Jacob Zuma à beira da humilhação total, ANC exige a sua saída em 48 horas
13-02-2018 | Fonte: NJ
O Congresso Nacional Africano (ANC) deu 48 horas ao Presidente Jacob Zuma para deixar o poder na África do Sul depois de uma reunião de emergência do Comité Executivo Nacional do partido realizada na segunda-feira, 12, onde o único ponto era precisamente decidir o destino do homem que governa o país desde 2009. Mas o velho leão não vai sair sem dar luta e já deixou isso claro. 
 
Adivinham-se dias cinzentos no país do arco-íris. Zuma estava por um fio, como o Novo Jornal Online tem vindo a acompanhar, mas o velho companheiro de cadeia de Nelson Mandela não parece querer sair pela porta dos fundos e está a fazer tudo, aparentemente até ao último esforço, para levar o seu mandato até ao fim - as eleições devem ocorrer em 2019 -, evitando terminar a sua carreira política envolto num manto de humilhação.
 
Esta crise política, que já era uma das mais graves desde que o regime do apartheid ruiu e foram realizadas as primeiras eleições democráticas, em 1994, pode tornar-se um desafio determinante para a solidez das instituições sul-africanas, nomeadamente a Justiça, onde Zuma tem a correr vários casos desde 2005, tendo-se visto livre de uns mas fustigado por outros sem, agora, conseguir respirar, quase todos de corrupção e peculato, mas também casos antigos de violação.
 
 
 
O facto de Jacob Zuma, de 75 anos, estar, claramente, a ser mandato sair pela porta das traseiras, com o novo presidente do ANC, desde Dezembro, Cyril Ramaphosa, à espera para assumir a cadeira do poder, não deixa de ser uma espécie de ajuste de contas indirecto da história, porque o processo tem algumas semelhanças com aquilo que o próprio fez a Thabo Mbeki, em 2007, assumindo o poder dentro do partido mas trepando depois até ao cargo de Presidente da República fazendo a vida difícil ao agora seu antecessor.
 
 
 
Recorde-se que esta decisão do Comité Executivo Nacional do ANC foi convocada com toda a urgência depois de Zuma e Ramaphosa terem mantido conversas semi-secretas ao longo dos últimos dias mas sem, como parece ser o caso, quaisquer resultados.
 
 
 
Sabia-se que o destino de Zuma estava traçado, não só pela vontade dos seus pares, mas essencialmente porque a sua popularidade está pelas ruas da amargura e o partido não podia deixar consolidar-se a ideia de que aquela que foi a "casa" do histórico Nelson Mandela podia albergar um suspeito de ser corrupto - embora nunca tenha sido condenado - e deixar na Presidência um homem em quem já praticamente ninguém confia na África do Sul.
 
 
 
Mas, a par disso, Zuma enfrenta outros problemas, provavelmente mais graves ainda... a tremenda crise económica que a África do Sul atravessa, com os números referentes ao desemprego cada vez mais no vermelho, o declínio do crescimento económico evidente, a perda de competitividade do seu ainda poderoso sector exportador a causar sérios problemas, com grandes empresas, algumas multinacionais, a deixar o país ou a retirar o país do seu mapa de importância estratégica, e o falhanço das suas politicas sociais, quer na saúde como na educação...
 
 
 
No entanto, apesar de alguns analistas sublinharem que a África do Sul de Jacob Zuma aproximou-se muito da realidade de alguns países vizinhos, mergulhados em corrupção e má governação, a verdade é que o país não deixou de ser um farol para o continente, com os melhores índices de desenvolvimento em áreas como os transportes, infra-estruturas, na saúde, educação, um sistema financeiro invejável e, acima de tudo, uma democracia funcional onde a legitimidade das vitórias eleitorais nunca é posta em causa, sendo este país uma espécie de porta-voz do continente no mundo. Por enquanto...
 
 
 
O ultimato
 
 
 
O ultimato a Zuma foi entregue por Ramaphosa e um elemento do Comité próximo de Zuma já de madrugada, após mais de 10 horas de intenso debate durante a tarde e noite de segunda-feira, 12. Porém, o homem que passou 10 anos na cadeia, grande parte destes ao lado de Mandela, na década de 60 do século XX, que passou não só pelos dias iniciais da luta do ANC contra o apartheid, mas também pelas fileiras do partido comunista sul-africano, não se mostrou amedrontado e contra-atacou.
 
