Interpretação cultural do debate político
08-11-2016 | Fonte: Jornal de Angola
O êxito dos debates entre o Embaixador Itinerante, António Luvualu de Carvalho, José Eduardo Agualusa, escritor, e João Soares, antigo Ministro da Cultura de Portugal, embora tivessem como objecto fulcral a política, podem ser interpretados na óptica da valorização positiva dos aspectos civilizacionais da cultura angolana e portuguesa, abrindo uma sóbria janela rumo ao progresso, melhor compreensão e conhecimento da alma dos dois povos. Podemos apontar a arte retórica, referimo-nos à eloquência e sequência discursiva, preparação documental e bibliográfica, com recurso a uma publicação que foi decisiva sobre a desigualdade em Portugal, gestão dos silêncios e impacto psicológico da serenidade em relação ao interlocutor, como factores essenciais que contribuíram para o estrondoso sucesso dos debates televisivos na RTP, entre o Embaixador Itinerante, António Luvualu de Carvalho versus José Eduardo Agualusa e João Soares, duas figuras da cultura e da política portuguesa, respectivamente, que, pelo menos em teoria e na aparência, deveriam possuir ou têm mais experiência nos seus respectivos domínios profissionais,  se compararmos à incipiente carreira académica do Embaixador Itinerante.
 
Importa referir que, introduzindo uma breve reflexão teórica, a narração, segundo estudos narratológicos consagrados, é o cruzamento entre plano da história e o plano do discurso, sendo o primeiro o da história ou tema, propriamente dito, e o segundo, o modo como o referido discurso é pronunciado, ou seja, o estilo que, segundo Buffon, 1707-1788, naturalista, matemático e escritor francês,“é o homem”. 
 
Neste atalho de análise, diríamos então que a estatura intelectuale a personalidade cultural de António Luvualu de Carvalho, ou seja o seu estilo, resultante do sucesso académico,  influências da educação familiar, círculo de amigos, incluindo o contacto com altas figuras da elite política angolana, diga-se de passagem do MPLA, têm tido um papel fulgurante e de suma importância no alcance informativo,  e efeito pedagógicodas suas intervenções e debates, em suma, no sucesso da sua jovem carreira política.    
 
Serenidade 
 
A par das qualidades mencionadas, que se nos afiguram não menores, o efeito psicológico da serenidade e simplicidade da linguagem, entendida como sendo “o controlo da complexidade linguística”, foram dois aspectos revelados pelo embaixador António Luvualu de Carvalho, durante os dois debates em análise. 
 
Mesmo nos momentos de maior tensão em situações que seriam normais uma alteração do humor e do coeficiente de serenidade, António Luvualu de Carvalho controlou de forma serena o leme dos debates, do início ao desfecho. Vejamos o exemplo que segue de um dos momentos altos do debate com João Soares: “O senhor quer que o MPLA perca as eleições mas o povo angolano não quer”, disse a dado passo o Embaixador Itinerante associando o MPLA, numa clássica estratégia retórica, ao povo angolano, cuja extensão interpretativa dá-nos a liberdade de considerar o MPLA como sendo uma das dimensões privilegiadas da cultura angolana.
 
Retórica 
 
Sabe-se que a retórica enquanto domínio relacionado com a oratória e dialéctica, remete para um grupo de normas que fazem com que um orador comunique com eloquência. António Luvualu de Carvalho percebeu que a retórica tem como objetivo expressar ideias de forma mais eficaz, simples, bela, e, sobretudo, persuasiva. A retórica corresponde à formulação de um pensamento através da fala e por isso depende em grande parte da capacidade mental do orador. O acto de convencer por palavras pode ser praticado, por isso é que António Luvualu de Carvalho apresenta-se cada vez melhor em cada debate.  A retórica era ensinada em várias escolas da Antiguidade Clássica Grega, conhecemos os casos de Demóstenes e Cícero, oradores e mestres da arte retórica que abordavam a retórica nos seus diferentes estilos, e alteravam os seus mecanismos retóricos,  dependendo da tipologia  do discurso.
 
Divisões
 
Importa reter que a discursividade de António Luvualu de Carvalho respondeu com evidente coerência as divisões clássicas das  cinco partes essenciais da arte retórica aristotélica, a saber a  invenção, entendida como sendo o conjunto e domínio de todos os princípios relacionados com o conteúdo, a disposição, que corresponde à estruturação das formas dos conteúdos, a elocução, expressão do conteúdo de acordo com o estilo apropriado, a fixação, que consiste na memorização do discurso em questão, neste capítulo o Embaixador revelou possuir uma visão retrospectiva e prospectiva da história de Angola, e, por  último a acção, ou seja, o  acto de proferir o discurso propriamente dito. 
 
Livros
 
Embora possua uma carreira muito jovem, António Luvualu de Carvalho já publicou os seguintes livros: “Economia e petróleo de Angola nos últimos oito anos", 2011, “A nova política externa de angola no contexto internacional”, obra colectiva, 2012, “União Africana, quo vadis?”, 2013, uma obra que questiona algumas ocorrências em África, como a intervenção da OTAN na Líbia, a detenção do presidente ivoiriense Laurent Gbagbo, e, entre outras questões a intervenção, francesa no norte do Mali, e “Angola, actor maior da pacificação e da manutenção da paz em África”, 2015, livro traduzido em francês. 
 
