Pedro Mantorras: O perfume do futebol
05-04-2004 | Fonte: Visão
Pedro Mantorras partiu para Barcelona nesta segunda-feira, com vista a iniciar uma nova fase da recuperação. O angolano vai trabalhar durante três semanas com Emili Ricart Aguirre, um especialista que ajudou Guardiola e Denilson em situações semelhantes.

A equipa do AngoNotícias foi aos arquivos, e recorda aqui a grande reportagem que a Revista portuguesa "Visão" fez sobre o avançado do Benfica, nos auge da sua chegada ao clube encarnado de Lisboa.

Pedro Mantorras nasceu em Angola há 22 anos, e há quem veja nele um... Eusébio. Mas Pedro recusa comparações: «Ele é um herói. Incomparável.»

«Pantera Negra». Com estas palavras, o diário desportivo A "Bola" fez a manchete da crónica do jogo amigável entre o Benfica e o Feye-noord, em 2001. Os encarnados tinham ganho por 2-1 e o título sublinhava a exibição de Pedro Mantorras, autor dos dois golos benfiquistas. Era a confirmação pública daquilo que muitos iam dizendo em surdina: o angolano pode vir a ser um novo Eusébio.

No dia seguinte, o jovem avançado angolano foi o último a chegar ao treino matinal do Benfica. Não porque tivesse ficado mais uns minutos na cama, a sonhar com os golos que ainda vai marcar, mas porque, à entrada do Estádio da Luz, era aguardado por centenas de pessoas. Queriam tocar-lhe, pedir-lhe um autógrafo ou, mais simplesmente, dar-lhe uma palavra de incentivo. A todos, Mantorras sorria, num misto de humildade e simpatia.

Um cenário bem diferente daquele que, não há muito tempo, o rodeava em Luanda, quando, após a morte dos pais, ficou a viver na rua, sendo obrigado a sustentar os irmãos.

Pedro Mantorras – uma alcunha que significa «homem queimado» e que surgiu na sequência de um acidente doméstico ocorrido quando ele entornou uma panela de sopa quente por cima de si próprio - nasceu em Luanda, a 18 de Março de 1982 e teve tudo menos uma infância fácil. Andava pêlos 13 anos quando lhe morreu o pai, vítima da guerra. A mãe, essa, não iria sobreviver-lhe muito mais tempo: uma trombose deixou um miúdo de 15 anos, com três irmãos mais novos, dois rapazes e uma rapariga, a seu cargo. O mais velho havia emigrado para Portugal. Foram tempos difíceis que o obrigaram a viver ao relento, como qualquer «menino de rua».

Hoje, os tempos mudaram: vivem todos em Portugal (Alverca), excepção feita à irmã mais nova, de 13 anos, que continua em Angola, à espera de visto. Mas o seu pai de origem não será nunca amputado da sua vida. E não apenas porque ele pertence ao grupo dos eleitos que representam o futebol angolano. Além de jogar na Selecção, que para ele é muito, Pedro Mantorras pretende criar na capital angolana uma fundação de ajuda às crianças sem abrigo. O assunto foi mesmo tratado com o próprio Presidente José Eduardo dos Santos – também ele um fã confesso do jogador – e existe já um terreno para levar por diante o projecto. «Eu passei por isso, sei o que é viver sem casa. Este é um sonho que tenho e que pretendo realizar. Quero ajudar as crianças da minha terra», confessa.

Mantorras, o fenómeno

Hoje, tudo mudou, repita-se, e, aos 21 anos, o angolano é um ídolo de multidões, apesar de estar há muito lesionado. Algo a que nem o próprio está habituado, como confessou à VISÃO: «É tudo muito estranho. Eu só peço às pessoas que tenham calma, porque ainda sou muito novo. Às vezes, até tenho saudades do meu cantinho no Alverca...» diz, a rir, depressa rectificando: «Estou a brincar, estar no Benfica é a realização de um sonho.Mas foi tudo muito rápido.» Pelo menos, a ele parece-lhe que ainda foi ontem que o seu empresário de futebol Jorge Manuel Mendes reparou nele. Estava-se em 1998 e jogava-se em Campo Maior o Torneio da Lusofonia, no qual participavam as seleções de países de expressão portuguesa. Mantorras, avançado de Angola, apesar de ter apenas 16 anos, deu logo nas vistas, ao conquistar o título de melhor marcador da prova, com sete golos. Mal sabia que os seus sonhos estavam a um passo de se tomarem realidade.

