Os Títulos do Banco Central constituem o melhor instrumento a curto prazo de aplicação de activos financeiros no nosso mercado
18-05-2005 | Fonte:
Em todas as sociedades contemporâneas o rendimento monetário diário, semanal, mensal ou anual das populações ou das empresas serve sempre para o consumo, poupança ou para o investimento.

Assisti durante o fim de semana a uma “zaragata” nos arredores da cidade capital que envolvia duas senhoras na casa dos quarenta, por causa de um suposto desaparecimento de cerca de quinze mil dólares americanos ( dos quais alguns valores eram em Kwanzas). O conflito começou precisamente, porque uma das senhoras procurando encontrar a melhor forma de rentabilizar os seus activos procurou a comadre “kinguila” no sentido desta trabalhar com o seu dinheiro, para num prazo previamente estabelecido ser ressarcida com dividendos. Infelizmente para elas, os fiscais do governo provincial apoderaram-se dos activos deixando as duas senhoras com os nervos a flor da pele.

Com alguma pontinha de curiosidade, aproximei-me junto das “tias” para tentar encontrar as motivações que estiveram na base de tamanha discussão, e depois de uma breve explanação apercebi-me, que o negócio era extremamente rentável apesar do elevado risco e da sua própria ilegalidade. Fiquei a saber por exemplo que por cada nota de 100 dólares, a comadre “kinguila” teria que entregar 10 Dólares mensais a sua companheira e a outra como uma espécie de “Go Between” na transacção beneficiava de um determinado valor que não queria revelar.

O grande problema foi precisamente o facto das senhoras criticarem os fiscais, o governo, a sociedade e outros males mais que nos afligem todos os dias, sem saberem que do ponto de vista legal, não tinham argumentos que sustentassem as suas acções porque:

a) As casas de câmbio existem e a pratica de “kinguilismo” não está consagrada na lei.

b) Constitui uma autêntica fuga ao fisco a prática de qualquer actividade com fins lucrativos sem o pagamento de um imposto ao estado. Através dos impostos o estado cobra o custo dos serviços públicos gerais (instrução pública, saúde e assistência, segurança, defesa nacional etc.) e ainda a parte dos serviços públicos especiais que não são coberta pelas taxas. É do conhecimento de todos que o estado necessita de fazer despesas e mesmo que as senhoras sofressem um ataque por parte dos meliantes necessitariam de um apoio policial e o estado necessita de verbas para sustentar esses mesmo agentes. Se bem que do ponto de vista moral, haja muito que se lhe diga ao estado.

Ter sentido de estado, não é ser apenas político ou ocupar um cargo de relevo a nível governamental para servir a coisa pública, é acima de tudo ser cidadão comum e zelar pelos interesses da nação, defender o bem estar social de todos e ter sentido de responsabilidade. As Kinguilas prejudicam, logo não têm sentido de estado.

Numa altura em que começa a ser evidente a melhoria do sistema bancário nacional, do controle dos índices de inflação e uma aposta grande por parte do governo na melhoria das condições de vida dos angolanos, a existência de práticas ilegais como o “kinguilismo” trás ao de cima o descontrolo da massa monetária em circulação por parte do banco central, o que pode não só desestabilizar o próprio mercado financeiro , como também tem reflexos negativos no controle dos indicadores micro e macro-económicos.

É uma prática normal dos países em vias de desenvolvimento por causa das oscilações cambiais e pelos níveis de inflação que existem, normalmente utilizar-se a divisa como moeda de poupança e referência, passando a moeda local a ser utilizada como a moeda para as transacções correntes.

As “Kinguilas” através da especulação cambial tornaram-se muitas delas em micro - empresárias no nosso país, tendo algumas delas atingido volumes de transacções em números significantes o que atesta bem o volume de activos financeiros que elas movimentam.

Lembro-me de há uns tempos atrás alguém próximo ter tido problemas com oeste africanos por causa duma suposta burla de 50 mil dólares americanos que sofreu, activos estes que se destinavam a compra de um determinado líquido que permitiria a lavagem de milhões de dólares americanos, e que parte dos milhões seriam para ele.

Existem individualidades que arranjam cacos de vidros que posteriormente fingem ser diamantes, procuram algumas pessoas abastadas e distraídas no sentido de encontrarem um comprador, mas no entanto vão adiando a venda para terem tempo e criarem fortes expectativas e ansiedade junto do abastado e com isso fazerem alguns pedidos que constitui o seu ganho, para no fim desaparecerem com o diamante falso.

Há uns meses atrás proliferaram por Luanda e pelo resto do país algumas casas ilegais que permitiam a aplicação de grandes quantias monetárias a serem remuneradas a taxas de juros extremamente altas, que se revelaram mais tarde como uma autênticas casas de burla.

Todos esses casos, como devem calcular, demonstram que os angolanos andam a procura do aparecimento de novos instrumentos de endividamento e simultaneamente de aplicação de capitais, mais flexíveis e com soluções custo/benefício mais vantajosas.

