“Conheço demasiado a política congolesa para ser completamente otimista”
17-04-2017 | Fonte: Jeune Afrique / África 21
Numa longa entrevista dada em Londres, no final de janeiro a dois jornalistas do semanário francófono Jeune Afrique, Sindika Dokolo, dono da Fundação homónima, empresário e colecionador de arte africana, marido e sócio de Isabel dos Santos fala, entre muitas outras coisas, da crise política na República Democrática do Congo,
o seu país natal. Publicamos alguns excertos.
 
 
JEUNE AFRIQUE. O seu pai era um homem de negócios e um colecionador de arte. Situa-se na continuidade da sua obra?
 
 Sindika Dokolo. O meu pai tinha a chama criadora. Levantava-se às 4 da manhã para visitar os estaleiros, pensava, projetava o tempo todo. O seu percurso, bastante único na RDC, não é su ciente- mente reconhecido. Foi o primeiro África- no a criar um banco, era o arquiteto de uma visão africana no domínio dos negócios como na sua vida. O seu engajamento nas artes estava ligado a esta visão e herdei esse legado. É o que inspira a forma como assumo a minha responsabilidade social, os meus interesses económicos, os meus projetos.
 
 Nos negócios o exemplo do seu pai continua a ser essencial?
 
Sim. Tinha uma força que só encontrei em algumas pessoas. Na minha mulher, que é um verdadeiro génio criador, um fogo que não se apaga nunca. No homem de negócios Moise Katumbi, que encara todos os desafios em termos de possibilidades, e  nunca como perigo, e que não procura a sua segurança no olhar dos outros. Se estas pessoas fossem abandonadas numa ilha deserta descobrir-se-ia, três anos mais tar- de, que teriam construído algo fantástico com os meios disponíveis. Não reivindico esta qualidade, mas situa o meu nível de exigência, para tentar ser um construtor e mudar o que me rodeia. África precisa de jovens inspirados que encarem o futuro com garra.
 
 Moise Katumbi pertence a esta classe?
 
 Sim. Começou por transportar caixotes na câmara frigorífica do irmão. É alguém verdadeiro, com os pés no chão e o sentido da realidade. Tem esta disposição sadia que consiste em colocar um tijolo sobre o outro para montar um muro bem apruma- do. E conseguiu transpô-la para o campo da política. Não sou catanguês, nunca vivi no Katanga, mas visitei esta província antes e depois [de Katumbi ser governador] e sei que é mais provável ganhar a lotaria que desenvolver uma província por acaso...
 
 Viveu o fim do reino de Mobutu Sesse Seko. Vê semelhanças entre essa época e a situação atual?
 
O único ponto que vejo em comum é que muitos dos atores dessa época continuam presentes. E duvido que passem para a História como os grandes arquitetos do desenvolvimento da RDC.
 
Qual é a sua opinião acerca do Presidente  Joseph Kabila que devia ter deixado o poder em dezembro?
 
Joseph Kabila marcou a sua época. Restaurou a paz, lançou o crescimento, devolveu uma forma de autoridade do Estado e es- tendeu a mão aos seus adversários. Posso compreender que os seus apoiantes considerem que é o melhor Presidente da história deste país. Mas o respeito pela Constituição é importante. Tendo em conta as tragédias que a RDC viveu, é primordial protegê-la e aplicá-la. O acordo político alcançado no m do ano passado permite esperar um maior respeito por esses princípios.
 
 Está otimista?
 
 Conheço demasiado a política congolesa para sê-lo completamente. Estou razoa- velmente otimista.
 
 A retirada, no final de dezembro, das tropas angolanas da RDC tem sido uma forma de pressionar os dirigentes congoleses para que assinem o acordo?
 
Se Angola não tivesse intervindo em 1997, não teria havido uma família Kabila no poder. Mesmo se o que foi retirado não foi um contingente de tropas, mas apenas o ciais angolanos que davam for- mação a militares e polícias congoleses, pode ter sido uma forma de «encoraja- mento» para encontrar uma solução que garanta o interesse comum, ou seja, a paz e a estabilidade na região. Parece-me que a prioridade de Angola é de desenvolver as relações entre dois povos mais que entre dois indivíduos. Mas é apenas a minha interpretação na qualidade de cidadão congolês. Quero destacar este ponto, porque as minhas observações podem ser interpretadas à luz da minha situação familiar.
 
Encontra-se na encruzilhada de muitos caminhos...
 
 
É puro efeito ótico. As minhas relações com o Estado angolano limitam-se à cultura. Sei se o presidente de Angola toca guitarra ou joga futebol, mas não vou re- velá-lo. Relaciono-me com o meu sogro, ou seja, com o homem, não com o chefe de Estado. Não sou o seu advogado nem o seu confidente. 
 
Cresceu no meio da classe política congolesa atual. Não lhe é pedido para passar mensagens ou organizar encontros? 
Nunca.  Em Angola, quem não tem funções o ciais não se deve intrometer. Aprovo esta cultura. É válida também para os negócios: não organizo encontros para ninguém. Não sou mediador e não recebo comissões. 
 
Pensar seguir uma carreira política?
 
 Algumas mentes torturadas de Kinshasa podem dizê-lo, mas é falso e ridículo.
 
 Sente-se incomodado quando se fala de si, da sua família, dos seus negócios? 
 
Em absoluto. A notoriedade é um fardo, mas também confere poder. Em Angola, alguns jovens que foram presos recente- mente não foram meigos comigo, mas prezo muito a liberdade da palavra, até a irreverência. Torna a sociedade mais interessante. Na RDC, há os movimentos Filimbi e Lucha. O seu direito de expressão deve ser proporcional ao meu direito de me defender.
 
Tem ainda interesses na RDC?
 
Imensos, nos quatro cantos do país, nos portos, no imobiliário, nas minas. O meu pai criava, todos os dias, até à sua morte prematura aos 67 anos. Manter este património é um trabalho em si. De momento, os negócios estão parados. Vivo em Angola e foi para lá que transferi os meus negócios. Permitiu-me adquirir novas competências, nomeadamente industriais, com a Nova Cimangola. Gostaria de fazer o mesmo na RDC, mas as condições não estão reunidas. A espoliação dos negócios do meu pai serve-me de barómetro. Tento recuperá-los, nomeada- mente o seu banco. No plano judiciário, o processo está muito avançado. Dora- vante só uma decisão política poderá permitir repor a minha família nos seus direitos.
 
Continua o combate....
 
 Obviamente. O que está em jogo é a memória e a honra do meu pai e da minha família. Hoje em dia, um banco catanguês diz-se proprietário da sede do Banco de Kinshasa que o meu pai fundou quase no lugar em que nasci. Não é aceitável. Que quer que eu faça num país que não está em condições de o reconhecer?
 
 
 
 
 
Jeu
 
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