A intervenção dos Políticos no Desporto
09-02-2005 | Fonte:
Meus caros,
Realmente o nosso país tem sempre das suas e cada vez mais não entendo determinados fenómenos. Mas se tiver errado também me podem corrigir ou esclarecer determinadas visões erradas que possa ter.

Está a ser moda termos individualidades que já ocupam certos cargos de relevo no governo Central e ainda assim tornarem-se presidentes de Federações Desportivas.

1-Aguinaldo Jaime é o presidente da Federação angolana de Xadrez e é o Ministro Adjunto do Premier.

2-Archer Mangueira, é Assessor do PR para os assuntos Económicos e também presidente da Federação angolana de Andebol.

3-Gomes Maiato, é Governador da província da Lunda Norte e ainda por cima presidente (ou candidato a) da Federação de Tenis.

4-Justino Fernandes, é ou era Assessor do PR e é também presidente da Federação Angolana de Futebol.

5-Higino Carneiro, general do exército, Ministro das Obras Públicas e presidente (ou candidato a) da Federação de Angola de tiro.

6-Gonçalves Muandumba, é o actual Vice Ministro dos Desportos e também integrante da Lista que venceu as eleições na Federação de Basquetebol.

7-Carlos Teixeira, como (ou candidato a) presidente da Federação de Atletismo, o mesmo que é Assessor Jurídico do PR, e sabe-se que em Angola os assessores do PR, têm a mesma equivalência (em termos de hierarquia) de um Ministro.

Agora, como é que essas individualidades todas vêem o Marcos Barrica (Ministro da Juventude e Desportos) quando muitos deles são ao mesmo tempo chefes, ou têm o mesmo grau hierárquico (colegas no governo) e ao mesmo tempo subalternos?

Será que se utilizou ou se está a tentar utilizar o poder de influência destas individualidades junto do poder para que haja mais verbas (do O.G.E.) nas Federações ora mencionadas e com isso mais resultados desportivos? Bem haja!!!

Será que se houver discrepâncias na forma de gerir os fundos provenientes de todos nós (O.G.E.) e que são direccionados para as Federações, o Ministro terá poderes (até tem) ou capacidade para instaurar inquéritos e tentar apurar a verdade e assim castigar os malfeitores? Os jogos de influência não serão mais fortes? Terá ele capacidade para apresentar queixa a um seu superior hierárquico no governo ou chamar a atenção relativamente a algo que não esteja a correr bem na Federação que este esteja a dirigir?

Não é de modo algum ético que alguém que é Ministro ou ocupe um lugar de destaque no aparelho governamental, seja presidente de uma federação com os laços e interesses que se estabelecem, as cumplicidades que se tem. Penso que para que tenhamos bons resultados desportivos é necessário que o Ministério exerça bem a sua função de fiscalizador ou gestor das Federações, sem interesses políticos, sem cores partidárias, sem amizades, nem jogos de influência, e com independência.

Do ponto de vista do Direito Constitucional (não sou jurista) não estaremos nós a incorrer numa ilegalidade? Sabendo nós que em quase todos os países os Ministros abandonam determinados cargos que ocupam antes de tomarem partes em governos.

Com tantos problemas que eles têm a nível governamental (não nos podemos esquecer que vivemos num país com muitos problemas sociais e que precisam de solução o mais rápido possível) e muitos ainda sem solução, como uma politica séria para a juventude (inexistência de locais de recreio para os jovens, inexistência de locais para a prática de desporto, bibliotecas), uma politica séria para estancar o desemprego, a educação, a saúde, a problemática da fome, a desminagem, as eleições para o próximo ano, uma politica de habitação, uma politica para segurança social, a definição de um salário mínimo condigno, uma politica de combate ao HIV/SIDA e outros mais que afligem o quotidiano dos "muangolés".

Eles terão disponibilidade suficiente para resolver também os problemas que afligem as federações e o desporto angolano no geral e que não são poucos? Porque tanta acumulação de poder quando muitas dessas individualidades não têm tempo para conceder audiências aos cidadãos para quem eles trabalham (são nossos empregados e são pagos por nós) por terem agendas preenchidas e muitas das vezes preenchidas com questões distantes dos fóruns para os quais foram nomeados, como uma federação de uma modalidade desportiva?

Penso que nestes casos devia dar-se alguma primazia a aqueles que pelo seu saber, pela sua capacidade de trabalho, e por outros "mais" que tenham, e que já demonstraram noutros campos ou áreas de actuação em que foram nomeados quer pelas obras que apresentaram, pelos projectos que evidenciaram e pelos bons planos que traçaram, tragam uma mais valia as federações e ao desporto angolano em geral, mas poderiam fazê-lo na qualidade de assessores, conselheiros, colaboradores, amigos do desporto etc.

Do ponto de vista salarial e outras regalias mais, eles beneficiarão como membros do governo e também como presidentes das federações? Os estatutos da função pública prevêem isso? Não estarão eles a exercer para a mesma função pública, logo deveriam beneficiar de um só soldo, ou dos tais 10% que prevê a lei?

Num país em que prolifera a lei do "job for the boys" em que é preciso contentar alguns com a criação de vários ministérios, vice ministérios, embaixadas (mesmo em países economica e geopoliticamente pouco estratégicas para nós), Conselhos de Administração, não seria de bom tom, dar esses lugares de presidência de Federações à aqueles que estejam no desemprego? é que é sempre uma vacatura por preencher.

Como é que podemos interpretar essa "invasão" dos políticos no desporto, como uma forma de enriquecimento curricular, afirmação pessoal, mais valia para o desporto angolano, apenas como algo que virou moda, uma outra forma subtil de arrecadar fundos, estratégia para as futuras eleições porque o desporto sempre movimentou e continuará a movimentar massas ou uma outra coisa qualquer?

Enfim, vamos reflectir!!! Vamos reflectir, porque dentro de um grupo ou sociedade que persiga um determinado objectivo, é sempre necessário que existam as mentes livres, que não estejam comprometidos com nada, porque essas mentes sempre nos podem beliscar quando estamos no caminho errado.

Artigo de Opinião, assinado por Bo Kimble,
Bancário, professor Universitário e Militante do MPLA.
 
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