«Apesar da crise a China possui recursos para ajudar Angola», Arnaldo Calado
07-11-2016 | Fonte: OPAÍS
Em entrevista exclusiva ao OPAÍS, o Presidente da Câmara de Comércio Angola/China garante que a China é um parceiro confiável e que, apesar da crise, dispõe de recursos para ajudar Angola a alavancar a economia em prol da sua diversificação. Arnaldo Calado deplora o excesso de burocracia que, segundo ele, desencoraja muitos investimentos e constitui uma barreira que precisa de ser removida com urgência.

Em seis meses de funcionamento da Câmara de Comércio Angola/China, o que aconteceu de lá para cá?

Durante este período estivemos a nos organizar, por isso, reservamos este tempo para falarmos. Legalizamos a Câmara e os seus estatutos, os órgãos de direcção e todos os outros documentos estão publicados em Diário da República. O segundo passo foi estudar a cultura chinesa, assim como nós transmitimos aos nossos parceiros quem somos. Vimos os pontos convergentes e os divergentes, pois eles existem.

Maximizamos os pontos convergentes para que possamos trabalhar como parceiros. Concluímos que Angola precisa de diversificar a sua economia e realizar investimentos. Tem carência financeira e precisa de recursos humanos qualificados. Entretanto, não conhecemos a língua chinesa. É a partir daí que começamos a trabalhar este tipo de problemas. Resultado de uma estratégia governamental, os chineses têm recursos para nos oferecer. Apesar da crise que também assola a sua economia, eles têm empresários privados com recursos que lhes permitem realizar investimentos em qualquer parte do mundo.

E o que é que nós, angolanos, devemos fazer para ter parceiros chineses credíveis?

Temos que investir na formação. É o que a Câmara tem feito nos últimos meses. Temos de saber quem é este parceiro, quer do lado angolano, quer do lado chinês. Os parceiros têm que nos oferecer confiança para serem considerados nossos sócios de facto.

Já agora, com quantos membros a Câmara conta na presente altura?

Os membros angolanos totalizam 480 e 180 empresas chinesas.

As empresas chinesas são de referência no país de origem?

Não. Sabe que este termo empresa de referência tem um sentido muito alargado. Por isso digo não. Refiro-me a grandes empresas… Percebi perfeitamente a sua pergunta. Deixe dizer-lhe que uma grande empresa de um terminado sector de actividade em Angola pode não ser considerada assim na África do Sul, por exemplo. O que lhe vou dizer agora não é consensual ao nível da direcção da Câmara: há colegas meus que defendem que só devíamos receber grandes empresas, no entanto, tenho ideia contrária. Devemos receber todas. Estaríamos a ter um quadro rotativo com as mesmas pessoas, pois temos poucas grandes empresas. Temos que receber as micro empresas. Aliás, temos de receber até aqueles que não tendo empresas têm ideias. Temos um departamento que trata disso. O nosso objectivo final é o negócio. E temos tido bons resultados.

Fruto da parceria com os chineses, que projectos existem?

Temos um projecto que está prestes a ser assinado através do qual os chineses propõem criar um laboratório para o sector da agricultura que vai tratar de sementes. Há sementes que produzem duas vezes por ano, e através desse laboratório poderão produzir 12 vezes. Não queremos avançar sem que antes criemos uma escola onde as pessoas, com realce para os agricultores, sejam formados para saberem mais sobre como usar este tipo de sementes, pois não queremos ter grandes quantidades de sementes armazenadas. Quando estivermos a fazer a fábrica ou laboratório, que é um processo rápido, vamos formar.

E quais são os produtos que passarão por este processo de transformação?

Todos, mas teremos de trabalhar com os departamentos ministeriais para que nos indiquem as prioridades. Se for o milho, vamos dar prioridade, se for a massambala, então vamos fazer. Acontece no próximo mês de Novembro (07-09) o Fórum Económico Angola/China.

Qual é a participação da Câmara na organização do evento?

Fazemos parte da equipa técnica coordenada pela Unidade Técnica para o Investimento Privado (UTIP), para a qual temos passado o nosso contributo diário para o sucesso deste fórum. No entanto, deixa dizer que a realização deste Fórum responde àquilo que já tínhamos preparado, que era a realização de dois eventos do género, portanto, um em Luanda, e outro em Changai, China, em datas diferentes. Com a organização deste fórum decidimos adiar o nosso que será realizado em Março de 2017, em Changai.

Quantas empresas chinesas são esperadas no Fórum Económico de Luanda?

Penso que não serão menos de 100 empresas. Mobilizamos os nossos parceiros para isso e já nos garantiram presença. As empresas angolanas estarão divididas por mesas sectorizadas. Haverá uma mesa da agricultura, da indústria, das minas, a da construção civil e de outros sectores. Os investidores terão apenas que se dirigir às mesas e escolher as áreas para investimento. Neste momento decorre o processo de inscrição e credenciamento, numa coordenação do ministro chefe da Casa Civil do Presidente da República.

Sente que há muita apetência por parte de empresários chineses em investir no país?

Há muita manifestação de interesse por parte de empresas chinesas.

Qual é a média diária de solicitações?

A média é de quatro empresas por dia. Em relação às áreas de investimento, são várias. O que os chines precisam é de investir seriamente fora da China e de ter um parceiro credível e controlável, que quando agenda um encontro chega dentro do tempo e que saiba atender os contactos de negócio. Em África, os chineses passaram por momentos difíceis, com parceiros que recebiam os passaportes e depois limitavam os seus passos. Eram sócios mas eram tratados como empregados. Isso amedrontou e descredibilizou a vinda de chineses ao continente. Em Angola já houve muitas dificuldades com supostos membros da Polícia, mas o quadro está a mudar para melhor. Estes indivíduos colocam a nação em causa. Mas agora os empresários chineses possuem, além dos documentos que os legalizam, um cartão da Câmara de Comércio, facto que reduziu drasticamente as interpelações sem motivo por parte de supostos agentes da Polícia e da fiscalização de outros departamentos ministeriais.

