunião “inter-cabindesa” na capital dos EUA. O líder da FLEC diz que está pronto a discutir: “dizem que estou a nomear pessoas que não conhecem e a tomar posições que desconhecem, então vamos nesta reunião inter-cabindesa esclarecer tudo”.

O padre Raul Tati reconheceu a legitimidade de Nzita Tiago como presidente da FLEC e disse que a organização “tem a liberdade e a soberania de tomar as iniciativas que quiser”. Mas declarou claramente que “a sociedade civil em Cabinda também tem o seu caminho a trilhar e, neste caso, nós também temos as nossas iniciativas e um plano de paz para Cabinda”.

A independência de Tati

Nzita Tiago aposta tudo na reunião inter-cabindesa em Washington e explica porquê: “vejo os cabindenses que andam por aí a aproveitar o suor dos outros, razão pela qual eu digo ao senhor padre Raul Tati que se todos os intelectuais se juntarem a nós, temos uma só linha de conduta para a política de Cabinda”. O líder da FLEC encostou o padre Raul Tati à parede, dizendo que é fundador da organização e sempre lutou pela independência de Cabinda: “mas gostava de saber qual é o programa do padre Tati”. E desafiou-o a revelar a sua posição, aos microfones da Voz da América.

O padre Raul Tati não gostou do desafio e insistiu: “a FLEC é presidida por si, isto é uma coisa. Outra coisa é a sociedade civil que tem também a sua estratégia”. Agastado com a falta de uma resposta directa, Nzita Tiago exigiu do padre uma declaração sobre esta questão: “o padre Tati é a favor da independência, da autonomia ou de quê? O padre Raul Tati ensaiou mais evasivas e Luís Costa Ribas repôs a pergunta. Nesse momento ele respondeu: “eu sempre defendi a independência de Cabinda”.

Nzita Tiago reagiu como um lutador que venceu o combate: “o senhor é pela independência de Cabinda, o povo é pela independência de Cabinda e o Nzita Henriques Tiago também. Então vamos pôr fora os outros que não querem a independência”.

O ataque final

O debate entre Nzita Tiago e a figura mais mediática dos intelectuais que vivem na cidade de Cabinda mostrou que não há possibilidade de um acordo entre as várias facções da FLEC. O engenheiro Sebastião Yongo tem razão, quando diz que “qualquer dia, cada homem é uma ala da FLEC”.

O debate também revelou a falta de um programa político coerente. E revelou sobretudo que Vinagre, o lugar-tenente de Nzita Tiago, tem razão quando afirma que “temos de assumir os nossos erros e a nossa incapacidade. A solução hoje é negociar com o Executivo, o regresso a Cabinda de todos os combatentes e seus familiares, que estão nas bases e nos centros de refugiados.

Quem cometeu crimes pede perdão e é perdoado”. Neste aspecto, ele tem a mesma posição da “embaixadora de boa vontade” de Nzita Tiago, que, em directo, deu o dito por não dito e desautorizou Khendhrah Silverbridge.

Nzita Tiago, no final do debate, mostrou que há entre ele e os intelectuais um conflito insanável. Fez uma declaração que revela isso mesmo: “é triste, senhor padre Raul Tati que eu tenha de dizer aos intelectuais cabindenses para assumirem as suas responsabilidades. Nzita hoje tem 84 anos e está a lutar. Vocês, seminaristas, padres, universitários, sabem o que quer dizer soberania de um povo, de uma nação. Então porque não têm qualquer posição sobre isto? O vosso povo é que está a sofrer”.

O debate no programa “Fala Só Angola” da Voz da América revelou um padre Raul Tati encurralado e sem respostas. Nzita Tiago esmagou o adversário em toda a linha. Ali o intelectual, o político, o comandante, foi ele. Mas o padre Raul Tati deixou claro que os intelectuais têm o seu próprio programa e não vão abdicar dele. Mais uma vez os “activistas” de Cabinda, que actuam sob a capa de defensores dos diretos humanos, põem em causa a direcção.



 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação
Foto-Destaque
Foto-Destaque
Questionário
A CASA de Abel Chivukuvuku:
  • Vai reforçar a prática da democracia
  • Não vai trazer nada de novo
  • Vai retirar eleitorado ao MPLA
  • Vai retirar eleitorado a UNITA
  • Vai retirar eleitorado ao MPLA e a UNITA