Vamos dividir bem a renda nacional para salvaguardar o futebol
15-05-2005 | Fonte:
Lembro-me com alguma nostalgia dos tempos em que sem o consentimento do meu pai, ia ao Municipal dos Coqueiros assistir ao Petro versus D’Agosto dos anos oitenta, com o Jesus como o grande maestro da altura, Lufemba, N’dunguidi e outros mais que pontificavam nos relvados angolanos. Mesmo sabendo que teria problemas no regresso, não me importava de lá ir, porque sabia que iria ter magníficos 90 minutos de futebol garantido, e que o resto depois se via no meu regresso a casa. Os Coqueiros normalmente encontrava-se sempre cheio e vivia-se “good atmosphere” como dizem os ingleses e no regresso a casa o reencontro com o pai era sempre para esquecer (porrada). Mas no fim de semana seguinte voltava de novo ao campo, porque o futebol da altura era mesmo bom, isto é, o crime compensava a tortura.

Hoje ainda continuo a ir com alguma regularidade aos estádios, e fico satisfeito quando vejo pontificarem miúdos como o Zé Calanga que são idolatrados pelo público e que tornaram-se em modelos para muitos jovens (há inclusive uma música de Kuduro em sua honra, o que é positivo, pois nós mesmo podemos criar as nossas estrelas, tal como David Bekham foi fabricado pelos ingleses). Mas fico triste quando constato que a Cidadela está praticamente sempre vazia, que a federação não cobra os ingressos, quando o combinado nacional acolhe uma selecção do calibre da Nigéria por exemplo (normalmente enche os campos em qualquer parte do mundo), para poder ter mais público e que muitas das vezes os populares que enchem a cidadela estão numa faixa etária abaixo do recomendável para frequentar recintos desportivos sem acompanhamento, logo sem capacidade financeira para trazer receitas.

Está cada vez mais a ser evidente a decadência do nosso futebol, o nível futebolístico apresentado deixa cada vez mais a desejar, existe um desinteresse total por parte da população e podemos apontar algumas, dentre as várias, causas que estão na origem deste problema:

1) Um dos factores tem precisamente a ver com a comparação que as pessoas fazem da Premiership, La Liga, Superliga e do Cálcio para citar alguns exemplos, que passa diariamente nas nossas parabólicas em relação ao Girabola.

2) Outro factor a ver com emigração maciça que se registou nos finais dos anos oitenta e decorrer dos anos 90 que levou uma grande parte da população jovem angolana a deparar-se in-loco com realidades futebolísticas e não só, diferentes da nossa. É comum entre os “regressados” ouvir-se expressões do género “eu não vou a cidadela, porque o futebol que cá se pratica não tem nada a ver com aquele que eu via na tuga”.

3) A guerra que dilacerou o país nas últimas décadas, fazendo com que alguns jovens e mesmo senhores, tivessem medo de ir aos estádios de futebol, não vá o diabo tece-las, terem vários camiões a saída com tropas prontos a rusgá-los para a vida militar. Isto para não falarmos no quão amputados ficamos em termos humanos, já que a guerra ceifou vidas retirando assim adeptos do futebol. A mesma trouxe também consigo o fenómeno da rivalidade política entre os grandes maiores partidos políticos da praça, ao passo que noutros países por exemplo, a rivalidade que existe entre as pessoas tem contornos desportivos. Seria bom que as nossas rivalidades politicas se transformassem em rivalidades desportivas.

4) O factor “bolso” das famílias e as condições sociais em que vivem os “muangolés”. Existem graves problemas básicos, como a falta de água por exemplo, óleo para fazer o almoço, falta de energia, salários miseráveis, doenças básicas, como a febre tifóide, o paludismo por combater, o marburg, óbitos e outras questões que já há muito deixaram de ser preocupação para os ocidentais. Ora, normalmente só temos apetência para o lazer quando física e psicologicamente tudo está bem connosco, e acredito que dará prazer a qualquer angolano ir ao campo, quando sabe que lá em casa não há muito com que se preocupar. Cultural e sociologicamente, sabe-se que o futebol é o desporto das massas, dos pobres e os pobres angolanos vivem muito longe dos estádios e seria necessário uma ginástica financeira forte em termos de transporte para lá chegarem.

5) Os que têm possibilidades e alguma influência têm uma apetência algo exacerbada para o lucro rápido, dando assim mais importância a outros tipos de lazer do que ao desporto, pois não oferece dividendos.

6) A pouca segurança nos estádios, a ma educação e brutalidade por vezes bem patente por parte das autoridades policiais e dos seguranças privados dos complexos desportivos, assim como a falta de civismo de alguns adeptos e os horários em que os jogos são marcados (temperaturas muito altas).

7) A falta de ídolos e de qualidade ao nível do futebol que é praticado.

