Rafael Savimbi considera como "questão humana" a má imagem que se tem do seu pai
22-02-2018 | Fonte: DW
Passados 16 anos desde a morte de Jonas Savimbi o seu enterro, segundo os seus hábitos e costumes, continua por se realizar. Foi a 22 de fevereiro de 2002 que o líder da UNITA foi morto em combate no Moxico contra as forças do Governo do MPLA e enterrado pelas autoridades em Luena. Há anos que a sua família e o seu partido têm pedido um enterro condigno ao Governo, mas sem resultado.
 
DW África: Angola tem um novo Presidente e um novo Governo. Espera que agora venha a acontecer o tão desejado enterro condigno de Jonas Savimbi?
 
Rafael Savimbi (RS): Esse é nosso desejo, que esse processo que estamos a chamar também de parte importante do processo de reconciliação nacional se realize. É verdade que ainda não há sinal concreto nenhum por parte do novo Governo e do novo Presidente, mas o nosso desejo é que, de facto, com a nova perspetiva que se vai abrindo no país este processo ligado ao enterro condigno de Jonas Savimbi também faça parte das prioridades e que definitivamente se encerre esse processo.
 
DW África: No diálogo com o Governo de José Eduardo dos Santos em 2015, as autoridades angolanas prometeram entregar os restos mortais de Savimbi em 2016, o que não se concretizou. O que aconteceu?
 
 
RS: Nós, de facto, já não percebemos, porque tínhamos avançado bastante e havia um sinal positivo e inclusive tivemos contacto com o núcleo do Governo que outrora foi mandatado pelo  ex-Presidente [José Eduardo dos Santos]. E inclusive tínhamos entregue um caderno de encargos com alguma planificação dos atos, das datas para que tudo isso se fizesse, porque a questão ligada à transladação dos restos mortais de Jonas Savimbi do Luena para o Andulo tem outras implicações. 
 
 
Primeiramente estamos a pedir que se faça algum trabalho no quadro da segurança da área da aldeia Lopitanga, porque em resultado do conflito armado a área tinha sido minada. Então, é preciso que se faça a desminagem da área para permitir que haja segurança e circulação de pessoas e bens sem receio algum. Isso era parte importante desse processo. E depois há outras questões que sobretudo têm algum cunho político, significa tirar os ossos de Savimbi, se de facto estão no Luena, e colocá-los no Andulo é uma coisa, mas reconhecer ou até mesmo reabilitar Jonas Savimbi politicamente, se assim se pode dizer, pensamos que também é um passo importantíssimo que Angola tem de dar, porque afinal ele faz parte do grupo das três grandes [figuras] que lutaram pela independência do país e possivelmente pela democracia em Angola.
 
 
 
DW África: Diz que os restos mortais de Jonas Savimbi foram secretamente transportados para Luanda e que estão num mausoléu. Estão vedadas as visitas do familiares?
 
RS: A versão que nós queremos manter é a oficial. Dizer que Jonas Savimbi depois foi desenterrado, são variadíssimas histórias. E eu penso que é próprio das circunstâncias e se deve a dimensão que ele teve. Queremos manter a versão oficial segundo a qual os restos mortais de Jonas Savimbi repousam no cemitério municipal do Luena e é nesta base que estamos a trabalhar.
 
DW África: Jonas Savimbi é um herói para alguns e vilão para outros. Considerando a sua causa, a luta contra a ditadura por exemplo, acha que deveria ser elevado a categoria de herói?
 
RS: Penso que elevar a categória de herói ou não é uma questão muito formal, mas os heróis não surgem por causa da formalidade. Alguém é herói porque marca um momento, uma época, porque cria rasgos, porque as pessoas transportam-no no coração, penso que é o mais importante. Agora, o que estamos a dizer que é importante, não é um pedido mas é algo que será seguramente feito um dia, é que Jonas Savimbi faz parte dos três grandes que são os pais da política contemporânea angolana. Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi. Foram estes que com os seus movimentos de libertação que contribuiram e lutaram pela independência deste país, então esta sorte está lá. Também Jonas Savimbi com a sua coragem que desafiou e lutou contra a instalação do sistema monopartidário em Angola. Então, penso que contra factos não há argumentos, é uma questão de tempo, mas ainda fora da formalidade Savimbi é herói para milhares de angolanos. Penso que isso é mais importante que meros formalismos que concertza deverão acontecer um dia.
 
DW África: Revê na UNITA de hoje os ideais do seu pai?
 
RS: Sim, se não a UNITA não existiria [mais]. É verdade que as circunstâncias são completamente diferentes, viveu-se um momento de conflito armado e hoje vive-se um momento diferente. Mas se a UNITA se desviasse dos ideais de Savimbi seguramente que hoje não seria UNITA e já não estaria onde está hoje.
 
DW África: Como filho de Jonas Savimbi qual foi o maior legado que recebeu do seu pai, como Homem?
 
RS: Como Homem foi a educação. Felizmente mesmo com o tempo muito apertado Jonas Savimbi foi um pai que fez questão de fazer com que os seus filhos tivessem uma educação e formação sólida. Felizmente é isso que nos lega e o resto é o amor ao próximo e a vontade de fazer com os outros que estejam em posições inferiores também tenham uma oportunidade para poderem crescer.
 
DW África: E como político?
 
RS: Como político Savimbi deixou-nos a UNITA, com certeza, deixou-nos o ideário que até hoje continua a guiar os passos do nosso partido, consubstanciados na necessidade de fazer com que num país como o nosso, multiétnico, multicultural e mutiracial tenhamos sempre vários partidos políticos para poderem exprimir as várias vontades existentes no nosso país, traduzido numa só palavra, a democracia. Sabermos defender a democracia com o sistema, não melhor, mas aquele que melhor poderia interpretar a vontade dos angolanos.
 
DW África: Como lida com a má imagem que se pinta do seu pai enquanto político e homem que fez a guerra?
 
RS: Não me considero muito político, mas sigo a vida angolana e vou dando a minha contribuição, mas digo que isso tudo é humano. Os homens quando entram nas lutas e nas batalhas políticas nunca serão vistos só pela positiva, há sempre dois lados, pelo que eu responderia como sendo uma questão humana, o ser humano é assim e devemos aceitá-lo com tal.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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