Empresário polaco destaca parceria público-privada para diversificar a economia - ANGONOTÍCIAS
Empresário polaco destaca parceria público-privada para diversificar a economia
06-02-2018 | Fonte: Mercado ( Aylton Melo)
PCA do Grupo Boa Vida, Tomasz Dowbor, anuncia retoma da produção e primeira exportação de minério de ferro da mina de Kassinga, no Namibe, em 40 anos, e destaca vantagens das parcerias entre o Estado e os privados.
 
O Projecto Minero-Siderúrgico de Kassinga, no Namibe, foi aprovado em 2010, mas a sua exploração foi suspensa em 2013, pela Ferrangol, para reestruturação. Entretanto, uma das empresas do grupo que o lidera prepara a primeira exportação 40 anos depois. Quais foram os principais desafios desta reactivação?
 
Kassinga é uma resposta do Grupo Boa Vida no sentido de confirmar que o sector privado está pronto para se alinhar com estar em linhas directrizes que o Governo traçou. Acreditamos que estas políticas vão no sentido correcto, via investimento privado. A aposta na economia nacional é o caminho mais certo para que todos tenhamos uma qualidade de vida melhor no futuro. O maior desafio que envolveu a reactivação de Kassinga não foi só ao nível operacional, ou do investimento. Em primeiro lugar, é uma resposta ao apelo do Executivo para a diversificação da economia. Estamos a ouvir atentamente as mensagens do Executivo e a materializá-las no formato pensado pelo Governo.São estratégias e directrizes que, no nosso entender, vão levar o País ao ressurgimento económico no mapa da SADC.
 
E porquê Kassinga?
 
Trata-se de um projecto que foi seleccionado entre as commodities que serão exportadas. A mina de Kassinga foi bem conhecida nos anos 60, Angola era um grande produtor mundial. O minério de ferro proveniente de Angola era reconhecido como de alta qualidade.
Todos os traders internacionais de commodities, hoje, estão ansiosos por ver este minério de volta. A reactivação desta mina é um exemplo de que é possível.
 
Qual é a capacidade de produção da mina?
 
 
Após um período inicial que consistiu no levantamento de dados, avançámos com um investimento na ordem de 15 milhões USD que nos permitiu preparar a realização da primeira etapa de exploração, que consiste em 2 milhões de toneladas, num período de dois anos.
É evidentemente um processo evolutivo. À medida que formos adquirindo mais equipamentos e a capacidade de escoamento aumentar, iremos subir a produção.As capacidades legais, operacionais e funcionais da produção e exportação são sinais muito importantes para a comunidade internacional. Apesar das dificuldades e do momento macroeconómico desfavorável do País, mesmo assim, há uma aposta na parceria com o sector privado para a diversificação da economia, criação de emprego e busca de divisas no exterior.
 
E… de exportação?
 
 
Hoje, estamos preparados para explorar e exportar 100 mil a 150 mil toneladas por mês de minério de ferro.
 
 
Para onde será exportado?
 
 
Esta, tal como a maior parte das matérias-primas, é consumida pela China. Os primeiros embarques foram vendidos a este país…
 
 
A China será o mercado de exportação para os próximos dois anos?
 
 
O mercado das commodities está sujeito às melhores propostas, pelo que, no futuro, podem surgir outros. Tal como disse anteriormente, o minério de Angola é conhecido e, portanto, não temos nenhum compromisso de exclusividade com a China. À medida que for desenvolvido o projecto e aumentada a sua capacidade produtiva, vamos, evidentemente, escoar para os mercados que oferecerem as melhores propostas.
 
 
Quando será feito o primeiro embarque?
 
 
Nos próximos dias teremos a data exacta. Entretanto, o navio chinês poderá chegar à costa angolana entre 15 e 20 de Fevereiro. Será um acontecimento histórico para o País.
 
 
O investimento que referiu cobriu a ligação com o caminho-de-ferro de Moçâmedes e a construção do novo cais no porto?
 
 
O investimento foi dividido em três fases: mineração, que envolveu a criação das estruturas necessárias e equipamentos para a exploração do minério de ferro; escoamento – estamos a falar do transporte do minério da mina para o Porto; e a terceira fase tem que ver com as condições necessárias para realizar os embarques.
 
