Angola bateu o pé ao FMI
09-07-2005 | Fonte: Expresso (N.G.)
Não é todos os dias que um Governo recebe um pedido de desculpas formal e público da presidência do Fundo Monetário Internacional (FMI) como o que chegou a Luanda na quinta-feira passada.

O «incidente» que levou o ministro angolano das Finanças, José Pedro de Morais, a ameaçar cortar relações com a instituição presidida por Rodrigo Rato teve o mérito de «pôr termo às ambiguidades». E pode mudar o rumo das negociações entre o FMI e Angola, que se arrastam há anos.

«Estamos a ponderar a possibilidade de aderir a um novo mecanismo que vai ser testado com a Nigéria», disse ao EXPRESSO Aguinaldo Jaime(na foto), primeiro-ministro adjunto para os Assuntos Económicos. Sensivelmente diferente da fórmula actualmente em vigor, o «Policy Support Agreement» proposto por Rodrigo Rato em Abuja deixa aos Governos a iniciativa de elaborar os programas de reformas. O FMI dá apoio técnico e fiscaliza e avalia a sua execução.

Segundo Aguinaldo Jaime, a mudança justifica-se, dado os «bons resultados da política de estabilização do Governo angolano e o afluxo de investimentos privados, nacionais e estrangeiros». Por outras palavras, Angola deixará em breve de precisar dos atestados de boa conduta do FMI para obter os meios financeiros de que carece.

É a perspectiva de um crescimento económico sem progressos correlativos ao nível do reforço das instituições democráticas e da luta contra a corrupção que preocupa John McMillan, do Instituto Stanford de Estudos Internacionais, autor de um relatório publicado em Fevereiro de 2005.

McMillan escolheu como título uma frase de Rafael Marques, ex-delegado em Angola da Open Society, de George Soros: «A principal instituição do país é a corrupção». Foi a colocação do texto de McMillan no «website» do FMI como «documento de trabalho» para uma conferência organizada esta semana em Londres por investigadores britânicos e do FMI que provocou o ameaçador protesto de Luanda. O relatório acabou por desaparecer do «site» do FMI e da agenda da conferência. O «raspanete» de Pedro de Morais e o pedido de desculpas do FMI, que disse «partilhar a indignação» do ministro e esperar que «reconsiderasse» a decisão de romper as negociações, foram manchetes na imprensa estatal angolana.

A missão técnica angolana que deve deslocar-se em breve a Washington para (mais) uma ronda de negociações com o FMI não cancelou a sua viagem, e o Governo continua interessado em chegar a um acordo.

Segundo o economista angolano Alves da Rocha, a «atitude de um sector do FMI» e outras «provocações» recentes podem estar relacionadas com «o protagonismo chinês em relação a Angola e outros países africanos». Mas seria uma «reacção menos pensada», porque pode resultar em «menores oportunidades para as empresas ocidentais». Para bom entendedor, meia palavra basta.

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