"Existe vontade política em Angola para realizar o censo da população"
01-08-2012 | Fonte: Jornal de Angola
Angola vai gastar 100 milhões de dólares no Recenseamento Geral da População e Habitação agendado para Julho do próximo ano. A revelação foi feita pelo director do Instituto Nacional de Estatística (INE), numa entrevista exclusiva ao Jornal de Angola. Camilo Ceita sublinhou que o censo permite ao Executivo planificar melhor as suas acções. Vão estar envolvidos no censo 50.000 agentes recenseadores. “O INE em 2013 vai ser a maior empresa do país”, afirmou Camilo Ceita.P-Que importância atribui à realização do primeiro censo populacional na Angola independente?
Tem uma importância muito significativa. O último censo foi realizado em 1970, ainda no período colonial. O censo dá informação que nos vai servir para que todos os planos e programas políticos possam ser executados de forma sustentável. Vamos sair das estimativas ou projecções para um estado de informação concreta. E sabemos que a informação real é necessária para o desenvolvimento sustentável, porque as prioridades vão ser melhor dirigidas e os projectos e programas vão ser melhor avaliados e executados. O censo vai mexer com a sociedade e o país.
P - Como foi organizado o trabalho?
O censo tem várias etapas, uma das quais é a actualização cartográfica. Temos que traçar os limites dos conglomerados, bairros, aldeias e sobados, para definir o número de pessoas que vai trabalhar no recenseamento, sobretudo recenseadores, e fazer também o mapa das secções.
P-O INE está preparado para a operação?
Esta é uma tarefa gigantesca, porque os últimos mapas de Angola foram feitos entre os anos 80 e 85. Sabemos que o país sofreu várias transformações. Por exemplo, aldeias que existiam numa determinada comuna deixaram de existir ou que tinham um determinado tamanho, deixaram de o ter. É necessário aferir essa realidade. Daí que precisamos de recursos humanos qualificados.
P - Os métodos utilizados obedecem aos padrões internacionalmente aceites?
Esta é uma actividade financeiramente dispendiosa, daí que tudo tem de ser feito dentro dos padrões internacionais, porque são esses padrões que garantem a fiabilidade do resultado. Tem de haver uma legislação própria que, felizmente, já existe. Temos um Gabinete Central do Censo, formado por comissões de logística, formação, publicidade, marketing e administrativa. É essa estrutura que, a nível central, esta a levar a bom porto as actividades de preparação do recenseamento.
P - Quanto vai custar o censo aos cofres do Estado?
O recenseamento já tem um fundo aprovado pelo Conselho de Ministros, no ano passado. Temos uma previsão de custo na ordem dos 100 milhões de dólares. A dinâmica do trabalho faz com que não seja possível ainda definir o orçamento.
P – O que condiciona a definição do orçamento?
Vai depender do número de pessoas a contratar numa determinada área. As condições climatéricas podem vir a atrapalhar algum trabalho. Podemos ser forçados a aumentar as equipas e automaticamente aquilo que está previsto já é alterado. Esta é uma actividade muito dispendiosa em qualquer parte do mundo. É de louvar a disponibilidade do Executivo, porque, em África e na América Latina, são raros os governos que assumem a cem por cento as despesas com o censo. O Executivo está a assumir, até agora, todas as despesas do recenseamento da população.
P-O censo vai permitir a elaboração de programas e projectos exequíveis?
Vai permitir uma maior planificação e programação a todos os níveis, por isso é que há vontade política para fazer o censo. Não é possível gerir sem medir. O país tem executado alguns projectos com dados do INE que melhoram a qualidade de vida dos angolanos e o recenseamento vem afinar aquilo que já tem sido feito.
P- Como decorreu o processo de selecção dos candidatos?
A primeira etapa foi para os agentes cartográficos. Fizemos um concurso público e seleccionamos os melhores, que foram formados e já estão a trabalhar. Estamos em vésperas de realizar o censo piloto, a¬gendado para Outubro, para testarmos e corrigirmos toda a máquina do censo, desde a logística à formação dos agentes. A dois meses e meio da realização do censo piloto, já lançámos o concurso para o recrutamento de recenseadores que vão trabalhar nas províncias onde vai decorrer o censo piloto: do Uíge, Luanda, Kwanza-Norte, Huambo, Namibe, Kwando-Kubango e Cunene.
P-Já está definido o universo de agentes envolvidos?
Estamos com uma perspectiva de recrutar 50 mil pessoas, número que pode ser acrescentado, se houver necessidade, depois da actualização cartográfica. Entre os meses de Maio e Agosto do próximo ano, o Instituto Nacional de Estatística pode vir a ser a maior empresa de Angola, com mais de 50 mil trabalhadores.
P-As informações prestadas pelos cidadãos durante o censo têm carácter confidencial?
As informações prestadas pelos cidadãos vão ter carácter confidencial, de acordo com a Lei do Sistema Estatístico Nacional. Os profissionais envolvidos na execução do censo estão obrigados, por lei, ao sigilo. Em caso de infracção podem ser responsabilizados civil e criminalmente. Acreditamos também não há interesse do cidadão prestar informações falsas aos agentes recenseadores. Quanto mais informações certas, mais o país sai a ganhar.
P-De que tipo de informação falsa está a falar?
O valor do ordenado do chefe de família, por exemplo. Se a esposa se apercebe de que ele, mensalmente, tem um salário que não corresponde ao que tem dito à mulher, pode gerar um conflito familiar.Daí que temos estratégias para fazer certas perguntas. Em vez de perguntarmos quanto ganha o chefe de família, perguntamos quanto gasta mensalmente. Assim já evitamos problemas no lar.
P-Quando vão ser conhecidos os resultados do censo?
Os resultados do censo vão ser conhecidos 18 meses depois. Após a recolha das informações, resultantes de milhares de questionários em todas as províncias, elas são centralizadas em Luanda, onde são tiradas do papel para serem transformadas em informações electrónicas e só depois é que vão merecer o devido tratamento estatístico.
P-Um homem que tem várias famílias atrapalha o censo?
O cidadão vai ser contabilizado em função dos vários agregados familiares. Mas vai ter que indicar a sua residência oficial, onde fica mais tempo. Pensamos que não vai haver muita gente nessas condições. Mas pode ser um indicador para que, depois, as autoridades possam ver se é um problema que tem influência na sociedade. O nosso trabalho é tirar a fotografia e entregar os resultados às autoridades competentes.
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