Valter Filipe: um alquimista no BNA
20-04-2017 | Fonte: CA
Depois da aparição na TPA, o governador do BNA foi criticado por economistas que, em declarações ao CorreioAngolense, consideram-no mais um “alquimista” que conhecedor da ciência económica e o acusam de insultar o público com diatribes contra o mercado informal de divisas ou a “fingir” que Angola não está em recessão.
 
 
Indagado no programa “Grande entrevista”, Valter Filipe reconheceu que são “as ruas de Luanda” que definem o câmbio, “há um alto índice de fluxos financeiros que não se justifica” ou “temos que acabar com o mercado informal: as kinguilas”.
 
 
Um dos economistas contactados recorda, entretanto, que o governador nunca ousou desmentir uma denúncia amplamente publicada nas redes sociais em que funcionários do BNA o identificam a encabeçar uma negociata de dezenas de milhões de dólares envolvendo um cambista da África Ocidental no bairro Mártires de Kifangondo - o mercado que manipula a taxa de câmbio do kwanza.
 
 
“O mercado informal é consequência de uma causa que começa no interior do Executivo e do próprio BNA”, concluiu a fonte que atribui ao governador uma falta de vontade “genuína” para lidar com o mercado negro de divisas.
 
 
Nessa mesma acepção, as fontes atacam a política cambial projectada pelo governador, que declarou na entrevista não concordar com a desvalorização do kwanza, ao que respondem lembrando que a moeda angolana está entre 20 e 30 por cento sobrevalorizada e que a manutenção de alguma estabilidade tem o elevado preço da erosão das reservas internacionais líquidas que, em situação normal, são usadas como “almofada” para amortecer ou amparar os efeitos dos choques externos.
 
 
“A combinação da manutenção de um kwanza sobrevalorizado e a utilização das reservas do Estado tem sido um apanágio frequente do Governo”, o que “não estimula a produção interna de bens e serviços” e atira a banca para aquilo que o próprio governador afirmou na entrevista ser “o negócio errado”, que é centrar a actividade na “compra e venda de dólares”.
 
 
A desvalorização, ao contrário, tem como consequência imediata o surgimento de pressão sobre os preços dos produtos importados (que sobem temporariamente) e o estímulo à produção nacional, com o que os bancos passam a ter como estratégia a concessão de crédito à economia ou, caso se queira, “o negócio certo”.Paradoxalmente, o governador defendeu a manutenção artificial da taxa de câmbio (baseada no uso de poderes administrativos excessivos), o que os economistas contactados pelo Correio Angolense consideram que estimula a importação de bens e serviços.
 
 
Um economista indicou a concessão de crédito, gestão da poupança e dos depósitos como os instrumentos adequados para que a banca sirva os interesses e a prosperidade das famílias e das empresas, ao contrário da manutenção artificial do câmbio.
 
 
Valter Filipe enumerou na TPA uma lista da política restritiva do BNA que aparenta ter feito questão que fosse exaustiva ao máximo, para mostrar o que anda a fazer com o nosso dinheiro.
 
 
O governador apontou como “estrelas” dessa política o aumento do controlo da base monetária e dos agregados monetários, aumento da taxa básica de juro e as de absorção e cedência de liquidez, elevação do coeficiente de reservas líquidas obrigatórias e controlo da expansão monetária (havia muitos kwanzas e poucos dólares).
 
 
“Não são as melhores medidas anticrise para estimular o mercado e voltar à normalidade”, afirmou um docente universitário que advertiu que “secar” o mercado pelo aumento das reservas obrigatórias contraria a meta de estimular a banca a conceder crédito à economia, posto que os bancos ficam com menos recursos para colocar à disposição do mercado.
 
 
As fontes consideram, contudo, intolerável que o governador “finja” que Angola não está em recessão como a apresentação de estatísticas de inflação e crescimento encobridores da realidade ou convenientemente optimistas.
 
 
Valter Filipe projecta uma inflação de 15,7 por cento, quando o FMI a estima em 45 por cento no fim deste ano, e um crescimento de 7,00 por cento (1,25 por cento nas previsões do FMI) diante de um crescimento demográfico esperado de 3,7 por cento. 
 
 
“É um insulto aos dois terços de angolanos que vivem na pobreza, às milhares de empresas que tiveram que fechar, arrastando consigo mais de 100 mil pessoas para o desemprego e aos jovens que vivem na frustração de nem sequer conseguirem o primeiro emprego”, considerou o docente.
 
 
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