8) O futebol não acompanhou as mudanças políticas, administrativas e económicas que se registaram no país. Vivemos neste preciso momento, numa autêntica economia de mercado, mas o estado em relação ao desporto e em alguns casos, actua como se de uma economia centralizada se tratasse. Noutros países, o futebol é mais uma das fontes de receitas por parte do estado (impostos), podendo este por vezes atenuar ou perdoar a divida dos clubes, para desta forma massificar o fenómeno desportivo.

9) A juventude por causa da frustração dos anos noventa, sem eira nem beira e sem grandes perspectivas de futuro, desligou-se completamente do fenómeno desportivo, tendo mais apetência ao consumo do álcool, e a outras formas pouco ortodoxas de lazer. É impressionante constatar que as discotecas, aos fins de semana, estão sempre cheias e questiono a diferença em termos de lazer entre uma discoteca e um estádio de futebol.

10) A pouca capacidade e falta de improvisação por parte dos dirigentes desportivos em atrair espectadores para os estádios. Lembro-me como estudante na diáspora, de ver nos momentos que antecediam os jogos da equipa local da cidade em que estudava, andar um senhor de bicicleta, motorizada ou mesmo de carrinha, de bairro em bairro, equipado com as cores do clube, com altifalantes e música a mistura, a anunciar a próxima partida de futebol da equipa local, com o objectivo de atrair espectadores para o estádio. Aqui entre nós esta missão é feita pela Rádio Desportiva local o que é louvável, mas missão ingrata, porque nem sempre temos energia eléctrica, acesso aos aparelhos, disponibilidade para escutar as emissões.

11) Em alguns casos também nota-se alguma falta de patriotismo e alguns complexos inexplicáveis, principalmente por parte de alguma elite. É inconcebível que um Benfica – Porto, disputado na mesma altura (dia, hora) seja capaz de despertar mais interesse por parte dos angolanos, do que um D’Agosto – Petro de Luanda. Razões históricas, complexos de inferioridade, melhor futebol, clubes do coração, patriotismo, nacionalismo? É preciso ter em mente que para que o nosso futebol tenha interesse, é necessário que nós angolanos o tornemos interessante, tal como os estrangeiros tornam interessantes as suas partidas de futebol.

12) Numa altura em que está a tornar-se num autêntico “negócio da China”, os colégios privados não estão a desempenhar bem as suas funções no que ao desporto escolar diz respeito, assim como os governos comunais e municipais falham relativamente a existência de recintos desportivos nos bairros. Penso que o interesse para o desporto vem desde tenra idade, desde os campeonatos escolares, campeonatos dos bairros, onde os meninos procuram ter ídolos para imitar.

Numa altura em que estamos na corrida para o CAN (Mundial, não acredito que lá cheguemos, porque o futebol não se pratica só dentro dos recintos e porque para a própria FIFA e CAF interessará mais que se qualifique a Nigéria, por causa da viabilidade económica e financeira do projecto) penso que é preciso rever a forma como é encarada e são disputadas as partidas das diversas modalidades desportivas.

Dá gozo ver o Zé Calanga jogar, ver o ASA obter bons resultados a nível africano, ver o meu eterno Petro de Luanda praticar bom futebol e saber que financeiramente não tem os mesmos problemas que enfrentam os outros clubes.

Mas é triste constatar que até ao nível do futebol, não há uma boa distribuição das riquezas nacionais e que alguns clubes que engrandecem o nosso futebol correm o risco de fechar as portas por falta de verbas:

- A Sonangol patrocinadora oficial do Petro é uma empresa estratégica nacional, logo de todos os angolanos.

- A TAAG, empresa nacional de aviação, é uma empresa estratégica nacional também de todos os angolanos, mas patrocina apenas uma equipa, o ASA.

- A Endiama, outra empresa nacional, patrocina exclusivamente o Sagrada Esperança.

- O 1º de Agosto, o Inter de Luanda são patrocinados pelas forças armadas e pela policia nacional, respectivamente logo sobrevivem do O.G.E.

- O Inter de Luanda tem um estádio novo construído com base nos fundos públicos.

- Empresas petrolíferas estrangeiras irão subsidiar alguns clubes nacionais.

A injustiça reside precisamente no facto do estado apoiar esses clubes em detrimento de outros. Isto quer dizer que os aficcionados dos clubes não apoiados pelo estado, apoiam indirectamente outros clubes através dos impostos que pagam ao estado.

Penso que actualmente é utópico pensarmos que os clubes podem sobreviver através das receitas televisivas, quotas dos sócios, ou receitas de bilheteiras, por causa das razões que já citei no ponto 4 deste mesmo artigo. As nossas microeconomias são tão reduzidas que resta muito pouco para contribuições em associativismos.

