Consultas e remédios sem pagar
25-06-2012 | Fonte: Jornal de Angola
Zinha Alberto, 22 anos, leva a filha ao colo. Anda às pressas em direcção ao campo onde está localizada a clínica móvel do “Projecto Saúde Chegou”, no Bair­ro Dangereux, Distrito do Kilamba Kiaxi. A bebé, Vitória Paulino, dois anos, está com febre e tosse há vários dias.

Depois da triagem, a criança é consultada por um pediatra. Feita as análises, os médicos concluem que a pequena Vitória padece de paludismo. À doente é recomendada a medicação adequada à enfermidade. Zinha, a mãe, levanta os medicamentos, gratuitamente, na farmácia da clínica móvel. “Estou feliz pelo atendimento e vou cumprir a medicação e as orientações do médico”, diz Zinha Alberto.

Sandra Carlos, 19, traz a sobrinha Olívia Malheiro, de três anos, à consulta por estar com febre há quatro dias. Alertada pela cunhada sobre a presença do “Projecto Saúde Chegou” na comunidade, dirige-se ao bairro Dangereux. Enquanto aguarda pela chamada, brinca com a sobrinha, como que a “matar” o tempo até ser atendida.
Ao lado de Sandra, estão outras senhoras com bebés ao colo. Mulheres grávidas aguardam, pacientemente, pela vez de serem atendidas. Maria Imaculada, 26 anos, fica satisfeita quando o médico a chama, para ser atendida. Depois de assistida, levanta os medicamentos na farmácia e mostra satisfação com a iniciativa do Executivo de levar o projecto à comunidade.

Esta ideia é partilhada por João Baptista Alberto e Joaquim Calei. Ambos aguardavam a vez de serem atendidos na consulta de clínica geral, por sentirem fortes de dores de cabeça. Sentados num banco ao lado, conversam, amigavelmen­te, sobre as eleições e o partido em que vão votar, enquanto aguardam pela chamada.

Movimentação

Muitos cidadãos vão, diariamente, à clínica móvel do “Projecto Saúde Chegou” no bairro Dangereux, onde cada paciente tem a sua história clínica, desde as dores de cabeça, febres, doenças diarreicas e respiratórias ou outras patologias. Nesta fase em que o Hospital Materno-Infantil do Golfe está em obras e em período de apetrechamento e em que o Hospital Geral de Luanda está em reconstrução, os serviços de saúde móveis são uma boa alternativa – e iniciativa.

A clínica móvel é composta por seis contentores montados numa área espaçosa, onde estão disponíveis serviços de pediatria, clínica geral, ginecologia, laboratório de análises clínicas e farmácia. O administrador do projecto, Barnabé Luís Baptista, explica à reportagem do Jornal de Angola como se processam as coisas: o laboratório faz exames de gota espessa, Widal, urina, tuberculose, gravidez, hepatite B e C, falsiformação e hemoglobina. Os resultados dos exames – diz – ficam prontos em uma hora. O exame de falsiformação leva mais tempo, precisa de 24 horas.

A clínica móvel do “Saúde Chegou” tem também serviços de ginecologia, obstetrícia, medicina, consultas pré-natal para mulheres grávidas, consultas de saúde boca oral, testagem de sida, despiste do cancro da mama e do útero, vacinação e distribuição de hipoclorito e mosquiteiros, pequena cirurgia, preservativos e palestras para educação de estilos de vida saudável.

Melhor não é possível. Conceição André, que acaba de receber o resultado dos exames pedidos pelo médico, aconselha as autoridades governamentais a estenderem o “Saúde Chegou” aos outros municípios. Isso é bom para que os cidadãos tenham acesso à assistência médica sem enfrentar as enchentes dos grandes hospitais.

A clínica móvel beneficia de medicamentos fornecidos pela Direcção Provincial de Saúde Pública e pelas Repartições Municipais de Saúde. A solicitação de medicamentos é feita consoante as necessidades.

Milhares de pessoas atendidas

O coordenador do “Projecto Saúde Chegou” é Domingos Cristóvão. Orgulhoso, afirma que o projecto prevê atender mais de 15 mil pacientes. Chefe da Repartição Municipal de Saúde do Município de Belas, Domingos refere que o “Projecto” já atende, diariamente, mais de 1.200 doentes com diversas patologias.

Em três dias no bairro Dangereux, o “Projecto Saúde Chegou” atendeu 3.413 doentes, aplicou 1.418 vacinas e realizou 16 palestras para três mil pessoas. Foram distribuídos 150 mosquiteiros, mais de dois mil hipocloritos para tratamento de água e foi feita a fumegação em quatro hectares de terra para matar os mosquitos. O atendimento começa às oito horas da manhã e encerra depois de ser feito o último atendimento. A ideia, segundo Domingos Cristóvão, é atender o maior número de pessoas. As condições logísticas foram criadas para que nada falte ao pessoal médico, enfermeiros e auxiliares.

A campanha conta com duas ambulâncias para o transporte de doentes em estado grave ou que procurem especialidades que a clínica não oferece, para outros hospitais que têm acordo de parceria com o “Saúde Chegou”.

Caminhos a percorrer

O “Saúde Chegou” foi concebido para 15 dias. Depois é transferido para outro município e atende outros cidadãos. O objectivo, segundo Domingos Cristóvão, é ajudar a reduzir a mortalidade materno-infantil – um dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, que consiste em levar às comunidades mais vulneráveis serviços integrados de saúde.

A campanha tem três eixos: primeiro, a promoção da saúde, onde se incluem as palestras que abordam o estilo de vida; segundo, a prevenção, onde se fala da vacinação, se faz a distribuição de mosquiteiros e do hipoclorito, desinfestam-se os charcos e pântanos; terceiro, a assistência em consultas de especialidades, pediatria, clínica geral, ginecologia, atendimento à mulher grávida, laboratório e farmácia.

Os custos são assumidos pela Administração Municipal de Belas, no quadro da municipalização dos serviços de saúde. “O serviço de municipalização engloba uma componente que é a criação de equipas avançadas e móveis onde se enquadra o Saúde Chegou”, aproveita para sublinhar Domingos Cristóvão.

Estão envolvidos nesta acção 50 pessoas. Entre elas estão oito médicos de especialidade, dois técnicos superiores de farmácia e laboratório, dois licenciados em enfermagem 20 enfermeiros, 16 agentes comunitários de saúde. Estão ainda 10 mobilizadores sociais, essencialmente membros das comissões de moradores, protecção física e Polícia Nacional.

 
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