Dilema de prisioneiros
25-03-2018 | Fonte: Correio Angolense (Severino Carlos)
Mais um “alquimista” do que propriamente “conhecedor da ciência económica” –  como internamente o qualificaram economistas e peritos em bancos –, Válter Filipe não aterrou no Banco Nacional de Angola (BNA) como um paraquedista. Não é paraquedista alguém que foi parar nesse importante cargo por ter merecido a confiança de José Eduardo dos Santos, Presidente da República e titular do Poder Executivo até às últimas eleições ocorridas em Angola. 
 
Mas convenhamos, em definitivo, que Válter Filipe não chegou lá com os créditos técnicos e científicos que têm, em geral, as figuras que em Estados mais desenvolvidos são encarregues de dirigir instituições financeiras da complexidade de um banco central.
 
Enfim, Válter Filipe foi governador do BNA simplesmente por ter caído no goto de JES. Por isso, nesse cargo não se lhe podia exigir um desempenho estritamente rigoroso e em conformidade com os mais elevados critérios científicos de governança de instituições bancárias. Estava ali para cumprir um guião e um papel que lhe foram estipulados a prazo. Tendo o próprio perfeita noção disso, o que Válter Filipe fez – durante o tempo que durou o seu curto consulado no BNA, que não deveria ter passado de um tirocínio – foi tratar de fazer o seu pé-de-meia, em moldes “trungungueiros” e que a prudência desaconselha.
 
 
Assim, até nessa matéria da acumulação primitiva de capital em benefício próprio, Válter Filipe fez as coisas como um principiante, deixando pegadas tão óbvias que fizeram com que, em prazo recorde, estivesse na boca do mundo, com todo e qualquer usuário das redes sociais a fazer-lhe a contabilidade, geral e analítica, dos activos que havia acumulado indevida e aparatosamente. Mas a verdade é que este antigo governador do BNA não fez mais do que os seus predecessores nesse posto e inúmeros titulares de outros cargos públicos não tenham feito.
 
 
O problema é que estando o regime a passar por estertores existenciais que o obrigam a ter de se branquear, procurando encontrar vítimas entre os seus próprios comensais, para que possa ter uma “segunda vida”, figuras quixotescas como Válter Filipe têm todo o potencial de uma luva para serem os bodes expiatórios a sacrificar. Assim, não tendo sido nada de premeditado, o então governador do BNA serviu na perfeição para a tentativa de golpe que, desencadeado já nos instantes finais do Executivo comandado por JES, quase levou ao sumiço de 500 milhões de dólares dos cofres do país. Mas diante do fracasso do golpe, Válter Filipe ficou, mesmo à mão de semear e melhor do que ninguém, vulnerável à condição de alguém para fazer o papel de sacrificado que o regime tem se esforçado até ao momento por encontrar, mas sem sucesso. Alguém que, no âmbito de um processo judicial devidamente mediatizado,  poderia ser finalmente apresentado à sociedade como o peixe graúdo condenado por um crime de colarinho branco. 
 
 
O problema é que se o regime assim pensou, a potencial “vítima”, no caso Válter Filipe, circunstancial ou providencialmente, terá pelos vistos encontrado forma de desatar o nó da corda já preparada para apertar-lhe o pescoço. Tudo indica que apesar das suas fraquezas, ele terá, afinal, os seus trunfos, um dos quais pode já ter sido lançado ao tabuleiro. Num momento em que se encontra indiciado como arguido pela Procuradoria-Geral da República no já celebrizado processo dos “500 milhões”, o ofício que no dia 7 de Agosto dirigiu ao seu mentor, José Eduardo dos Santos, ainda na condição de Presidente da República, é um documento que o Ministério Público, tendo de avançar com o processo, não pode de forma alguma ignorar.
 
 
Evidentemente esse documento está longe de inocentar Válter Filipe, mas traz abundantes detalhes do curso das negociações e da sua leitura fica subentendido o envolvimento de outros actores na trama – de tal modo que a tentativa de levar o antigo governador do BNA a assumir solitariamente as culpas já não se mostra sensata nem praticável. 
 
 
O ofício, cujo fac-símile o Correio Angolense publica mais adiante nesta matéria, é o mesmo que traz em relevo a assinatura com o “auturizo” do ex-Presidente da República. Dele subentende-se também que, no âmbito dessa operação, Válter Filipe não deu um único passo de que não informasse devidamente o então titular do Poder Executivo. Cronogramas, viagens, montantes, vantagens e desvantagens, está lá tudo.
 
