Comida rápida cresce na capital
09-02-2017 | Fonte: Jornal de Angola
Mulheres e adolescentes de ambos os sexos percorrem Luanda em busca de clientes.

Se antes eram apenas guloseimas, com destaque para os “quitutes” da terra, hoje proliferam na cidade os vendedores de lanches rápidos. Bolos e salgados são carregados, sobretudo, à cabeça. Caixas de plástico com tampa substituem as velhas bacias cobertas com um pano.

Se, noutros tempos, poetas e cantores trouxeram para a ribalta o pregão da Avó Ximinha, que desafiava o reumatismo para “rasgar estradinhas” no areal a vender o seu “makezú”, os novos tempos impõem outros meios e a escolha de locais de maior frequência.

Além dos bairros e paragens de táxi, os vendedores escolhem hospitais, escolas e universidades. Para cumprir as actuais normas relativas ao comércio ambulante ou apenas ludibriar os fiscais, muitos vendedores usam o porta-bagagens dos carros para transportar as refeições e é a partir daí que procedem à comercialização. O serviço torna-se ainda mais personalizado, ao registarem-se entregas ao domicílio. A venda de refeições exige muitos cuidados na higiene e confecção, de modo a evitar males para a saúde dos clientes. Mas também na apresentação. Embora muitos ainda escamoteiem esse elemento, é um aspecto a ter cada vez mais em conta devido à concorrência. Afinal, o objectivo é vender cada vez mais.

A maioria diz não existirem muitos segredos para começar um negócio deste tipo, mas é sempre importante possuir boas ideias e escolher um bom local de vendas, com privilégio para aquele onde há um considerável fluxo de pessoas. Para as entregas ao domicílio e em empresas, é importante ter e cultivar uma boa agenda de contactos, com a ajuda, algumas vazes, de verdadeiras acções de relações públicas.

Entregas ao domicílio

Alguns vendedores contentam-se com a venda de produtos simples, sejam rebuçados ou gelados, mas as operações ganham corpo com confecções mais elaboradas, como os doces vários, em que se misturam ingredientes e sabores, sobem em grau de empenho com as comidas para servir quentes, desde as “magogas” aos hambúrgueres e cachorros quentes e atingem outros patamares nas refeições mais substantivas, em que se juntam conduto e acompanhantes.

Existe quem fique pelos pastéis e rissóis vendidos em pontos-chave, como a Mutamba, as paragens de autocarros e candongueiros, estações de comboios e entradas de mercados, mas há quem alargue os negócios e ataque as festas e ventos similares, para onde fornece o mais diverso tipo de produtos alimentares, desde sandes a fritos e saladas.

Há sete meses, Maria Gaspar adaptou o porta-bagagens do carro para a venda de produtos na zona do Porto de Luanda. Vende pastéis fritos, coxinhas de frango, empadas, pregos no pão e alguns doces. Para as bebidas, diz ser importante ter uma boa selecção.

A vendedora diz que, para entrar neste tipo de negócio, ou se cozinha ou se compra já feito. “Quando a produção é feita em casa, o lucro chega a ser maior, mas é preciso ter muita força de vontade para manter os horários e garantir a quantidade e qualidade”, refere.

Todo o bom negócio precisa de divulgação. “Para as pessoas saberem que existimos, às vezes basta montar uma barraca, mas tudo depende do lugar”, disse. Os centros comerciais são dos poucos lugares onde a procura é grande e o vendedor não precisa de tanta divulgação. O uso de alto-falantes também é um bom método para atrair clientes.

As vendedoras que preferem revender consideram melhor esse método por não terem de contar com o tempo de produção. No mercado luandense existem vários fornecedores que vendem, em média, três salgadinhos por cem kwanzas. A revenda fica por 50 ou 70 por cada unidade. Com um lote de sete ou 1.000 unidades, chegam a obter 2.000 kwanzas de lucro. Para eles, esse é o melhor método de fazer o negócio.

Doces mais baratos

Os doces são mais baratos que os salgados. Um tabuleiro de 34 bolos pode custar 900 kwanzas nalguns locais. No bairro do Kikolo, há uma senegalesa a quem algumas vendedoras angolanas preferem comprar. Gastam 2.700 kwanzas por dia para encherem os recipientes.

Este tipo de negócio é considerado dos mais baratos, a começar pela montagem das bancas de venda ou pelo processo ambulante. Os lucros são rápidos e mantêm um fluxo constante. Nalgumas efemérides e ocasiões festivais, o lucro pode mesmo triplicar.

Madalena Faria tem como fornecedora a própria filha. “Quem faz o negócio é a minha filha. Eu compro para revender. Faço isso há sete meses. É também uma forma de a ajudar e incentivar”, sublinhou. Além de vender, publicita o nome e habilidades da filha, para obter novos clientes.

Negócio instável

Donos e gestores de restaurantes dizem não sentir grandes dificuldades devido à actividade das vendedoras. Para eles, o mais importante está na qualidade e apresentação do produto. Às vezes, elas são obrigadas a manter certa distância, a uns 20 metros dos estabelecimentos, para evitar a concorrência desleal. Fazem o mesmo entre elas. Nalgumas ocasiões, preferem circular em duplas. Uma leva os bolos e a outra os salgados.

Elsa Paulo, 17 anos, prefere “zungar” pelas ruas da capital. Com um cesto de bebidas à cabeça, diz não ter dificuldades para vender. Sem se intimidar com outros vendedores, considera importante angariar novos fregueses e manter a clientela. “Não recebo negócio para revender. Comecei com 5.000 kwanzas. Hoje, trabalho com 20.000 para comprar gasosa de várias marcas e água mineral para revender”, afirmou.

O negócio não atrai apenas mulheres. Todos os dias, António da Silva, 20 anos, leva à cabeça um cesto com várias marcas de refrigerante e água. Fá-lo há seis meses. Vende na Baixa da cidade. Começa a actividade a partir das 10 horas e tem como locais preferidos as paragens de táxis colectivos e outros pontos de aglomeração. O vendedor recarrega a mercadoria três vezes ao dia. Por semana, recebe 6.000 kwanzas dos fornecedores. Um facto que chama a atenção é, entretanto, a fraca durabilidade do negócio. A maioria dos vendedores entrevistados diz estar no ramo há apenas meio ano ou pouco mais.
 
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