Gala ou "feira de vaidades"?
27-11-2017 | Fonte: CA

Com barulho quanto baste, a mídia nacional tem feito repetidas menções à primeira edição dos “Prémios de Futebol – Palancas Negras’2017”, cuja cerimónia acontece a 16 de Dezembro próximo, em Luanda. O objectivo, segundo a Federação Angolana de Futebol (FAF), que organiza o evento, é “distinguir agentes e instituições, que se destacam ao longo das épocas desportivas no país”.

 

Recentemente, o líder da entidade que administra o futebol doméstico esteve nos estúdios da Televisão Pública de Angola (TPA) para falar do assunto que no momento está a arrebatar a “tribo do futebol” por diversas razões.

 

Na sua entrevista à TPA, Artur de Almeida e Silva avançou que a homenagem será corporizada numa monumental gala em que deverão estar presentes alguns dos mais sonantes nomes do futebol mundial, que já foram ou serão convidados para o efeito. 

 

 

O “número 1” do futebol angolano apontou os nomes de Diego Maradona, Ronaldo Nazário “Fenómeno”, Figo, Gianni Infantino (presidente da FIFA), Ahmed Ahmed (presidente da CAF), assim como os líderes das federações dos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) como alguns dos convidados VIP para a cerimónia de entrega dos prémios que distinguirão 23 categorias em ambas as classes.

 

 

Como é óbvio, são variadíssimas as pessoas que merecem tamanho preito em face do inestimável contributo que deram para a construção do edifício que é o futebol angolano. Algumas até merecem-no a título póstumo. Ninguém discorda que figuras como Joaquim Dinis, Domingos Inguila, Ndunguidi Daniel e Jesus, entre outras, sejam dignas de uma homenagem dessa natureza, no que seria não só a sua valorização mas também o reconhecimento dos respectivos feitos, que não foram nada poucos e as novas gerações praticamente desconhecem. 

 

 

Quem viu esses “monstros” espalhar talento em ensolaradas tardes domingueiras no “velhinho” Estádio Municipal dos Coqueiros ou noutros recintos do país e mesmo do estrangeiro, certamente aplaude a iniciativa, cuja produção estará a cargo do Grupo Mener, que também realiza o concurso “Angola Music Awards”.

Em boa verdade, aliás, qualquer sociedade que se preze deve sabe reconhecer os seus “heróis” e preiteá-los de modo a que a sua gesta perdure para todo o sempre. Mas afigura-se despropositado o “exército” de convidados estrangeiros para o evento que a FAF parece querer transformar despropositadamente em algo de dimensão mundial. 

 

 

A lista é extensa e até inclui o português Cristiano Ronaldo, o “Melhor do Mundo”, que, em princípio, 24 horas depois da Gala da FAF, defende as cores do “seu” Real Madrid frente ao Leganés, fora de portas, em partida da 16.ª jornada de La Liga. Convidar Cristiano Ronaldo, que está em pleno momento de competição, para a Gala do Futebol Angolano só pode significar falta de seriedade ou que os dirigentes da FAF julgam que Angola é o centro do Mundo, aonde todos têm que vir, se quiserem ser “alguém”!

 

 

Mesmo que o convite a CR7 não tenha passado de mera intenção – revela um confrangedor amadorismo dos organizadores, que têm a obrigação de conhecer o calendário mundial de competições – não deixam de ser questionáveis os convites a entidades como Diego Maradona, Ronaldo Nazário “Fenómeno” ou Gianni Infantino. 

 

 

É que figuras dessa dimensão devem ser tratadas com a pompa e circunstância que merecem. Como em regra os angolanos são tão bons anfitriões e costumam exceder-se no trato aos seus convidados, a presença dessas individualidades na gala vai certamente significar gastos astronómicos. Ora, tendo recentemente o presidente da FAF dito que a “sua” instituição tinha dificuldades em mobilizar os recursos financeiros necessários para a participação da Selecção Nacional na fase final do CHAN’2018, que se disputa em Janeiro próximo em Marrocos, não faz sentido absolutamente nenhum que agora se gaste tanto dinheiro com frivolidades, mesmo que os montantes para pagar a gala sejam provenientes de patrocinadores.

 

Em termos práticos, ter essas figuras na gala nada agregará ao futebol nacional, uma vez que chegam, eventualmente ocupam-se em actividades sociais, assistem a cerimónia e depois voltam para as suas casas, mas provavelmente não sem antes desfrutarem de fartos momentos de ócio. Objectivamente, não vêm ministrar acções de formação ou algo do género que permita a melhoria do desempenho administrativo ou de outra natureza da FAF.

 

 

Na verdade, mesmo que viessem Messis, Ronaldos, Neymares, Mbapés e outros de igual grandeza nada agregariam ao nosso futebol, que no contexto africano é de III Divisão; há duas edições não chega a uma fase final do CAN e os seus clubes são quase invariavelmente eliminados nas primeiras rondas das “Afrotaças”.

 

 

Portanto, se há dinheiro para gastar, que não seja em “feira de vaidades”, mas em acções que agreguem valor ao nosso futebol, quanto mais não seja em respeito aos contribuintes, num momento em que o país vive uma profunda crise económica, financeira e cambial que a todos afecta, exceptuando a FAF, pelo menos a julgar pela preparação da Gala do Futebol Angolano.


 
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