«Com mercado informal não há dólares», dizem Instituições financeiras internacionais
11-09-2017 | Fonte: Correio Angolense
Caso queira reverter a decisão dos bancos correspondentes norte-americanos de não negociar dólares com Angola, o Banco Nacional de Angola (BNA) deve desvalorizar o kwanza numa operação estabelecida para desmantelar ou, no mínimo, enfraquecer o mercado informal de câmbio, afirmaram fontes do mercado ao «Correio Angolense».

As informações obtidas apontam para um trabalho algo persistente na introdução, pelo BNA, de normas de supervisão e de conformidade legal, mas afirmam que nem mesmo isso se afigura suficiente para demover a banca correspondente e seus reguladores da decisão de não negociar dólares com Angola.

Acossados pelos reguladores e as normas internacionais de conformidade legal, esses bancos, poderosas instituições financeiras como o Standard Chartered, HSBC, Citi e First National Bank, decidiram que, enquanto houver um mercado negro de divisas, não negoceiam dólares com Angola.

A banca correspondente deixou de negociar dólares com Angola entre finais de 2015 e o começo de 2016, depois de séries inteiras da nota norte-americana destinadas ao país terem aparecido em mercados do Médio Oriente.

Um rastreamento conduziu depois à conclusão de que esses dólares provinham de operações realizadas no mercado informal de câmbios, dominado por empresários islâmicos libaneses e da África Ocidental.

O enfraquecimento do mercado informal passou, então, a estar no centro dos debates com instituições financeiras internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), que pede repetidamente ao Governo, desde 2015, que desvalorize o kwanza para desmantelar o mercado informal de câmbios.

A operação consistiria numa desvalorização que elimine o “spread” entre o câmbio oficial e o informal, de forma a não permitir a obtenção de ganhos pelos cambistas de rua, obrigando-os a desistir. Sobrevalorizado em 30 por cento, segundo o FMI, o kwanza é, de acordo com a BMI Research, uma consultora da agência Fitch Ratings, uma das moedas mais sobrevalorizadas de África.

Nos seus argumentos a favor da desvalorização, o FMI também alega que a defesa da taxa de câmbio do kwanza face ao dólar obriga à erosão das reservas internacionais líquidas (RIL), necessárias para garantir a importação de alimentos, maquinaria ou matéria-prima para as indústrias.

O que é provado por números do próprio BNA: as RIL, cifradas em 27 mil milhões de dólares no início da crise, em 2014, caíram em 9.075 milhões de dólares, para 18.026 milhões, e, só em Maio, caíram em 2,00 por cento ou em 409 milhões de dólares. As perdas acumuladas entre Janeiro e Julho atingiram 3.373 milhões de dólares, de acordo com dados do banco central.

Em duas palavras, além da desvalorização servir os interesses da obtenção de dólares num país de mono-produção que necessita de importar quase tudo que consome, favorece a acumulação de reservas internacionais e a consequente formação de barreiras financeiras contra choques externos.

As autoridades reconhecem os efeitos perversos da manutenção da sobrevalorização do kwanzas, mas, de 2015 a Agosto, enquanto esteve envolvido na renovação do ciclo eleitoral, elegeu uma abordagem política do problema.

Em duas ocasiões, em Dezembro de 2016 e em meados deste ano, o BNA emitiu declarações a tranquilizar o mercado quanto a eventuais desvalorizações do kwanza, com o governador, Valter Filipe, a declarar em Março, numa entrevista à TPA, que o banco central prefere lidar com a estabilidade dos preços.

Informações mais recentes, publicadas pela BMI Research, indicam que uma eventual desvalorização pode ocorrer apenas no fim de 2018, mas fontes deste jornal disseram não estar claro que rumos tomará a política económica antes da nomeação de um novo Executivo e de um governo do BNA.
 
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