Presidente
 
O prestigiado papel desempenhado pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, na criação e manutenção das zonas de paz em África, de autor de um modelo de pacificação exemplar em Angola, exportado para outras regiões do continente, e da função relevante na diplomacia angolana no processo de pacificação da região Central e Austral do continente Africano, são aspectos da política externa angolana descritos no livro “Angola, actor maior da pacificação e da manutenção da paz em África”. Nesta obra são ainda descritos, de forma pormenorizada e exemplar, os mecanismos de paz da União Africana, das Organizações de Integração Regional,  e analisados os principais conflitos em África, incluindo o recrudescimento do terrorismo em certas regiões do continente e o papel dos parceiros internacionais angolanos, em África. O livro possui 204 páginas, divididas em quatro capítulos, e foi apresentado em Paris, França, pelo Embaixador e prestigiado Professor, António Martins da Cruz, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. 
 
Formação
 
Filho de Euclides Manuel de Carvalho e de Godelive Luvualu, António Luvualu de Carvalho nasceu em Minsk, Bielorrússia, onde os pais eram estudantes, na época da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), onde fez a instrução primária. Esteve sempre dividido entre Luanda, Moscovo, Minsk e Yarkov, na Ucrânia.
 
 Em 1994 regressou definitivamente a Angola com a mãe e fixaram residência na província da Huíla, onde frequentou a Escola Mandume e André Mufaio, e depois a Escola Portuguesa do Lubango. Licenciou-se em Relações Internacionais pela ULA, Universidade Lusíada de Angola. Em 2005, quando frequentava o terceiro ano do curso, foi seleccionado como monitor. António Luvualu de Carvalho passou pelo Centro Desportivo e Cultural da ULA. 
 
Em 2008, partiu com destino a Portugal para fazer o Mestrado, regressando dois anos depois a Luanda, após a defesa da dissertação sobre “Angola, Economia e Petróleo, 2002-2010”, tema que deu título ao seu primeiro livro. Entretanto, assumiu o cargo de coordenador do curso de Relações Internacionais na ULA e Director do Gabinete do Centro de Estudos de Investigação Científica e pós-graduações.  António Luvualu de Carvalho é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e director do Gabinete de Cooperação e Relações Institucionais da ULA. Foi convidado pela Universidade Lusíada de Lisboa para leccionar no âmbito de uma Pós-graduação Euro-afro-americana, e mantém a colaboração com esta instituição de investigação científica portuguesa. António Luvualu de Carvalho é, para além de Embaixador Itinerante, um dos mais conceituados comentaristas políticos angolanos. 
 
Diploma
 
António Luvualu de Carvalho recebeu no dia 27 Julho de 2012 o diploma de mérito por aproveitamento excepcional, um reconhecimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, e frequentou o doutoramento em Relações Internacionais na Universidade Lusíada de Lisboa, tendo recebido uma das mais altas distinções académicas de Portugal, que é o “Diploma de bolsa de estudo por mérito” atribuído em Junho de 2009 pelo referido Ministério. A distinção de mérito é relativa ao seu aproveitamento excepcional no ano lectivo de 2009 a 2010 quando fez a parte curricular do mestrado em Relações Internacionais na Universidade Lusíada de Lisboa, que terminou com Distinção e defendeu a tese com “Magna Cum Laude”, com Grande Honra, muito bom com louvor, facto que valeu o convite directo para o Doutoramento. António Luvualu de Carvalho recebeu este prestigiado diploma das mãos do professor doutor António Martins da Cruz, chanceler das Universidades Lusíada de Lisboa, Porto e Vila Nova de Famalicão.
 
Recursos documentais do Embaixador
 
Para além de bem documentado e informado sobre as ocorrências mais recentes do xadrez político angolano, António Luvualu de Carvalho tem levado aos debates dados estatísticos sobre a evolução da educação e da saúde, e sobre a funcionalidade das  ONG’S, cujas informações veiculadas, segundo o Embaixador Itinerante , “são muitas vezes deturpadas”. 
 
No entanto o recurso ao livro “Os números da desigualdade em Portugal, os ricos estão mesmo a ficar mais ricos e os pobres cada vez mais pobres”do economista português, Eugénio Rosa, uma obra desconhecida por muitos, foi fundamental para o êxito do debate com João Soares. “Em Portugal, segundo podemos ler na sinopse do livro, 10% dos mais ricos detêm quase 60% de toda a riqueza do país. E continuam a enriquecer de ano para ano. Do outro lado da barricada, os pobres estão cada vez mais pobres e a classe média perdeu grande parte do seu poder de compra. Estamos a construir uma sociedade cada vez mais desigual, com tudo o que de negativo isso implica: aumento da tensão social à diminuição do crescimento económico. 
 
A crise agravou as desigualdades numa dimensão que escapa ao olhar distraído. Mas os números recolhidos pelo economista Eugénio Rosa são claros. O autor compilou e analisou, em várias áreas, mais de meio século de dados. E deu relevo aos anos da Troika - período em que a diferença entre ricos e pobres mais se extremou. As conclusões são chocantes. Ao analisar a riqueza sob diferentes ângulos, o autor descobre desigualdades escondidas. Se observarmos à lupa a mais-valia criada pelos trabalhadores, a propriedade financeira ou patrimonial, ou ainda quem paga ou não impostos, começamos a perceber melhor a real dimensão da desigualdade. Eugénio Rosa apresenta todos os números e analisa-os à luz do pensamento de economistas como Carlos Farinha, Joseph Stiglitz, Mark Blyth ou Thomas Piketty. E conclui que a desigualdade na distribuição de riqueza e rendimentos é um dos maiores travões ao crescimento económico de Portugal”.
 
 
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