MPLA em crise profunda?
15-12-2017 | Fonte: CA
Como um jogador de pôquer nato, ao invés de pensar em retirar-se, o líder do MPLA deu uma de reinventar-se. Esta semana, além de ter concretizado a estratégia que vinha perseguindo de enfiar os seus indefectíveis na direcção do MPLA, sobretudo no secretariado do Bureau Político, José Eduardo dos Santos protagonizou algo completamente inusitado: assumiu a luta contra a corrupção e o nepotismo. A opinião pública ainda está de olhos arregalados, pois ele terá conseguido chamar a si a iniciativa política que nos últimos tempos parecia fugir-lhe a olhos vistos.
 
Mas, vendo para além da granada de fumo lançada por JES, os últimos eventos ocorridos nos bastidores do maior partido do país mostram uma realidade com leituras múltiplas e díspares para o futuro imediato. Se é verdade que o líder dos “camaradas” terá conseguido “maquilhar” um pouco a situação desconfortável em que pessoalmente se encontra, nem por isso conseguiu disfarçar a crise profunda que o partido atravessa e para a qual, de resto, o Correio Angolense (CA) tem vindo a chamar a atenção.
 
 
Uma fonte com visão privilegiada sobre os últimos eventos registados no interior do MPLA, sobretudo em relação ao que aconteceu na última cúpula do partido, admitiu ao CA que os “camaradas” estão a atravessar um rubicão como há muito não se via. “Somos do MPLA e continuaremos a ser do MPLA, mas sentimos que neste momento está a atravessar uma crise profunda. E pode-se até dizer que o MPLA está a levar um ‘golpe de estado’, que está a pôr muita gente, entre os seus dirigentes, com os nervos alterados”, afirmou a fonte.
 
 
“Hoje o velho [Santana André Pitra] Petroff bateu de frente com o presidente Eduardo dos Santos”, dizendo-lhe, de forma desabrida, que não concordava com as alterações feitas no principal órgão directivo do partido, o Bureau Político – contou o interlocutor deste jornal, levantando o véu a um cenário de críticas frontais ao líder do partido como raríssimas vezes se viu.
 
 
Com efeito, Santana André Pitra, que é da mesma geração de históricos do partido de que faz parte o próprio José Eduardo dos Santos, nomeado por Agostinho Neto Comandante da Polícia (ex-CPPA) do país logo após a Independência em 1975, assentou as suas discordâncias num argumento. Segundo ele, o líder do partido não teria legitimidade para as alterações que fez uma vez que não as havia submetido a um conclave mais alargado.
 
“O velho Petroff disse que a carroça havia sido colocada à frente dos bois. Antes de qualquer alteração, primeiro devia ser feito um balanço do desempenho do partido nas eleições. Ver os culpados e o que fizeram, e só depois, em função disso, seriam feitas as mudanças no Bureau Político e no seu secretariado”, descreveu.
 
 
Juntaram-se a Petroff outras vozes, como as de Ângela Bragança, de Mário Pinto de Andrade e Frederico Cardoso, cujo grosso integra o Secretariado Provincial do MPLA de Luanda. Ao ponto de em certos momentos da reunião José Eduardo dos Santos se ver interrompido por murmúrios da audiência muito próximos a apupos. Isto é um sinal dos novos tempos, pois em 38 anos de poder o líder do MPLA praticamente nunca se viu afrontado por ninguém, salvo raríssimas ocasiões, como nos episódios em que Irene Neto, Ângela Bragança e Ambrósio Lukoki ousaram levantar a voz contra ele.
 
 
“Foi a primeira vez que o ‘velho’ José Eduardo dos Santos se viu confrontado com um clima de contrariedade como esse. E isso devia ser um claro sinal para ele de que os tempos mudaram”, referiu a fonte do Correio Angolense (CA), acrescentando que se a eleição dos novos membros da direcção do partido tivesse sido por votação secreta, a lista que o líder do MPLA submeteu ao Comité Central não teria passado. Mesmo com voto de mãos levantadas, a lista suscitou a rejeição de seis dirigentes do partido, o que significa na realidade que os resultados teriam sido diferentes se o escrutínio fosse secreto.
 
 
Reminiscência dos tempos de vigência do designado “Centralismo Democrático”, o voto de mão no ar tem sido um bom expediente para José Eduardo dos Santos assegurar o seu poder como líder. Mas de acordo com o que diz agora a fonte de que o CA se tem vindo a socorrer, o que na verdade está preconizado nos estatutos do MPLA é o voto secreto, embora não seja cumprido. “Está escrito nos estatutos do MPLA que o voto nos órgãos de direcção tem de ser secreto, o que não tem sido respeitado. Está escrito, é estatutário”, garantiu a fonte.
 
 
Enfim, se o voto fosse secreto, ninguém está para ler a mente das pessoas e garantir que a lista não seria aceite, mas pela onda de contestação havida, é de admitir que pelo menos uns 40 por cento a teriam rejeitado. ”Muitos dos que votaram favoravelmente fizeram-no apenas para que ninguém os visse de mãos no ar em sinal de rejeição. Mas houve pelo menos seis corajosos que disseram não, e isso é bastante sintomático de que foram-se os tempos de unanimidade em torno do líder.”
 
 
José Eduardo dos Santos logrou consagrar a bicefalia ao enfiar os seus indefectíveis na direcção do MPLA – o fenómeno de “futunguização” como lhe temos chamado –, mas com isso acabou também por transformar o partido numa espécie de saco de gatos que há muito não se via. O poder do líder está agora ancorado num conjunto de elementos que lhe são “servis” e aos quais se convencionou chamar por “bajus”, em contraponto com uma corrente de adeptos do actual Presidente da República designados por “lourencistas”.
 
 
Há hoje, segundo a fonte, um divisor de águas que não decorre propriamente de um debate democrático no partido, sendo mais questões de conveniência política a separar uns e outros de cada lado da barricada, consoante se seja adepto de José Eduardo dos Santos ou de João Lourenço. Curiosamente, o que se observa é que o grupo mais conservador – defensor do status quo, ou os “eduardistas” – é constituído por membros dirigentes de nova geração. Estão neste caso políticos como Norberto Garcia que acaba de ascender ao Bureau Político, passando a ser o novo secretário para a Informação.
 
 
Por estranho que pareça, os inconformados e que se identificam com o novo Presidente da República podem ser basicamente encontrados entre a velha geração de políticos constituída por veteranos e antigos combatentes. “Resumindo, os mais velhos e antigos combatentes querem que o 'chefe' saia mesmo. Os miúdos, os 'bajus', estes é que querem que José Eduardo dos Santos permaneça”, considera o interlocutor do CA.
 
 
Finalmente, uma outra leitura que é feita sobre a actual correlação de forças no interior do MPLA vai no sentido de que a antiga JMPLA, ou seja os antigos membros do Comité Nacional do órgão juvenil do partido, actualmente na meia-idade, estão alinhados com João Lourenço. São os casos de Ângela Bragança, Mário Pinto de Andrade e, de certo modo, do próprio Bornito de Sousa. Já os indivíduos que enriqueceram – os “homens do capital”, como lhes chama a nossa fonte – “estes querem pendurar-se nas calças de José Eduardo dos Santos para se manterem intocáveis, assim como os próprios bens que acumularam. Sentem que só o ‘chefe’ ainda lhes pode dar protecção. Enfim, só defende a continuidade do ‘chefe’ quem beneficiou grandemente do seu regime e pensa que esse status quo pode ser mantido eternamente”.
 
 
 
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