Tal como referi anteriormente, os clubes deveriam trazer receitas ao estado, mas é óbvio que isto é um desiderato impossível de cumprir dentro da actual conjuntura e para que o nosso futebol não se torne moribunda é necessário um apoio governamental, mas equitativo, não podem uns ser filhos e alguns enteados.

Penso que para uma boa divisão equitativa das riquezas nacionais ao futebol e para que haja uma maior competitividade, rivalidade e outros ingredientes mais que apimentam o futebol, é necessário fazer-se uma transformação radical a nível da sua estrutura, assim como transformações a nível das competições nacionais e locais e as formas do seu financiamento, e para tal, que tal se fizéssemos o seguinte:

a) A criação de um campeonato nacional com 18 equipas ( sendo cada uma delas representativo de uma província do país). A criação de uma só equipa de futebol por cada província (uma espécie de selecção provincial) permitiria a essa mesma equipa contar com o apoio económico e financeiro de todos os quadrantes da província e isso permitiria um desafogo financeiro por parte das equipas. É óbvio que um cenário destes levaria a fusão por exemplo das 5 equipas de Luanda que fazem parte do Girabola. É inconcebível termos equipas no girabola que congreguem no seu seio apenas meia dúzia de adeptos. Essa fusão concentraria um maior número de adeptos num só clube e facilitaria também o desafogo financeiro através das quotas dos sócios. Não me parece lógico ter um recinto como a Cidadela com meia dúzia de adeptos a apoiar uma ou outra equipa. A fusão de equipas, conduziria a fusão dos adeptos. É mais ou menos a ideia de termos pouco com qualidade, do que quantidade sem qualidade.

b) A criação de um campeonato a ser disputado nestes moldes, traria competitividade, rivalidades regionais e províncias e porventura mais interesse. Traria ao de cima as rivalidades que existem entre os do sul e norte, centro, sudeste e sudoeste etc. Já imaginaram os jogos Uíge contra Luanda, ou Benguela contra Huambo, Cabinda versus Luanda, Malange versus Cunene, ou então entre as duas Lundas? Mas é óbvio que essas rivalidades seriam desportivas o que seria extremamente salutar.

c) Penso que essa forma de competição salvaguardaria o nosso futebol, traria mais adeptos aos estádios e tornaria o Girabola mais nacional, mais competitivo e possibilitaria a uma divisão equitativa da riqueza nacional, pois desta forma todos nós contribuiríamos em pé de igualdade para o engrandecimento do desporto nacional, evitando desta forma que só algumas equipas beneficiem dos apoios financeiros por parte do estado.

d) Permitiria sem sombra de dúvida que se profissionalizasse o nosso futebol, criando desta forma as competições amadoras em divisões secundárias a nível provincial, regional ou mesmo nacional, os “girabairros” que actuassem como uma espécie de fonte geradora de novos talentos, uns autênticos viveiros sem fins lucrativos, ou através do Ministério da educação criar-se os campeonatos escolares para em espécie de “draft” fornecerem os melhores jogadores ao “girabola”.

e) Construção de estádios de futebol em cada província, mediante concurso público para que se evite a subfacturação, o que irá dotar cada uma das capitais provinciais de infraestruturas de nível internacional para a prática de futebol.

f) Muitos dirão que essa forma de competição retiraria emoção e competitividade, porque não haveria despromoção das equipas. A NBA, considerado como o maior fenómeno basquetebolístico a escala planetária, é disputado pelas mesmas equipas época à época, sem despromoção de nenhuma delas, mas dispõe de uma competitividade impressionante. Penso que o maior orgulho de qualquer ser humano é defender os interesses ou a honra da pátria, da província, do município, do bairro onde nasceu ou mesmo da sua própria família, e um campeonato nestes moldes terá competitividade garantida.

É preciso ter em conta que a actual “Champions League” não se disputava nos moldes actuais, que os “World Cup” que contam actualmente com a participação de 32 equipas anteriormente disputavam-se noutros moldes, que os CAN em futebol também tinham outro figurino anteriormente. Mas a necessidade premente em torna-los em competições interessantes, lucrativas e mediáticas levou às transformações que se registam actualmente.

As minhas teses podem parecer utópicas e sem fundamentos, e é comum entre nós oferecermos uma certa resistência as novidades por causa dos interesses já estabelecidos e enraizados, por causa do hábito, porque culturalmente já somos assim, e porque é comum entre nós dizermos as vezes “isto é Angola e as coisas funcionam assim”, mas temos que admitir que o nosso futebol está a morrer lentamente e que temos que arranjar soluções. É uma ideia, uma dica, algo que me ocorreu e que humildemente achei por bem partilhar com os meus, partindo sempre do princípio que outras ideias melhores existem.

Artigo de Opinião, assinado por Bo Kimble
Bancário
 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação
Foto-Destaque
Foto-Destaque
Questionário