Precisamos urgentemente de uma conta Bancária Selecção
20-06-2005 | Fonte:
Iniciei o fim de semana a viver com muita expectativa o início do jogo contra a Nigéria e acabei-o praticamente agarrado à rádio e a ouvir com muita atenção o pós jogo, que praticamente, lança-nos para o CAN e abre boas esperanças para, pela primeira vez na nossa história como nação, participarmos num campeonato do mundo.

O futebol é sem sombra de dúvidas o desporto rei. Aquele que movimenta multidões. Nos dias que correm é uma autêntica indústria desportiva que transacciona milhões de activos quer físicos e financeiros e tem um forte impacte macro-económico. O futebol é, acima de tudo, um veículo de união entre povos, independentemente das ideologias politicas que caracterizam cada um de nós, a cor partidária, os problemas sociais que enfrentamos no dia-a-dia, a religião que professamos. Os seus sujeitos são hoje uns autênticos heróis, que são idolatrados e acarinhados por todos, nos locais em que se deslocam ou onde o futebol chega através dos Mídia. Muitos desses heróis têm no futebol a única forma de sobrevivência, se bem que às vezes por um muito curto espaço de tempo.

Nas entrevistas que houve antes e depois da partida contra a Nigéria e em muitos jogos anteriores notava-se que saltava muito à vista o pedido de “apoio” ou “carinho” por parte dos integrantes da selecção nacional. O termo “apoio” ou “carinho”, pode obviamente ser interpretado de várias formas, mas dadas as vicissitudes em que vivemos, à realidade nacional que todos nós conhecemos, e aos outros factores de ordem cultural, macro e microeconómico e a própria natureza do homem, penso que devemos interpretar essa forma de “apoio” ou “carinho” como um pedido de ajuda financeira ao governo, aos empresários e a toda a sociedade civil, do incremento dos activos que são canalizados em prol da selecção nacional.

Mesmo que quando entrevistados os jogadores não queiram admitir, mesmo que os dirigentes da Federação digam que não há prémios em atraso para com os jogadores, nós obviamente que não somos ingénuos e conhecemos a nossa realidade. O velho discurso de John Kennedy quando afirmava que as pessoas não deveriam questionar o que é que a América já tinha feito por eles, mas sim, o que é que eles já tinham feito por América, acaba por se enquadrar neste cenário em que a selecção está à espera de saber o que é que nós podemos fazer por ela.

Os resultados não vêm por mero acaso, a nível do desporto, normalmente, só obtemos bons resultados quando temos habilidade para tal, muita vontade, espírito de sacrifício, organização, mas acima de tudo uma boa saúde financeira. O Chelsea, o AC Milão, o Real Madrid, o Manchester United são disso um exemplo. Já em conversas com um antigo jogador da selecção, antes de um jogo contra os Camarões, fez uma comparação entre os prémios de jogo que tinham sido atribuídos a um jogador camaronês e aquele que lhe tinha sido prometido pela FAF, ele próprio admitiu que a diferença era tão abismal que psicologicamente já estava derrotado antes de entrar para o campo.

A ida ao Mundial de futebol por parte da Selecção Nacional, significará muito para o mundo desportivo, cultural, económico, financeiro e politico angolano e internacional. Será acima de tudo uma forma de afirmação no contexto das nações. Iremos provar ao mundo que afinal era mesmo a guerra que travava o nosso desenvolvimento, que afinal temos lugares cativos em todos os eventos de cariz internacional, que éramos na realidade um gigante adormecido que está a emergir, que afinal não somos aquele povo triste e “marburguento” que a própria FIFA pretendia fazer crer, que os nossos burocratas e tecnocratas não são os tão propalados corruptos e incompetentes como vem estampado, às vezes, na imprensa internacional e mais, que o seleccionador é angolano.

O próximo ano, se tudo correr como planeado, se não surgirem “tsunamies” de várias índoles, iremos a votos, e penso que será sem sombra de dúvidas o nosso ano de afirmação, teremos três grande festas (eleições, CAN e Copa do Mundo) e os partidos políticos poderão muito bem tirar proveito disso, com manifestações de “apoio” e “carinho” à selecção.

Ir ao Mundial é uma forma de promoção do país, é fazer marketing. Não é por acaso que outros países lutam p’ra lá estar, e retira-se disso dividendos económicos, financeiros e políticos. Lembram-se dos dividendos políticos que o presidente Chirac tirou aquando da vitória da França no campeonato do mundo, e como a nação francesa ficou mais unida com a vitória?

E ainda há mais, o CAN e a Copa do Mundo são, acima de tudo, mercados ou montras onde os futebolistas interagem com os empresários e as equipas de futebol, para interpretarem a lei da procura e da oferta que proporciona o preço de equilíbrio. Esse preço de equilíbrio irá obviamente ser benéfico para a balança de pagamentos de Angola através das remessas.

Os futebolistas participam em causas sociais e as vindas de Luís Figo e Ronaldo “O fenómeno” ao nosso país são disso um exemplo, para não falarmos em Georges Weah e outros. Penso que nós também podemos ajudar a formar os nossos craques para serem idolatrados à nível mundial e participarem em causas do género.

Nós os da sociedade civil, os “less known”, devemos também apoiar, penso que o tal “apoio” e “carinho” não é só dever do governo, que já tem em si a responsabilidade de gizar várias politicas para o país, não pode só ser atribuído ao ministério da Juventude e Desportos, penso que o apoio deve partir de todos, do governo central, dos governos provinciais, dos empresários, dos cidadãos comuns, enfim, de todos aqueles que acham que estão em condições sociais, psicológicas, geográficas e económicas de apoiar os nossos palancas. Que tal, se a Federação de Futebol lançasse uma campanha “Conta Selecção”em que fossem abertas contas bancárias a serem geridas pela FAF em todos os bancos comerciais de Angola no sentido dos adeptos do futebol e da selecção depositarem pelo menos um dólar cada um? Num universo de 12 milhões de angolanos, uma percentagem considerável é adepta do futebol e com capacidade financeira para o efeito.

É óbvio que pretendemos que haja transparência na gestão desta conta, honestidade, seriedade e espírito de responsabilidade por parte dos dirigentes, e a nível dos bancos existem mecanismos que nos permitem acautelar, relativamente à gestão destes activos para se evitar alguns dissabores.

Por mais que alguns nos tratem com algum desdém, digam que temos graves problemas de governação, que não existe democracia no nosso país, que existe corrupção, guerra, Marburg, e outras conotações pouco ortodoxas, o certo é que se a selecção for ao mundial, todos aqueles amigos que temos no estrangeiro irão rever-nos nesta selecção, irão sempre dizer, olha o país do fulano está no mundial e terão muito orgulho de nós.

Os jogadores têm que ser bem “acarinhados”, “apoiados”, recompensados e incentivados para honrarem e defenderem com determinação a bandeira e o bom nome de Angola. Se o apuramento para a Copa do Mundo for uma realidade, iremos todos à rua fazer passeatas, (os oportunistas tentarão tirar disto os vários tipos de dividendos possíveis), veremos várias bandeiras, várias fotografias, mas seria bom que tivéssemos em condições de responder de uma forma positiva à seguinte questão: o que é que nós fizemos em prol dos Palancas Negras?

Artigo de Opinião assinado por Bo Kimble
Bancário
 
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