Fica claro neste momento que, a ser verdade que foi o próprio Válter Filipe quem promoveu a fuga desse ofício para o espaço da opinião pública, com as redes sociais de permeio, o que ele terá feito foi avançar uma torre no tabuleiro de xadrez, de maneira a defender-se de um ataque que se traduziria em ser responsabilizado por tudo sozinho, como parece ser, nitidamente, a tendência. 
 
 
Válter Filipe avançou a “torre”, mas ainda tem de reserva a sua própria “rainha”, para o que der e vier. Isto é, tudo indica que não é o único documento sobre a operação dos “500 milhões” que ele tem em sua posse.
 
 
Que Válter Filipe ainda terá outros trunfos do género guardados na manga, isso é perceptível, a avaliar por uma recente intervenção do analista João Paulo Ganga na TV Zimbo, que assegura ter papéis que comprovam que o ex-governador do BNA estava mais limpo que a neve nesse processo. Ganga não incorreria num “bluff” desses, arriscando indispor-se ele próprio com os poderes e a artilharia que estão do lado dos que terão pretendido incinerar Válter Filipe. Mas que haverá aí qualquer coisa guardada na manga, lá isso haverá. 
 
 
Desde logo porque é fácil calcular que Ganga e Válter Filipe ganharam intimidade e proximidade um pelo outro quando partilhavam ambos o mesmo espaço de análise na TV Zimbo. Tempos em que VF ainda não tinha sido cooptado pelos “olheiros” de José Eduardo dos Santos para ser o governador “faz de conta” do Banco Nacional de Angola.         
 
 
Mas está claro que a situação neste momento conforma o que, no âmbito da teoria dos jogos, se poderia considerar como “dilema de prisioneiros”. Os que eventualmente pretenderão sacrificar o antigo governador do BNA, apresentando-o como o “tubarão”, ou a grande figura da sociedade e do universo político do país finalmente apanhado nas malhas do combate à corrupção, tenderão a recuar as tropas. Isto, exactamente, por não saberem até onde ele, Válter Filipe, estará disposto a ir para não ser sacrificado. Até aqui a suposta reacção de Válter Filipe é suficientemente enigmática para refrear o passo aos seus opositores.
 
 
Mas o dilema de prisioneiros põe-se também, por outro lado, na actuação das novas autoridades de uma maneira geral. Sob a chancela do Presidente João Lourenço, as autoridades judiciais estarão realmente predispostas a levar este processo até às últimas consequências, responsabilizando todos os envolvidos, doa a quem doer, sem receio de que Válter Filipe possa dar com a língua nos dentes e revelar tudo o que sabe?
 
 
Nunca se avançou tanto em termos de justiça contra a corrupção como neste processo de investigação em torno do desvio dos “500 milhões”. Tanto que recuar agora neste processo seria expor-se a mostrar que as promessas de combate à corrupção e à impunidade não passam de mero jargão propagandístico, sem efeitos práticos.
 
 
Neste último caso, o ónus que isso acarreta seria o de ver decrescer fragorosamente a credibilidade até certo ponto ganha nos círculos internacionais, que se têm revelado expectantes com as medidas até aqui formuladas pela governação de João Lourenço para credibilizar as instituições nacionais. Todos vimos, contudo, que os Estados Unidos, por exemplo, na voz da sua nova embaixadora acreditada na capital angolana, colocaram a fasquia bem alta no quesito do combate à corrupção, mostrando que pretendem de Luanda medidas mais pragmáticas e que não se cinjam a meras promessas.
 
 
Em suma, há aqui realmente um dilema de prisioneiros em que estão metidos diversos agentes e actores. Mas a verdade é que para todo o mundo o tempo não espera e está a esgotar-se. Alguma coisa tem de ser feita, mas que não se limite a simulações próprias da política do jajão: do género de se dar um passo à frente, mas logo após dois para trás, como parece estar a ser o caso presentemente.
 
 
Os dilemas de prisioneiros também se resolvem por via de mais negociação política, mais colaboração envolvendo todos os protagonistas nacionais, a fim de se achar soluções para a crise que sejam colectivamente mais satisfatórias.
 
 
 
 
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