O táxi nosso de cada dia
09-06-2005 | Fonte:
Quando há uns anos atrás aterrou em Angola, o Zamora dizia sempre que nunca iria andar de táxi, porque os condutores andavam mal, com muita velocidade, desrespeitavam de tal forma as regras de trânsito que fazia-lhe impressão andar de táxi em Angola.

Para ele os “candongueiros” faziam mal à sociedade, que deviam ser abolidos, pois já o tinham tocado no carro uma série de vezes e que mais do que isso, eram suicidas. Infelizmente o único carro de que era detentor, por causa das vicissitudes próprias da nossa terra, estradas em péssimas condições, acabara por ficar com uma avaria nos amortecedores.

O mesmo Zamora que nunca gostou dos táxis socorria-se das boleias dos amigos, no seu dia à dia para exercer as suas actividades. Infelizmente a semana passada e porque precisava urgentemente de sair e como não havia nenhum amigo disponível por perto, acabou por apanhar o táxi que o conduziu brutalmente a um acidente mortal.

A história do Zamora é triste, mas existem outras engraçadas como a de um senhor que ficou estupefacto pelo facto de estar a viajar num táxi com a música extremamente baixa. Seguiu a sua viagem e no fim pagou a sua conta e em jeito de agradecimento disse: “menino muito obrigado por tocar a música assim bem baixa, você não é como os outros que tocam a música tão alta”. O jovem agradeceu e depois do “kota” descer e seguir o seu caminho, o jovem condutor ripostou num tom tipicamente nosso: “ Se o “kota” soubesse que esse é o máximo do ampara!!!”.

Tornou-se o pão meu de cada dia, acordar com os gritos do “É São Paulo, São Paulo”!!! assim como “É Roque, é Roque!!!! ou “FTU, FTU!!!”, ou então dos ruidosos “Kuduros” que sobressaem destas autênticas “discotecas móveis”.

É praticamente impossível na actual conjuntura imaginarmos as ruas de Luanda ou melhor de Angola sem o azul e branco que de um lado para o outro preenchem o nosso quotidiano. Assim como difícil torna-se imaginarmos o nosso desenvolvimento num futuro próximo sem os actuais “candongueiros”.

O Zamora tinha obviamente alguma razão quando considerou alguns taxistas de autênticos suicidas, mas não acertou quando disse que eles deviam ser abolidos ou que faziam mal a sociedade, porque apesar das estatísticas não nos dizerem exactamente, temos que reconhecer que o serviço de táxis contribui com uma percentagem animadora para o PIB angolano, para a diminuição da taxa de desemprego a nível nacional, que socialmente é benéfica e indispensável, que melhora as microeconomias de algumas famílias e através da taxa de circulação e do imposto do exercício da sua actividade que pagam ao estado contribuem para o orçamento geral do estado, logo proporciona receitas ao estado.

As estatísticas não nos dão valores, mas empiricamente sabemos que a taxa de mortes provocadas pelos taxistas que proliferam pelas estradas de Angola é muito elevada e cada vez mais vai se elevando. É inconcebível o ruído ensurdecedor que estes produzem no nosso dia a dia provocando outros distúrbios aos utentes, a falta de educação que os motoristas e cobradores evidenciam para com os utentes, a má condução bem patente com as violações constantes e descaradas das regras de trânsito, subidas aos passeios, os roubos e assaltos que determinados “pseudotaxistas” praticam mancham de alguma forma este serviço que nos dias de hoje é imprescindível para o quotidiano dos angolanos.

Reconhecida social e economicamente como importante, num país sem grandes alternativas a nível dos transportes públicos necessita de ser regulamentada. Na economia mista em que vivemos, em que dum lado temos o sector privado a contribuir para o bem estar nacional e do outro o estado com as suas funções de criação das regras de enquadramento, complemento e modificação do sistema de preços, redistribuição do rendimento e estabilização da economia, penso que peca e muito relativamente aos serviços que nos são prestados a nível dos transportes públicos. As vezes dá a impressão que o estado demarca-se do seu papel, que os órgãos de direito estão a perder uma certa criatividade, que o amor ao próximo está a desaparecer, que afinal, só funciona em Angola aquilo que dá o lucro imediato. É preciso ter em conta que vivemos numa sociedade com regras estabelecidas, numa economia de mercado em que o estado tem uma forte intervenção e tem a função de impor regras, porque se não caímos num autêntico “laissez-faire”, o que obviamente cria a situação de anarquia.

