O interior da UNITA mexe mais que o que parece
14-09-2012 | Fonte: OPAÍS
Samakuva pode continuar na liderança da UNITA, o que não evitaria que surgissem pretendentes ao lugar a acusá-lo de não ter ganho as eleições e de não ter recuperado o score de 1992. Mas desafiantes ou não, algumas personalidades da UNITA vão já sendo apontadas como possíveis candidatos ao lugar. São nomes de prestígio e a ter em conta no xadrez político nacional.

O que tem de bom e interessante a política é, quando em democracia e sem a querer ferir, o esforço que os políticos fazem para parecerem as pessoas mais importantes do mundo e que os seus assuntos são absolutamente vitais para a Humanidade. Como algumas vezes a História registou que estas cogitações levam à desgraça de povos, o melhor é prestar-lhes alguma atenção. Mas esta atenção deve ser suficientemente astuta para perceber-lhes todas as variantes. Daí que se diga que em política nem tudo o que parece é.

Veja-se o caso da UNITA, em que apesar da frente de batalha aberta contra a CNE nas suas alegadas irregularidades, as movimentações internas não pararam. Sinal de vitalidade, de choque de interesses, de busca da afirmação do partido.

Sinais aparentemente contraditórios mas que fazem parte do universo político. Depois da saída de Chivukuvuku e dos que assumiram integrar o Grupo de Reflexão que desafiou o líder antes da realização do último congresso do partido, tendo “provocado” a quase afastada recandidatura de Isaías Samakuva, como o próprio admitiu, numa espécie de movimento para não deixar que o partido fosse cair em más mãos, o caminho ficou mais aberto para outros interessados no lugar de líder. Ou porque esperariam que Samakuva não se fosse apresentar a um quarto mandato, ou porque esperassem resultados eleitorais piores que não deixassem ao actual presidente outra saída que não a resignação.

Um silêncio para reflectir

Mas o último discurso de Samakuva, na reunião do Comité Permanente da UNITA, ainda esta semana, pode deixar espaço para pensar que está de pedra e cal no lugar. A combatividade do discurso mostrou um homem disposto a lutar pela sua verdade eleitoral até às últimas consequências. E esse combate, depreende-se, será feito na liderança do partido. Ele, o lesado. Ou se trataria, antes, de um discurso combativo de um líder que quer sair em grande? Depois de ter duplicado o número de deputados em relação à legislatura anterior, Samakuva terá saído da posição de culpado pelo descalabro de 2008, e “não fossem as fraudes, a UNITA estaria agora a formar governo”. Melhor que isso haverá pouco.

E se a combatividade evidenciada no discurso foi para preparar a sua saída, então veio bem a calhar, se o propósito é deixar as bases unidas e preservar a capacidade de influenciar na escolha do líder que virá a seguir.

Com efeito, o silêncio que antecedeu tal discurso pode bem ter servido para uma reflexão profunda sobre o futuro, do partido e pessoal. E não seria de espantar, como se pode ler em alguns sinais, que a UNITA viesse a convocar para breve um congresso extraordinário.

Samakuva, pode-se especular pelos últimos sinais e ligando-os ao facto de se ter candidatado ao mandato que ocupa para “castigar” a ousadia do Grupo de Reflexão, poderá deixar proximamente a liderança da UNITA.

Para sair em grande: a recuperar o prestígio e os lugares parlamentares e injustiçado nas eleições, o que internamente se pode traduzir numa espécie de vitória moral que leva os militantes a cerrar fileiras.

Efeito Chivuku

Mas haveria outra razão para Samakuva pensar em afastar-se agora.
De fora, não teria de conviver com a concorrência de Abel Chivukuvuku que poderá passar a mensagem de não ter ido mais longe nas eleições por não ter disposto de uma máquina partidária com a grandeza da UNITA.

Com efeito, para Samakuva seria demasiado penoso assistir ao crescimento da CASA-CE nos próximos tempos, tal como, é fácil adivinhar, não terá ainda perdoado a saída de Abel no modo desafiador como o fez. Nunca se saberá que ganhos eleitorais teria uma UNITA com Isaías e Abel. O que se sabe é que a CASA-CE ficou em terceiro lugar nas eleições gerais, com oito deputados em apenas quatro meses de existência, o que pode representar um forte potencial de crescimento. Abel Chivukuvuku e a sua CASA-CE podem ser guerras a evitar. Aliás, para homens que se bateram no interior da UNITA, não deixou de ser assinalável que correndo para os mesmo lugares parlamentares tenham optado, em campanha eleitoral, pela ignorância mútua. UNITA e CASA-CE fizeram campanhas como se o outro não existisse.

Desgaste psicológico

Se ficar, Isaías Samakuva estará a fazer um percurso como o de Lula da Silva, que teve várias tentativas antes de se fazer eleger Presidente. Mas aqui há outros factores a ter em conta: Ninguém garante que venha a ter a mesma “sorte” que o ex-presidente brasileiro, nem que a militância da UNITA tenha o mesmo estômago para esperar. E numa terceira derrota eleitoral a fraude voltaria a ser apresentada como razão? Para ficar, e em caso de nova derrota, ainda que tivessem o seu quê de verdade, Samakuva sabe que a justificação da fraude não colheria. Além disso há o aspecto do cansaço psicológico: as batalhas dentro do partido, como a que levou à saída de Abel Chivukuvuku e de outros quadros, e as batalhas contra o adversário MPLA, fundamentalmente no plano legal, como a UNITA se tem posicionado, levam a um desgaste psicológico que pode aconselhar a um descanso e mais cuidados com a própria saúde e família.
 
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