Bancos deram menos créditos e tiveram mais lucros
14-03-2018 | Fonte: Mercado
 Os principais bancos de grande dimensão registaram uma retracção na carteira de crédito, durante o exercício económico de 2017, relativamente a 2016, constatou o Mercado através da análise dos balancetes do quarto trimestre publicados nos websitesdas instituições.
 
A carteira de crédito do Banco Millennium Atlântico (BMA), por exemplo (ver gráficos), encerrou o ano nos 395,7 mil milhões Kz, um recuo de perto de 11,5%, face a 2016, quando ascendia a 447,04 mil milhões Kz. Ainda  assim,  o  banco  detém  a maior carteira de crédito entre os bancos analisados pelo Mercado. No BAI, o maior banco privado de capital angolano, a carteira de crédito  recuou  2,8%,  passando  de 397,86 mil milhões Kz, em 2016, para  369,34  mil  milhões  Kz,  em 2017.
 
BFA lidera quedas
 
A carteira de crédito no BFA, por seu turno, recuou 17,2% em 2017, ficando em cerca de 194,80 mil milhões Kz, contra os 235,31 mil milhões Kz de 2016. A instituição mais lucrativa do sistema do sistema (69,76 mil milhões Kz), no ano passado, registou a maior retracção. O BIC não tinha divulgado, até ao fecho desta edição (madrugada de quinta-feira, dia 8 de Março), o balancete do último trimestre do ano passado. Mas, no terceiro trimestre, a carteira de crédito do banco liderado por Fernando Teles já havia recuado 8,3% face ao período homólogo. 
 
 
Os bancos analisados pelo Mercado registaram também quedas nas suas carteiras dos depósitos em 2017, com excepção da do BMA, que cresceu 8%, face a 2016.O BFA recuou 2%, e o BAI, 3,9%, mas o banco participado da Sonangol continua a ser maior relativamente a este indicador, com 1,09 biliões Kz.
 
Rácios afectados
 
A evolução destes indicadores influenciou, naturalmente,  o  rácio  de transformação das instituições em 2017. O rácio do BMA é de 49,4%, tendo caído 10,8 pontos percentuais (pp) em relação a 2016. O rácio do BFA foi de 18,4%, menos 3,4 pp, e o do BAI fixou-se em 33,8%, mais 0,4 pp. 
 
Os indicadores apontam que os bancos em causa emprestam dinheiro, mas em quantias insuficientes para atender à procura, o que tem reflexo na rentabilidade das próprias instituições bancárias. “Rácio de transformação baixo é sinónimo de menos riscos para as instituições financeiras, mas não de eficiência, porque, na maioria, principalmente os Big four, bancos universais e de retalho, os resultados derivam das captações de depósitos e concessão de créditos”, diz Rafael Simões, especialista em contabilidade e auditoria. 
 
 
Apesar de nunca se ter feito um estudo para fixar o rácio de transformação de depósitos em crédito ideal, Rafael Simões defende que, por uma questão de “bom senso”, os bancos comer ciais  podem  chegar  a 65%/70% e, em casos extremos, a 95%. Chegar ou passar a fasquia dos 100%, alerta, é “preocupante” para um banco.
 
Ou seja, o volume de crédito concedido jamais deverá ser superior ao das poupanças captadas de clientes, porque tal põe em causa a estabilidade e, na pior das hipóteses, a existência das próprias organizações financeiras, afirmou o também docente universitário.Para Emanuel Domingos, gestor bancário, os bancos comerciais são “conservadores”,  relativamente  à concessão de crédito, uma vez que optam por financiar projectos com taxas de juros elevadas e risco nulo.
 
“Velhos hábitos”
 
 
“Este é um hábito considerado velho”, explica. Os principais bancos comerciais angolanos, segundo Emanuel Domingos, “investem mais na aquisição de títulos e valores mobiliários do que na concessão de crédito”. Daniel Marcos, economista, considera que a redução da carteira de crédito é “um fenómeno que beneficia os próprios bancos, pois implica a entrada de dinheiro, proveniente dos devedores, tornando-os mais pujantes e capazes de suportar os riscos sistémicos”. “A redução do crédito tem implicações na economia, mas os bancos precisam de encontrar mecanismos para conter a crise, que reduziu a capacidade de os devedores pagarem as dívidas para com as instituições financeiras”, diz Daniel Marcos, adiantando que “os bancos são empresas, pelo que, como todas elas, estão voltadas para o lucro”. 
 
 
Daniel Marcos, também mestre em Contabilidade Financeira, considera normal tal fenómeno “porque em momentos de crise os bancos comerciais têm uma maior tendência para sanear a carteira de créditos, bem como reduzir os custos operacionais”. Apesar de o BFA apresentar a menor carteira de crédito  e  taxa  de transformação, quando comparado com os bancos da mesma dimensão, é o mais lucrativo no sistema. 
 
 
Os lucros ascenderam a 69,08 mil milhões Kz, mais 11,9%, face a 2016. Os lucros do BAI foram de 54,70 mil milhões Kz, um aumento de cerca de 10% comparativamente ao exercício anterior. O resultado líquido BMA foi de 23,82 mil milhões, um recuo de 4,3% face a 2016.
 
 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação
Foto-Destaque
Foto-Destaque
Questionário