Os grandes transtornos que provocam no trânsito, a condução irresponsável evidenciada por alguns motoristas é preocupante e penso que é urgente a tomada de medidas por parte do governo ou da Associação Nacional dos Taxistas:

a) Penso que aqui como em qualquer parte do globo terrestre o exercício de actividades do domínio público exige um certo perfil do qual alguns motoristas não possuem.

b) Em muitos países, para se desempenhar a função de motorista de transportes públicos é necessário que se atinja uma certa idade e penso que entre nós poderíamos estabelecer a idade de 28 anos, por as pessoas nesta idade evidenciarem uma certa responsabilidade, ao passo que o que assistimos diariamente é lamentável com jovens de 17, 18 e 19 anos sem alguma noção de responsabilidade e com muita adrenalina no sangue a exercerem a função de taxistas.

c) Os táxis devem ser numerados na porta, pois assim torna-se fácil identifica-los sempre que algo hostil ocorra com os passageiros, pois tem-se notado ultimamente um crescendo de assaltos por parte dos taxistas que andam armados, apoderando-se assim dos bens dos passageiros, ou então chegam ao ponto de violar algumas passageiras. Em alguns casos põe-se em fuga mesmo quando provocam atropelamentos mortais ou acidentes com avultados danos.

d) A nossa sociedade está em plena reconstrução e penso que novas infraestruturas irão surgir. Logo é imperioso que se faça estradas largas e que nas novas se crie uma faixa própria para os transportes públicos permitindo assim aos taxistas que tenham uma faixa sua e que seja rápida.

e) Uma certa rigidez por parte da nossa policia, relativamente ao cumprimento das regras de trânsito por parte dos taxistas. É impressionante que haja tão poucas apreensões num país onde as violações das regras de trânsito vistos sem o auxilio dum microscópio atinjam percentagens tão altas.

f) Criação de paragens próprias para os taxistas recolherem ou descarregarem os seus passageiros. O que irá obviamente melhorar a fluidez do trânsito e evitar alguns desembaraços que se criam.

g) O estabelecimento de uma escolaridade obrigatória aos condutores. Os nossos táxis transportam estrangeiros que vêm em negócio e alguns em turismo. Em muitas situações eles acabam por ser o reflexo do caos em que se encontra a nossa sociedade, a nível cultural, mental e mesmo humano.

h) O estabelecimento dum limite máximo de passageiros, pois nota-se em alguns casos como eles giram completamente lotados pelas ruas de Luanda, sem cintos de segurança por parte dos passageiros.

i) Tomada de medidas relativamente a poluição sonora que esses provocam ou o controlo da taxa de álcool aos condutores. Muitos praticam a sua actividade acompanhados de garrafas de cerveja na mão o que é sintomático da irresponsabilidade reinante.

Penso que em termos gerais é necessário adaptar-se o mecanismo jurídico que regulamenta o funcionamento do transporte público em Angola à realidade actual duma Angola pôs colonial e com “candongueiros”, com normas e regras próprias. Não podemos continuar a morrer com tanta facilidade pois lá se vão os tempos da guerra. Temos que urgentemente entrar na outra era em que morrer seja algo de grave, em que a vida humana seja realmente valorizada e em que pequenos detalhes que a isto nos conduzem, sejam realmente tidos em conta.

É inadmissível a inconsequência que se nota relativamente à determinadas medidas que se tomam neste país. Já ouvi e vi muitas medidas serem tomadas à nível dos táxis assim como noutros sectores sem nenhuma continuidade, comissões criadas para ir avante com uma determinada intenção, sem resultados que se preze, enfim vamos agir senão muitos, acabaremos como o Zamora.

Artigo de Opinião assinado por Bo Kimble,
Bancário
 
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