"O jovem angolano tem aspectos que precisam de ser melhorados"
05-02-2017 | Fonte: Mercado
Considera-semetódico, recto e frontal, embora confesse  não ter o dom da palavra, talvez por ter perdido o contacto com a língua materna ainda na meninice. Ainda assim, esse facto não foi um empecilho para a entrevista.  Aos 30 anos, o entrevistado admite ter crescido profissionalmente mais rápido do que alguma vez previra.

Formado em Física Nuclear, Akiules Neto tem vindo a conquistar,com muita dedicação e esforço, o seu lugar no mercado financeiro angolano, assim o diz. Natural de Luanda, Akiules foi uma criança caseira e de poucas amizades. Juntamente com os três irmãos mais novos, criava as próprias brincadeiras dentro de casa, o que o faz concluir que teve uma infância sossegada e rodeada de bons valores. 
 
Filho de um teólogo, guarda boas memórias do oitavo aniversário, a primeira grande festa que presenciou. Aos 9 anos, Akiules e os irmãos foram enviados para Groningen, no Norte da Holanda, para obterem uma melhor formação.  Concluiu todos os ciclos académicos, e aos 17 anos ingressa na Universidade Técnica de Delft, cidade da região oeste da Holanda. Faz Física Aplicada, “porque tinha inclinação por coisas exactas e concretas, sem deixar de parte a atracção pelos números”. O antigo professor de Física do ensino médio também foi seu inspirador. Os seus ensinamentos fizeram com que ganhasse paixão pela disciplina. “Era uma pessoa excelente. Tinha dois graus de PhD, dois mestrados em Neurociência, Biologia e Física. Percorria 110 dos 380 km de norte a sul da Holanda para ir dar aulas a um bando de crianças”, recorda. 
 
Entretanto, Akiules Neto não parou quando obteve a licenciatura.. Física Nuclear também foi a opção de mestrado, ainda na Ho- landa. O doutoramento PhD foi em Física Nuclear Plasma, feito na Suíça, no CERN – Centro Europeu de Pesquisa Nuclear – conhecido por ter um famoso acelerador de partículas. 
 
“Foi muito satisfatório estudar naquela universidade, onde tive a oportunidade de conviver com a elite dos melhores cientistas do mundo”, revela. Nesta instituição, viveu durante 10 meses para escrever a tese de doutoramento. Em 2011, termina, e logo depois conta ter sentido a necessidade de fazer algo para além daquilo que já fazia. “Desejava ser mais do que um recém-licenciado ou doutorado. Comecei a acompanhar alguns serviços no centro de pesquisa da faculdade de Delft. Foi aí que nasceu a vontade de voltar para Angola”, ressalta. 
 
Sublinha que os primeiros meses serviram para conhecer o País, ganhar afinidade com as raízes e conhecer algumas províncias. Observaqueumdosmaioresdesafiosqueenfrentouaoretornar ao País foi a adaptação ao clima, ao trabalho e ao cumprimento de horários. 
 
Sector petrolífero vs. Financeiro
 
Depois de um período de reencontro com a terra natal, Akiules Neto começa a trabalhar para a Halliburton Oil Company, uma multinacional norte-americana do sector petrolífero, como engenheiro de campo, onde fazia rotação e trabalhava 28/28 fazendo offshore. 
 
“Optei por começar a trabalhar numa petrolífera multinacional por ser a actividade que mais se parecia com as empresas com que já estava familiarizado”, frisa.  Explica que foi no decorrer de uma formação com o guru em datas e dados Dave Wallis que surgiu a oportunidade de dirigir o departamento de inteligência do mercado.  Passa, depois, alguns meses nos Estados Unidos da América, onde se forma em empreendedorismo, por intermédio do programa Young African Leaders Initiative, financiado e promovido pelo ex-presidente americano Barack Obama. 
 
Vivida a experiência, Akiules regressa a Angola, ainda como trabalhador da Halliburton. Durante uma apresentação sobre como quantificar o mercado petrolífero – as nossas reservas no contexto mundial – teve contacto com o sector financeiro nacional, sendo convidado a integrar os quadros da Comissão do Mercado de Ca- pitais (CMC), em 2014.  Como físico, nada percebia do mundo financeiro, o que significa que tinha a obrigação estudar todos os dias para perceber os desafios do sector financeiro. 
 
Segundo explica, na CMC os desafios eram muitos. “Estávamos numa fase de crescimento, mas, como tinha tempo, energia e vontade, as coisas correram muito bem”, confessa. Em Outubro de 2016, entra para o conselho de administração da BODIVA, exercendo as funções de administrador executivo, focando-se essencialmente no mercado de bolsa. 
 
Enquanto esteve na CMC, Akiules Neto, para melhor familiarizar-se com o sector, inscreve-se na CFA Institute, o meetbook das finanças, a escola de referência da Associação Internacional dos Analistas Financeiros. 
 
“É o mais elevado curso financeiro e, como desafio, precisava de algo para servir-me de incentivo. Foram mais de 300 horas por ano, e tudo correu como pretendido”, afirma.  Sente-se agradecido e lisonjeado pelo desafio de assumir um cargo de grande responsabilidade, e pela inerente manifestação de confiança, principalmentepornãotertidoderaizumbackground ligado ao sector financeiro. 
 
“Sinto-me certamente desafiado e espero poder fazer parte da história do mercado financeiro de Angola, ma s ainda temos muito trabalho pela frente”, adiantou. 
 
Reflexão sobre a juventude 
No que tange ao desenvolvimento profissional dos jovens, Akiules Neto é de opinião que “o jovem angolano tem aspectos que precisam de ser melhorados, mas, simultaneamente, há que reconhecer que o País dispõe de bons quadros”.  Dá o exemplo de um amigo seu que sempre o surpreendeu com a sua inteligência. “Julgava ter feito os estudos fora do País, e por ele soube que na realidade fez formação em Angola.” 
 
Isso para dizer que, “mesmo quando o País pouco ou nada tinha para oferecer aos seus filhos, houve jovens que souberam aprovei- tar as escassas oportunidades postas à sua disposição e que hoje conseguemdestacar-seporteremaprendidoaimplementarcoisas espectaculares”. 
 
 
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