 
O investimento foi aplicado na reabilitação e asseguramento dos equipamentos para garantir a operacionalidade destas três etapas. Estamos a falar de vagões para levar o minério até ao porto, reabilitámos a ponte-cais, que foi equipada para poder fazer os carregamentos. Estamos a prever, numa segunda etapa, investir 85 milhões USD no aumento dos equipamentos actuais para aumentar a capacidade produtiva e de escoamento.
 
 
Portanto, mostramos ao País e ao mundo que em Angola existem condições de operacionalidade em toda a cadeia, desde o potencial da mina até ao shiploader, o que constitui uma grande esperança para a população, em geral, como uma fonte de divisas e contributo para a diversificação da economia.
 
 
As prospecções feitas dão conta de quanto tempo de vida útil da mina?
 
 
Mesmo aumentando toda a capacidade de produção da mina, estamos a falar de, no mínimo, 100 anos de vida útil. Referiu que poderão produzir 2 milhões de toneladas de ferro num período de dois anos.
 
 
Quais são as receitas previstas nesse período?
 
 
A receita está estimada em 150 milhões USD e vai gerar inúmeros benefícios em termos de arrecadação fiscal para o Estado, porque é um projecto em parceria público- privada, que beneficia, também, o Estado.
 
 
E qual é a contrapartida?
 
 
Essa é a essência desta parceria: de um lado, o privado contribui com o seu investimento e competência; do outro, o Estado beneficia deste investimento para ter acesso a divisas via impostos.
 
 
A empresa criada para fazer a exploração e comercialização da mina de Kassinga, a Portandum, vai encarregar-se de outras minas?
 
 
A Portandum está dedicada, essencialmente, à exploração de minério de ferro. Evidentemente, temos interesses, e vamos realizar diferentes investimentos, numa modalidade que já foi traçada, testada e bem-sucedida em diferentes sectores e, especificamente, neste. Vamos alargar o investimento e transmitir uma mensagem de segurança ao investidor estrangeiro, de que Angola mudou. Por mais que o País já tenha melhorado o seu nível de credibilidade, as mudanças políticas só aumentam e favorecem as condições gerais de investimento.
 
 
A atractividade de Angola em relação ao investimento directo estrangeiro melhorou em que aspectos?
 
 
Refiro-me ao conjunto dos critérios que estão sempre a ser avaliados pelos investidores estrangeiros numa perspectiva de análise de risco de investimento. Este conjunto de factores, hoje, está muito mais favorável, não só em termos de benefícios e incentivos fiscais, e há todo o ambiente económico. Angola tem grandes potencialidades em diversos sectores que, por força da conjuntura geral, não foram aproveitados, ou foram subaproveitados. A reabertura política traz reabertura económica. Nesta fase, há um grande interesse dos investidores internacionais em participar na diversificação da economia angolana. O projecto Portandum é uma força multiplicadora de um formato que dá certo em Angola e, por isso, queremos encorajar outros investidores, porque não são só promessas, mas factos.
 
 
E o que, na sua opinião, torna isto realizável?
 
 
A grande premissa revelada pela nova governança, e que se trata de uma mudança de paradigma, é a passagem da gestão de projectos públicos para o privado. Evidentemente, os nossos investimentos, tanto no sector agrário como na produção suína e de frangos, estão inseridos neste modelo. Da mesma forma que conseguimos realizar um casamento no projecto do minério de ferro, queremos provar que é possível realizar num projecto de outro carácter.
 
 
Como estão os projectos de produção suína e de frangos?
 
 
Ainda não estamos a produzir frangos. O que já fizemos foi investir nas naves e equipamentos para começar a ensaiar e depois alargar para o formato de parceria público-privada. As nossas ideias estão alinhadas a um formato que já deu certo em diferentes áreas.Temos, primeiro, de conceituar e ensaiar numa pequena escala, para poder fazer a curva de aprendizagem, onde identificamos pontos fracos e fortes, e melhorar em grande escala.
 
 
Quando e onde arrancam? Os primeiros ensaios?
 
 
As nossas fazendas têm 1500 hectares e estão localizadas no Caxito. Tenho fé absoluta de que o  arranque será neste ano. Mas elas precisam destes ensaios para estarmos mais preparados para a produção em grande escala. Será necessário capacitar os quadros.Gostaria de também citar outra aposta, localizada também no Caxito, que é a fruticultura, como o melão, maracujá e outras frutas.A produção já arrancou, e prevemos também produzir mandioca e milho para transformar em ração.
 