Vivemos numa economia em tímida evolução, o nosso mercado financeiro está a desenvolver-se paulatinamente, é óbvio que temos um longo caminho a percorrer em termos de mecanismos que nos permitam fazer aplicações financeiras como a compra de títulos que sejam representativos da parcela de uma determinada empresa (acções), ou as obrigações que constituem os empréstimos financeiros que fizemos as empresas para dela retirarmos dividendos através dos juros, para não falarmos nos Papeis Comerciais que é uma modalidade de emissão de dívida por parte das grandes companhias, os fundos de pensões, os Swaps, Forwards, Calls, Options, etc. Mas é óbvio que lá chegaremos, a criação do Mercado de Valores Mobiliários que supervisionará a Bolsa de Valores de Angola a isso ajudará.

Depois de ouvir com atenção a discussão das senhoras e os respectivos lamentos, procurei saber se elas já tinham ouvido falar nos Títulos do Banco Central. Reparei mais uma vez que estamos mesmo mal em termos de instrução, ou que estava a utilizar uma linguagem que não tem nada a ver com elas, que se calhar o Banco Central não está a fazer bem o seu marketing, que se calhar a falha é dos bancos comerciais, que as senhoras não liam os jornais, que não assistiam aos noticiários, que aquilo não lhes dizia nada e que tinham tantos problemas que a cultura, a leitura, a informação já eram irrelevantes para elas ou que se calhar o acesso a informação é que era complicado.

Sentei-me com elas, paguei inclusive uma rodada de cerveja, fiz os cálculos porque estava interessado nos lucros e reparei que afinal os dividendos eram realmente superiores e justificava-se aquela “zaragata” toda. Por exemplo, uma aplicação de cerca de U$D 25,560.00 , rende numa compra de TBC ou BT cerca de U$D 4,500.00 em seis meses, ao passo que segundo o que ouvi das tias em causa U$d 25,000.00 aplicados no “kinguilismo” renderia (pelas minhas contas) cerca de U$D 12,000.00 em seis meses o que é fenomenal.

Se fosse uma actividade legal, reconhecida pelo estado com todos os riscos a ele inerentes salvaguardados, seria sem sombra de dúvidas o melhor produto financeiro do mercado angolano, mas infelizmente não é e logo torna-se perigoso porque:

1) Não há um contrato estabelecido entre o intermediário e o detentor dos activos, logo não existe um respaldo jurídico que salvaguarde ambas as partes.

2) O risco cambial inerente a esse processo de arbitragem, a divisa pode estar a apreciar-se esta semana e depreciar-se na semana a seguir, o que significa que podemos perder ou ganhar.

3) Os assaltos. As “Kinguilas” são das pessoas mais assaltadas em todo o território nacional, logo não é seguro utilizar esta actividade para aplicações financeiras.

4) É prejudicial para a economia, porque não se consegue controlar a massa monetária em circulação o que provoca desequilíbrios.

Os Depósitos a prazo já há muito perderam em termos de rentabilidade o protagonismo que tinham porque oferecem taxas de juros muito baixas, não só internamente como a nível internacional.

Mas como agente económico, consciente do quão nefasto é para a economia nacional a prática do “kinguilismo” quer para as famílias por causa da sua perigosidade em termos do fomento da criminalidade, quer para a sociedade em termos gerais por causa do perigo que representa para a economia nacional, aconselho religiosamente os meus compatriotas a optarem pela compra dos Títulos do Banco Central, por constituírem nesse preciso momento a melhor forma de aplicação dos activos financeiros a curto prazo que temos a nível nacional.

A compra de Títulos do Banco Central (TBC) e os Bilhetes do Tesouro (BT) com uma taxa média de remuneração ao ano em termos percentuais de 33% para 28 dias, 37% para 63 dias, 40% para 91 dias e 45% para 182 dias, é talvez uma das melhores remunerações a curto prazo nesse preciso momento a nível mundial e com menor risco. Apesar dos riscos cambiais acaba sempre por ser rentável mesmo para aqueles que dispõem de activos financeiros em divisas aplicadas nos diversos mercados mundiais.

Para termos acesso aos títulos quer sejamos angolanos ou estrangeiros, o que temos que fazer é dirigirmo-nos aos bancos onde as nossas contas estão domiciliadas, entabularmos conversações com o gestor e pedirmos a compra de títulos do BNA, por ser seguro, remunera bem e permite ao estado ter liquidez. Fiz isso relativamente às senhoras, aconselhei as duas, penso que a que aplicou o dinheiro deve estar a reflectir, mas a “Go Between”, muito provavelmente não, porque o “kinguilismo” é o seu ganha pão (existem poucas políticas de fomento de emprego), apesar de estar consciente dos riscos e dos aspectos jurídicos à ele inerentes.

Artigo de Opinião, assinado por Bo Kimble
Bancário
 
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