Os chineses têm áreas preferenciais para investir em Angola?

Não. Eles recebem as propostas dos empresários angolanos e vão escolhendo. Todavia, há chineses que querem investir na produção de medicamentos, barcos de pesca, máquinas para a agricultura, o sector minério, fábricas de máquinas de fotografia e de filmagem. Os parceiros angolanos estão limitados. Estão mais voltados para a agricultura, estradas, construção civil e obras públicas, assim como para o sector das pescas. São poucos os que estão ligados ao sector da indústria.

Exactamente para este sector que vai a minha próxima pergunta: a China é uma grande potência industrial. No entanto, não investe muito na indústria em Angola. O que se passa?

Faltam parceiros angolanos. Temos uma área na Câmara de Comércio que se chama “Indústria, Comércio e Serviços” que está a incentivar os jovens empresários que pretendem entrar para o sector da industrial. Todavia, temos algumas propostas na área metalomecânica, indústria de fertilização, na indústria de tecidos, propostas essas de angolanos e agora estamos à espera dos investidores chineses para estabelecermos parceria.

O petróleo continua a ser o elemento principal nas trocas comerciais entre Angola e a China. No entanto, o país tem muitas potencialidades. Acha que esta cooperação devia ser mais diversificada?

É preciso diversificar. Aliás, a baixa nos preços do petróleo aconselha-nos a isso. Mas se fizermos só agricultura podemos ter estabilidade, no entanto, dentro de alguns anos vamos ter crise outra vez. Com foco só na agricultura teremos excesso de produtos. Pronto, o excesso sempre se consegue vender, mas só se exporta se alguém quiser importar. Não podemos impor à Europa, por exemplo, para comprar a nossa Banana. É evidente que é um mercado que consome bem, mas temos que estar atentos a isso, precisamos de equilibrar as coisas. Precisamos de ter um sector agrícola robusto, isso é verdade, assim como precisamos de ter os sectores das pescas e da indústria fortes.

E qual é o papel que o parceiro chinês pode jogar no processo de industrialização de Angola?

Ao nível da Câmara de Comércio Angola/China, temos dois projecto chamados “Projectos de cadeia”, onde tudo começa no laboratório de sementes de que já lhe falei há pouco, que vai dar origem à construção de uma fábrica para cada produto. Portanto, vamos construir uma fábrica para a transformação do tomate, da banana e de outros produtos. É daí que vão aparecer as embalagens para a comercialização no campo, fundamentalmente nas províncias do interior, pois é lá que mais se desenvolve agricultura em grande escala. Em relação às embalagens, prevemos que haverá excesso e estaremos assim em condições de exportar sacos, latas e outros recipientes para produtos alimentares. Com um só produto vamos criar várias empresas em cadeia.

Disse que recebem quatro empresas por dia. Qual é o volume de investimentos esperado até ao fim do ano?

É difícil prever. Temos casos muito diferentes um do outro. Por exemplo, temos um projecto de um membro que tem seis edifícios (prédios) em construção que não os consegue concluir por falta de financiamento. Estamos a negociar com o parceiro chines um valor. Esse nosso membro tem outros seis projectos no papel. Deste modo, o financiamento vai superar o inicial, o que nos dificulta quantificá-lo. Estamos a fazer um esforço para que os investimentos com parcerias chinesas sejam sempre crescentes e vamos sempre encontrar parceiros.

A China é vista como país amigo de Angola, financiando vários projectos do Estado e de iniciativa privada. No entanto, tem havido quebras. Em Outubro de 2015 caíram 43% e em Março deste ano voltaram a cair…

Elas podem estabilizar. Como lhe disse inicialmente, a crise económica e financeira mundial também se abateu sobre a economia da China. E isso pesou na perspectiva que tínhamos antes. Como eles têm uma economia robusta e dizem que os investimentos feitos este ano são superiores e são sustentáveis até 2025, temos a certeza de que as nossas relações vão continuar a subir. Não sendo a única porta aberta, o parceiro chinês continua a ser confiável. É o melhor parceiro.

A China hoje é o melhor parceiro. Entretanto, existem outros potenciais parceiros que se queixam da burocracia. Como podemos ultrapassar este excesso?

Infelizmente ainda temos graves problemas de burocracia que impedem novos investimentos no país. Os níveis de burocracia são assustadores. Temos documentos que estão em departamentos ministeriais em que o titular diz que está pronto. No entanto, ficamos um mês em busca do documento e não apareceu. O que se passa aqui é que não temos noção de quanto vale um investimento. Por exemplo, há países que pagam para os investidores se instalarem e nós estamos a fazer o contrário. Como diz o camarada Norberto Garcia, o investidor precisa de ser levado ao colo. Trata- se de documento simples e de pessoas que querem fazer coisas para o país.

Inclusive criar empregos…

É isso. E estão indivíduos a criar entraves por culpa de interesses pessoais. Há burocracia excessiva e sem sentido. A fiscalização excessiva é outro problema. Confesso que ainda não passei um dia sem que receba telefonemas de parceiros chineses que estão a ser importunados por fiscais do Ministério X ou Y. Tenho dúvidas que sejam todos fiscais de facto. Por isso, a palavra fiscalização tornou-se um terror para os chineses. E quando é de mais muitos deles abandonam-nos e partem para outras paragens. Quando tomamos posse, tínhamos o dobro das casas chinesas que temos hoje. Hoje temos metade.
 
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