 
Essa curva de aprendizagem foi importante para o crescimento do grupo ao longo dos cerca de 22 anos de presença no mercado angolano?
 
 
 
Existe sempre uma curva de aprendizagem, lacunas que não são previstas em todos os processos de gestão e de produção. Seguimos isto em todos os nossos investimentos e projectos, inclusive, nos sectores da construção, imobiliária e outros.
 
 
Percebemos que isto dá certo. Em 2016, o Grupo investiu 20 milhões USD na exploração de pedras ornamentais, também, para exportação?
 
 
Não. O que conseguimos com este investimento foi garantir a nossa autonomia de corte e preparação das pedras. Transferimos as instalações de corte da Huíla para Luanda. Temos muito orgulho nesta unidade. Por mais que seja um negócio pequeno, é conduzido só por nacionais, e fazem peças maravilhosas. Mas é só para consumo interno, por enquanto, para ornamentar os nossos condomínios. A  urbanização Boa Vida é dos investimentos do grupo mais mediatizados, e o maior, não só pelo capital (500 milhões USD) que está ser aplicado, como pela dimensão.
 
 
Quando começam a entregar as primeiras casas?
 
 
As casas da primeira fase, que deverão ser entregues ainda neste ano, são pouco mais de 300.As  outras 300 estar estarão prontas no próximo ano.
 
 
Quantos postos de trabalho directos foram criados até agora, no conjunto de todos os projectos?
 
 
A grande satisfação e fonte de orgulho é que, no ano passado, conseguimos empregar mais 1100 pessoas. Hoje temos mais de 3800 pessoas e prevemos contratar mais 1500.
 
 
Anunciou recentemente um programa de capacitação de quadros denominado Talentos Angola. Quando arranca?
 
 
O Talentos Angola vai ter impacto a nível nacional e será neste ano.Faremos o anúncio e daremos a conhecer publicamente os critérios de adesão. A ideia surge de uma análise que fizemos para melhorar a coexistência e desenvolvimento do trabalho em equipas. É um sistema formal, que se propõe mudara atitude das pessoas, para se tornarem mais eficazes nas suas vidas pessoais e profissionais. Esta mudança de atitude leva as pessoas a realizarem os seus sonhos, passando de passivas a proactivas.
 
 
Falo de pessoas que buscam soluções, que se comprometem com as coisas e se orientam para os resultados. Já estamos a realizar isto nas nossas empresas. Temos agora a previsão de capacitar quadros que possam liderar os nossos projectos de grande escala em carteira. Não se trata apenas de capacitação técnico-profissional, mas comportamental, para que se tornem pessoas melhores.
 
A vivência, ao longo dos anos, deu-nos este know-how acumulado, que agora queremos partilhar com os jovens.
 
 
Como pensam fazer esta capacitação?
 
 
Esse é o nosso segredo! A capacitação será feita por via de uma parceria com uma escola de formação. Escolhemos profissionais capacitados para realizar e obter os resultados que idealizámos.
 
Será feita no formato de estágios, para que haja melhor acompanhamento e as pessoas obtenham o necessário para ‘descolarem’ nas suas carreiras profissionais. Queremos promover pessoas que achem ou que tenham potencial para serem alguém de destaque na vida. Evidentemente, as compensações financeiras são importantes. Porém, queremos juntar as pessoas que querem fazer alguma coisa relevante na sociedade, seja no seu bairro, comunidade ou empresa. O primeiro projecto- -piloto será aberto aos universitários que, depois de seleccionados, passarão por uma fase de três meses de treino e formação, nas nossas instalações. Depois passarão por um estágio on job, onde serão monitorizados. No final disto, saberemos quais são as pessoas com perfil de liderança e quais com perfil empresarial, na sua escala.
 
Hoje, as grandes empresas estão orientadas para que, no âmbito das suas actividades anuais, incluam também acções sociais. Que acções têm desenvolvido a este nível?
 
 
A nossa comparticipação social daria outra entrevista! Mas gostaria de destacar que, no ano passado, servimos 382 mil refeições gratuitas, nas quais foram gastos mais de 120 milhões Kz. Mas, mais do que o custo, no nosso entender, foi um dos nossos melhores investimentos, porque melhorou a produtividade e o bem-estar das pessoas.
 
 
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