 
 
Disse a Cyril Ramaphosa, na sua cara, quando o recebeu já de madrugada, que só sairia do poder dentro de três meses, como revelou à imprensa sul-africana uma fonte anónima, deixando pouco espaço de manobra ao seu próprio partido, que liderou durante quase uma década, para se ver obrigado a resolver o problema de outra forma, sob o risco de o actual líder do ANC ver a sua autoridade esboroar-se mesmo antes de estar consolidada.
 
 
 
O ANC devera, agora, avançar para uma moção de censura ao seu ex-líder . Mas é o eu se ficará a saber numa conferência de imprensa que deverá ter lugar hoje.
 
 
 
Entretanto, nos próximos dias, ou horas. Ver-se-á também qual a dimensão real do seu poder dentro do ANC. Para já, como avisa um analista citado pelo Guardian, "Zuma não é apenas uma pessoa, é todo um sistema e há muita gente com as suas fortunas políticas estão intrinsecamente ligadas a ele".
 
 
 
Contra Zuma está, todavia, aquela que poderá ser a derradeira força do ANC, que, perante quase uma década de erosão da sua legitimidade e prestígio, erguidos desde 1994, em democracia, e ao longo de décadas de luta contra o regime racista branco da África do Sul, entre 1948 e 1992, pode ter de decidir entre o "sistema" que Zuma encarna e a sua própria essência, a sua alma de partido que mais sangue derramou pela democracia.
 
 
 
E nesse caso, Jacob Zuma deverá estar condenado a sair pela porta das traseiras.
 
 
 
Recorde-se que a densidade dos horrores que Zuma está a viver aumentou nos últimos dias com a saída a terreiro da Fundação Mandela para pedir a sua cabeça, o que é muito importante para este desfecho tendo em conta que juntou o nome do histórico líder a esta incandescente situação política.
 
 
 
Quem é Jacob Zuma?
 
 
 
O ainda Presidente da África do Sul, com 75 anos, é um veterano das lutas políticas sul-africanas e um dos homens das primeiras linhas de combate ao apartheid, regime político assumidamente racista, com a segregação racial como lei, que vigorou no país entre 1948 e 1991. Desde finais da década de 1950 que Zuma tem actividade política registada, integrando o ANC em 1959, passou depois, em 1963, para o Partido Comunista da África do Sul (SACP), após o ANC ter sido banido pelo regime.
 
 
 
Nesse mesmo ano foi detido, por conspirar contra o regime racista, e é enviado para a cadeia de Roben Island, onde encontra, por exemplo, Nelson Mandela.
 
 
 
Esteve preso 10 anos e quando saiu, reintegrou o ANC com outro peso político depois de ter estado com Mandela e outros seniores do partido em Roben Island.
 
 
 
Em 1975 deixa o país e continua a luta contra o apartheid a partir do exterior, em países como Moçambique, apoiando e recebendo outros exilados, conhecendo nestas andanças, na Suazilândia, Thabo Mbeki, o homem que viria a destronar do ANC em 1977 e a quem ajudou a sair da Presidência da República pela porta dos fundos, tal como lhe está a acontecer a ele, de forma agravada, actualmente.
 
 
 
Entra para as estruturas maiores do ANC em 1977, no comité executivo nacional, e foi o representante oficioso do ANC em Moçambique durante vários anos.
 
 
 
As acusações que sobre ele pendem
 
 
 
Em 2005 foi acusado de corrupção num negócio que envolveu milhões de dólares ocorrido em 1999, tendo a acusação sido retirada pouco antes de ter sido eleito Presidente, em 2016 teve dois casos pesados, com um tribunal a ordenar a acusação por 18 crimes de corrupção e por usar dinheiro do Estado (peculato) para obras numa das suas casas privadas, e em 2017 a justiça sul-africana fez regressar o caso que envolve Zuma e a poderosa e multimilionária família Gupta. Actualmente corre um inquérito sobre esta questão.
 
 
 
Perante a lista de acusações e o que pode surgir após a sua saída do poder, alguns analistas admitem que estejam em curso negociações semelhantes às que tiveram lugar no Zimbabué com a saída imposta a Robert Mugabe, que assinou um acordo para resignar que lhe garante, e à sua família, total impunidade para todas as acusações, bem como a manutenção da fortuna acumulada nos longos anos de exercício de poder, parte dela comprovadamente ilegal.
 
 
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