«Vi apenas um jogo dele, mas reparei de imediato que era um fora-de-série», contou à VISÃO Jorge Manuel Mendes, acrescentando: «Então, através de uma pessoa que conhecia no Barcelona, consegui colocá-lo a treinar no clube catalão.» Começou na equipa B, mas uma semana depois já alinhava nos trabalhos da equipa principal, ao lado de nomes como Figo, Guardiola ou Amunike, um dos seus ídolos do futebol africano. Só que, a instabilidade que se vivia na altura no Barcelona impediu a sua permanência no clube e Mantorras regressou a Portugal.

Jorge Manuel Mendes recorda que, na altura, podia ter levado o jogador para um clube grande, Sporting ou Benfica, por exemplo. «Mas optei pelo Alverca depois de uma conversa com o então seu presidente Luís Filipe Vieira. Sentia que o jovem angolano precisava de espaço e tranquilidade para explorar todo o seu talento. Para além disto há ainda a relação pessoal, o Pedro não me conhecia de lado nenhum e confiou em mim quando veio pela primeira vez para a Europa.

Gosto muito dele. Para lá do jogador, há a pessoa, e ele consegue aliar, como poucos, o enorme talento que tem a uma imensa humildade», justificou o empresário.

No Alverca, jogadores, equipa técnica e dirigentes recebem-no de braços abertos e Mantorras consegue, por fim, a estabilidade que até então sempre lhe faltara.

Toma-se amigo pessoal do presidente do clube ribatejano, Luís Filipe Vieira, hoje o Prsidente de Direcção do glorioso Benfica. A relação entre os dois é de tal ordem que Mantorras dá o nome do dirigente, ao seu filho. «Ele foi como um pai para mim. Só lhe posso estar agradecido, a minha vida mudou a partir do momento em que o conheci», salientou ao Periódico português.

Tem então tempo para fazer o que mais gosta: jogar futebol. As suas actuações refinam de partida para partida e depressa despertam a cobiça dos «grandes». O Benfica antecipa-se e, no final da época de 2000/2001, garante a aquisição do craque angolano, naquela que foi a transferência mais cara de sempre entre clubes portugueses - um milhão de contos.

De promessa, Mantorras depressa passou a certeza. As exibições nos jogos de preparação transformam-no no novo herói do «terceiro anel». No Benfica não lhe poupaavam elogios. O técnico Toni afiançava na altura que ele «pode vir a ser um jogador de craveira internacional», enquanto o seu - ex - adjunto Jesualdo Ferreira - que o treinou no Alverca - apelida a sua maneira de jogar de «excitante». E lembrou que «Mantorras ainda é muito jovem» e que terá, por isso,«um longo caminho a percorrer, até chegar ao topo das suas potencialidades».

O gosto de aprender

Mantorras sabe, aos 22 anos, que ainda tem muitas alegrias para viver no futebol. Talvez seja por isso que continua a repetir, até à exaustão, com a humildade própria de um menino assustado com o seu próprio talento, que ainda tem muito que aprender. Sabe que para chegar ao topo tem de trabalhar e muito.

Já era assim no Alverca quando ficava no relvado, depois de terminados os treinos, na companhia do preparador físico e seu grande amigo Mariano Barreto, apefeiçoando as fintas e as jogadas que hoje deliciam os adeptos do futebol. Foi numa dessas sessões que começou a ensaiar a finta Agarra Ladrão, como é conhecida em Angola a jogada que, nas últimas partidas que realizou, colocou a cabeça em água aos defesas adversários.
 
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