Luanda: Ponte «Molhada» tornou-se fonte de rendimentos para muitas famílias
20-11-2013 | Fonte: Jornal de Angola
A Ponte Molhada, construída sobre a vala que separa Talatona e  Benfica, em Luanda, apesar de ser um local mais conhecido pelas cheias, tornou-se uma fonte de rendimentos para muitas famílias, com o surgimento de vários negócios e serviços à sua volta.

A infra-estrutura foi construída para servir de passagem alternativa à via entre o Futungo de Belas e Benfica. Mas o local é desaconselhável em época de chuvas, pois a enxurrada leva tudo que encontra pelo caminho, seja imbondeiros, viaturas, pessoas e casas, como aconteceu com Florinda Chambula, natural do Huambo, que perdeu a residência e todos os seus haveres durante as últimas chuvadas continuando á espera de uma nova habitação no Zango.

Além de provocar tantas desgraças, a Ponte Molhada é fonte de rendimentos para muitos jovens que utilizam o local para venda ambulante, comida de rua e lavagem de carros, principal actividade ali exercida e cujos preços variam entre os 1.500,00 e os 3.500,00 kwanzas.

A reportagem do Jornal de Angola foi ver de perto jovens como o Joãozinho que, com uma mangueira, balde de água, esponja, panos e detergentes consegue sustentar dois filhos, a mãe viúva e o irmão menor. Residente no  Calemba 2, ele conta que os lavadores de carros repartem os lucros com os proprietários das motobombas, ou seja, em cada valor cobrado ao automobilista para a lavagem da sua viatura, 500,00 kwanzas ficam com o dono da motobomba.

“Aqui só lucramos quando não chove, porque quando a chuva cai tudo fica inundado e dificilmente os clientes aparecem por estas bandas”, diz Joãozinho, olhando para o céu nublado, com receio de ver cair mais uma daquelas chuvadas que deixam várias zonas de Luanda inundadas.

Nos dias de semana cada jovem lavador chega a limpar de cinco a dez viaturas, mas este número aumenta aos finais de semana, altura em que muitos automobilistas decidem dar uma limpeza geral às suas viaturas. A vida de lavador de carros é difícil pois, ao contrário do que muita gente pensa, ele exerce o seu trabalho dentro de um horário estabelecido para  ganhar dinheiro.“Esta é a nossa única forma de sobrevivência, por isso devemos dar no duro”, justifica o lavador Joaquim Alves “Quim do Brilho” para os mais próximos, para quem o pouco dinheiro que consegue dá para sustentar a família.

Quim do Brilho começa a sua jornada de trabalho cerca das 8h00 e termina por volta das 19h00, facturando em média 15 mil kwanzas. Quim quer continuar no seu ofício, pelo menos por agora, na falta de emprego melhor. “A Ponte Molhada tornou-se no nosso meio de sobrevivência, apesar das desgraças que provoca quando chove.”

Do Senegal  à Ponte Molhada

Há oito anos a residir em Angola, Mohamed Keita deixou o país natal, o Senegal, para vir em busca de melhores condições de vida. Assentou arraiais na Ponte Molhada construindo uma estação de serviço. O seu empreendimento é dos mais concorridos, segundo ele, devido ao “excelente trabalho” dos seus funcionários.

“O trabalho é prático e rápido. O funcionário faz a limpeza do carro em meia hora”, conta ele, referindo que, ao contrário dos outros lavadores que usam a água da vala para lavarem os carros, a sua estação possui um tanque de 50 mil litros de água limpa. “Aqui o cliente encontra comodidade e bom serviço, pois o carro fica mais limpo”, explica Mohamed.

Na estação de serviço de Mohamed, os clientes, enquanto aguardam pelas suas viaturas, podem deliciar-se com um bom “cabrité” ou “franguité”, comercializados por um cidadão maliano identificado apenas por Salú Seydou. Ele é uma pessoa de poucas falas, mas disse residir em Luanda há sete anos, quatro dos quais a vender “cabrité” na Ponte Molhada.

O espaço tornou-se cada vez mais rentável e é comum ver-se ao longo da via vendedores de peças de carros, bebidas, grelhados, electrodomésticos, produtos do campo, telemóveis, além das famosas cantinas dos “Mamadus”.

No trânsito, os vendedores ambulantes passam no meio dos carros na tentativa de vender os produtos. Alguns são insistentes, outros esperam ser chamados pelos clientes interessados. “Como o trânsito é muito lento devido à ponte, aproveitamos para abordar os clientes com facilidade e convencê-los a comprar”, afirma o vendedor ambulante Rafael da Cruz, de 35 anos.

Tia Fató, sentada atrás do seu fogareiro, é a mais famosa vendedora de “magoga” da Ponte Molhada. Tia Fató já trabalha há seis anos no local, depois de ter deixado o município do Soyo, sua terra natal, e vindo para Luanda em busca de melhor oportunidade de vida.

Fató recusou-se de início a falar para a reportagem do Jornal de Angola, por estar aborrecida com a actual situação da ponte. “Falar mais para quê? Estamos cansados desta ponte. Quando ela foi construída, ainda avisamos para não ser muito baixa, mas fomos ignorados por não sermos engenheiros”, desabafa Tia Fató.  Perante a insistência, Tia Fató fala do dia-a-dia na ponte, local onde já vende há mais de seis anos. “Tirando as enchentes, conseguimos fazer algum dinheiro, pois este local é muito procurado.”

Trânsito complicado

Com uma movimentação intensa, o tráfego rodoviário na Ponte Molhad, que devia servir de alternativa à estrada principal que liga o Futungo a Benfica, complica-se, com longas filas.

Quem habitualmente passa pelo local queixa-se do combustível gasto e do tempo perdido. “Antes era fácil passar por aqui, mas hoje os engarrafamentos não têm hora”, lamentou o automobilista Nelson Machado, ao volante da sua viatura de marca Mercedes Benz. 

A circulação rodoviária no local é reflexo dos problemas de trânsito na cidade de Luanda, onde o número de carros cresce  e o caos aumenta diariamente.

“Em tempo de chuva é um caso sério porque se torna muito difícil circular”, disse Bamil Neto, que recordou os vários acidentes registados e a morte de uma pessoa arrastada pela força das águas.

“Aqui já foi arrastado um camião-cisterna, uma carrinha frigorífica, um Rav4, um Range Rover e uma pessoa em estado de embriaguês morreu quando tentava atravessar a ponte inundada.”

 
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